Política irritada: as semelhanças entre bolsonaristas e petistas


Por Bryan da Fonseca Araújo

Recentemente fui surpreendido por uma entrevista do ex-ministro da Justiça, Sérgio Moro, ao jornal Folha de São Paulo. Ele comparou os defensores do governo Bolsonaro (os quais o dito cujo possuía a adoração até pouco tempo atrás) com o eleitorado petista, em sua incapacidade de reconhecer os crimes cometidos pela gestão a qual nutrem apreço.

Hipocrisia à parte, tal fala me inquietou o pensar. Partindo da premissa de que até relógio parado acerta a hora duas vezes no dia, até que ponto os interesses eleitoreiros da fala do ex-juiz tem alguma conexão com a realidade?

Tal inquietação me trouxe ao papel, mais precisamente à análise do comportamento, do que eu diria ser do eleitor governista brasileiro, especificamente desses dois grupos: os apoiadores do governo Bolsonaro e os apoiadores dos governos petistas. E antes que bradem, sim deixei fora da análise os apoiadores do governo Temer, até porque encontrar algum seria uma tarefa quase impossível.

Adianto que o presente texto tem o objetivo de desagradar gregos e troianos, e para resumir o sentimento destas letras, utiliz-me das palavras de alguém bem mais hábil com elas do que eu, o poeta Carlos Drummond de Andrade:

“Eu quero compor um soneto duro
Como poeta algum ousara escrever.
Eu quero pintar um soneto escuro,
Seco, abafado, difícil de ler.
Quero que meu soneto, no futuro,
Não desperte em ninguém nenhum prazer.
E que, no seu maligno ar imaturo,
Ao mesmo tempo saiba ser, não ser (…)”

Cara leitora e caro leitor, se você ainda não fechou a página e chegou até este ponto, acredito que já tenha percebido o norte a ser seguido, portanto, abandonai todo partidarismo vós que passai desta linha!

Antes de mais nada, cabe esclarecer que a presente análise se resume apenas a comportamentos, visto que é evidente a diferença entre os valores defendidos pelos dois grupos. Não serei eu o autor de outro “uma escolha muito difícil”. Apenas um desses movimentos prega o fechamento do Congresso, do STF e exalta a ditadura vivida no país, e isto está bem claro.

Contudo, é justamente por não haver pretos e brancos na política, que esse mar cinza acaba por confundir a análise de muitos, que gostariam que a vida fosse tão complicada quanto o enredo de uma novela, que te avisa de antemão quem são os vilões e que são os mocinhos.

Sigamos.

A princípio a primeira similitude que me veio à mente é a aversão aos grandes veículos de imprensa. Ambos acreditam que a grande mídia trabalhou para sabotar os respectivos governos, sem contudo, que alguém assuma ser o beneficiário dessas ações.

Os bolsonaristas acreditam em uma imprensa mundial comunista que trabalha pela volta do PT e eventual instalação de uma ditadura comunista não só no Brasil como no mundo, comandado é claro pela China. Já os petistas acreditam em um complô da grande mídia com o empresariado brasileiro, associado dos interesses estrangeiros, para difamar a então Presidenta Dilma, “novelizando” escândalos de corrupção, os quais o partido não possuía qualquer envolvimento, para prejudicar e derrubar o então governo.

O fato é que, mirabolâncias a parte, ambos gozaram do apoio de alguns setores da imprensa, ao tempo em que eram massacrados por outros, algo que é até bem comum em democracias como a americana, por exemplo. Vale ressaltar também que ambos se utilizam de blogs alternativos de notícias na internet, que mais deveriam vir com o anúncio de “propaganda paga” onde a meia verdade é a nova verdade, isso quando não descamba para a péssima e velha fake news.

Outro ponto de convergência destes grupos que me chamou a atenção dá-se no fato da suposta e constante interferência estrangeira na queda de popularidade desses governos. Como dito anteriormente, para os bolsonaristas, seguindo o mantra das teorias olavistas, tudo não passa de um complô da China comunista em parceria com o Foro de São Paulo, que vem sabotando o governo Bolsonaro.

Do lado petista vem ganhando força em páginas ligadas ao partido, a retórica de que as manifestações de 2013 foram uma manipulação dos EUA, por meio do então vice-presidente Joe Biden, com interesses financeiros em riquezas brasileiras, que se utilizando daqueles movimentos revoltosos como massa de manobra, buscou por meio das manifestações, desestabilizar o governo, o que viria a resultar no golpe três anos depois. Ah e tudo isso, claro, com o apoio da grande mídia.

O terceiro e mais recente ponto de encontro, se dá na aliança com o Centrão. Aquele mesmo que uma hora concentra tudo de pior da política nacional e na outra se faz necessário em prol de uma governabilidade. Não dá para não perceber a hipocrisia gritante de ambos os lados nessa questão.

Ao criticar o Bolsonaro pela sua aliança com o centrão, os apoiadores do petismo se esquecem que desde o início do governo Lula estavam na base de apoio do governo o PTB desse mesmo Roberto Jefferson que hoje se mostra um dos maiores defensores do bolsonarismo; o MDB dos agora traidores Temer, Renan Calheiros, Eduardo Cunha e Sérgio Cabral; o PP do Maluf entre outros.

O mesmo vale para os defensores do governo Bolsonaro, que até pouco tempo atrás tratavam tais partidos com algo demoníaco a ser expurgado da política brasileira e agora convenientemente esquecem de todos os escândalos de corrupção pretéritos da sua hoje mais nova base aliada, adquirida com a diretoria de um banco aqui e com a direção de um fundo bilionário ali.

Contudo, quando confrontados sobre essa contradição, ambos vestem o manto do utilitarismo e são pragmáticos ao afirmar que “era necessário”.

Pois bem caro leitor e cara leitora, a esta altura você já deve estar me odiando, me xingando de todos os nomes do livro, e achando que provavelmente faço parte desse complô comunista/imperialista que tenta desesperadamente afastá-lo ou afastá-la da verdade que você já está careca de saber. E é por isso que, mais uma vez, eu irei me refugiar nos braços daquele bem mais iluminado. Nas palavras de Drummond, me despeço lembrando que:

“(…) esse meu verbo antipático e impuro
Há de pungir, há de fazer sofrer,
Tendão de vênus sob o pedicuro.
Ninguém o lembrará: tiro no muro,
Cão mijando no caos, enquanto arcturo,
Claro enigma, se deixa surpreender.