Frente ampla, pero no mucho


Ciro Gomes não tem qualquer direito divino de liderar a tal oposição ao governo Bolsonaro. Nem ninguém. A liderança política nunca é autodeclaratória. É antes um processo em que o líder é legitimado pelos liderados, porque verdadeiramente os representa. Aliás, corroborando para o que o professor Wanderley Guilherme disse recentemente em entrevista¹, é bom que ninguém chegue a esse amplo bloco oposicionista posando de líder natural. Essa liderança, portanto, deve ser construída ao longo dos duros anos que se avizinham, com muito esforço e diálogo.

Mas a gritaria de certo Alexandre Mendes contra Ciro Gomes em artigo recente para uma revista²- “voltada para a reflexão em tempos de… gritaria”- não pode encontrar ouvidos moucos. Objetivando discutir as bases teóricas e práticas para organização de uma “ampla” frente democrática de oposição a Bolsonaro, o articulista começa por sugerir um veto liminar: pretende proscrever a participação de … Ciro Gomes. Como se vê, a frente é ampla, pero no mucho.

O autor sanciona o veto por meio de uma série de dispositivos presentes no Regimento Interno da Esquerda Autêntica (RIEA). Dispositivos que passam a valer tanto para os blogs mais chapa brancas, quanto para as bocas mais linguarudas. Vamos ver como funciona:

  • “Depois de tentar surfar no antipetismo para viabilizar sua candidatura no final do primeiro turno, quando já estava nítido que não seria o segundo colocado…”

Esse dispositivo parte da severa crítica que Ciro empreendeu contra o projeto de Constituinte beijado, e logo escarrado, durante a campanha por Haddad. Ora, essa crítica não é uma tentativa de “surfar em antipetismo”, mas simplesmente uma tentativa de mostrar aos eleitores que este projeto é uma estultice que nem Haddad acredita e, de quebra, revelou o grau de amadorismo e inautenticidade de uma campanha que se valeu de uma gambiarra, um gato, direto da cadeia, para dar luz a um poste. Um dia após o primeiro turno, Haddad escarra o projeto ao vivo para William Bonner. E quem estava certo?

Além disso, Ciro mencionou algumas vezes a derrota acachapante de Haddad no primeiro turno para o farsante Dória e para brancos e nulos em todas as urnas da capital paulista para afirmar a fragilidade da candidatura fantasia. Ciro surfando no antipetismo ou petismo viajando na maionese, colocando um candidato pouco competitivo para frear os trotes antipetistas de um cavalão?

  • “Após uma miserável “neutralidade” na disputa do segundo turno, quando ficou explícito o seu desejo de autopreservação eleitoreira”

Após declarar apoio crítico ao PT logo no primeiro dia após do segundo turno, Ciro pinou. Não sem ter transferido 90% dos seus votos para Haddad, numa “miserável neutralidade”, que declarou apoio crítico ao PT imediatamente após o resultado das urnas. Lembremos ainda que sem Ciro, Jair atropelaria o PT ainda no primeiro turno. Se Ciro tivesse todo esse poder de puxar voto que o PT lhe atribuiu, teria ganhando a eleição. Safo que é, preferiu não se contaminar de petismo e sobreviver. E sobreviveu. Ademais, subir em palanque de traíra mais uma vez? Se sujar a troco de quê? A derrota era um dado. E se a busca pela autopreservação não for uma qualidade política, que os anjos de Madison acabem com os governos!

  • “…nada mais coerente que o desfecho numa ofensiva difamatória, com um discurso que resvala para o bolso-lavajatismo e tenta desesperadamente gerar identificação com o eleitorado doimpresidente”.

Mais um dispositivo discursivo do RIEA, quanta obstrução à lógica! Para o PT, qualquer crítica é “ofensiva difamatória”. Quer dizer que o político que se declara oposição ao bolsonarismo e uma alternativa ao petismo deveria dar a outra face a cada um dos milhares de tapas que o petismo lhe presenteia diariamente? Marina desacostumou os petistas. Mas Ciro não pretende amansar. Bateu, levou, Boff. “Ofensiva difamatória” é mais uma tentativa de se impedir críticas ao PT com a balela de que “ainda não é a hora”. Mas a hora passou e o petismo, que preservou, preservou não, a palavra é ESTIMULOU, a ida de Bolsonaro ao segundo turno é que foi o responsável por sua vitória. Não Ciro. Vamos lembrar ainda quem disse que receberia a “turma de Moro a bala” e quem disse que “Moro fez um bom trabalho”.

  • “Estes movimentos performáticos apenas confirmam a falta de alicerce político do terceiro colocado na disputa, seu carreirismo e falta de compromisso real com o país, que nos levaram a desacreditá-lo como alternativa de esquerda nas eleições”.

Para acabar com lacre de ouro, ainda tem a “falta de alicerce político do terceiro colocado”. Relembrar é viver: será que o articulista se deu ao trabalho de conhecer o Projeto Nacional proposto por Ciro? Se o programa político é a viga do alicerce de um candidato, podemos lembrar do adobe petista sem projeto de país que buscou com a fraude Lula-Haddad levar a eleição com uma gambiarra discursiva sem discutir propostas concretas para o país superar atraso relativo, se reindustrializar e promover educação capacitadora. Mas, sim, é preciso mais. Estacas escavadas para construções profundas. E o que são os treze milhões de votos de Ciro em um contexto de odienta polarização e escassez de recursos? Portanto, falta de alicerce não há.

Carreirismo? Não seria mais fácil subir em palanque de PT para buscar cargo no eventual governo? “Falta de compromisso real com o país”? Uai, a ampla discussão política por mais de 3 anos em diversas universidades Brasil, a construção de um projeto nacional de desenvolvimento, a disposição para fazer oposição democrática ao governo eleito indicam falta de compromisso com o país? Se o autor crê que sim, sugiro que visite a estratégia do PT de fazer deputado. Deu certo! Isso sim é compromisso!

Quanto à ampla frente de oposição, “a derrota não pode nos aconselhar a voltar a nossas zonas de conforto”. Zona de conforto é precisamente a falta de clareza crítica ou o facciosismo do articulista ao impor um veto liminar à Ciro à “ampla” frente de oposição que pretende forjar e que, por isso, parece natimorta.

 

 

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