“A ordem do dia é propor, propor e propor!” Ciro mostra o caminho das próximas lutas


As palavras de Ciro na Live transmitida na última terça-feira (04) representam os sentimentos predominantes de todos aqueles que se preocupam seriamente com o estabelecimento de estratégias para a superação das crises econômica e, principalmente, humanista pelas quais estamos passando.

Muitos dos argumentos que ele coloca ali podem ser aproveitados como poderosas armas da crítica contra o já infame desgoverno de Jair Bolsonaro. A insanidade do projeto Escola sem Partido, a inconstitucionalidade do possível aprofundamento da Lei Antiterrorismo, o desrespeito pelo trabalhador no intuito de reduzir seus direitos, e até mesmo os equívocos crassos de política econômica externa (mesmo antes da posse), são alguns dos temas que Ciro trata neste vídeo de quase uma hora de duração. Na transmissão, Ciro se propôs a responder perguntas variadas, e como não poderia deixar de ser, o líder trabalhista foi novamente questionado sobre sua posição em relação ao PT e teve de discorrer sobre todos os motivos que mostram o porquê de não ter feito campanha com este partido no segundo turno das eleições de outubro, mais uma vez.

Contudo, ao que me pareceu, Ciro parecia bem mais interessado em conversar sobre futuro do que debater o passado, e quando conseguiu fazê-lo (quando o gênero de perguntas o permitiu), demonstrou que possui metas muito bem planejadas e já bem encaminhadas para os próximos anos. Isso não significa que Ciro não irá se debruçar sobre os desmandos do governo ultradireitista, muito pelo contrário, deixou bem claro que o novo Bloco da Frente Democrática caminha de vento em polpa. Segundo ele, a maior parte de seus esforços será no sentido de utilizar todos os mecanismos políticos (movimentações parlamentares ou de base, na rua) para obrigar Bolsonaro a atuar dentro dos limites democráticos. E esta, de fato, é a necessidade mais urgente no atual momento. Afinal, é justamente pelo fato de existir um risco de radicalização do governo exercido pelo capitão da reserva que se faz mais essencial exaltar as instituições democráticas e confiná-lo dentro de suas normas.

Recusar o diálogo, rejeitar qualquer proposição e lançar acusações, chamando-o precocemente de ditador, por exemplo, só o fortalece. Está cada vez mais claro o quanto exaltar sua postura autoritária e classificar seus eleitores de “fascistas” tornou-o mais forte politicamente na disputa eleitoral. Estes impropérios e palavras de ordem funcionam apenas entre militantes de esquerda, mas fora deste círculo não surtem qualquer efeito negativo na imagem de Bolsonaro. Pelo contrário, desperta na população despolitizada uma rejeição crescente aos progressistas, que para eles se assemelham à crianças birrentas que não aceitam quando a oposição assume o poder (e não deixam de ter certa razão se considerarmos a parcela cirandeira da esquerda brasileira). Portanto, o que Ciro quer fazer é trazê-lo para dentro da normalidade das instituições democráticas. E esta é, obviamente, a estratégia mais sensata, já que a imaturidade e o autoritarismo intrínsecos na personalidade do capitão, tal como na de seus asseclas, podem levá-lo à uma real tentativa de rompimento com estas mesmas instituições.

E embora Ciro tenha demonstrado mais interesse na discussão de novos caminhos para o campo progressista no Brasil, a maior parte da mídia que o apoia (páginas, blogs pró-Ciro e afins) parece não ter consentido com esta sua diretriz, pois focaram-se predominantemente na divulgação de seu depoimento sobre suas divergências com o PT. Suas ideias e propostas para as estratégias futuras foram quase que ignoradas por uma parte seus próprios apoiadores. Tudo bem que este fenômeno é compreensível. Estamos todos ainda machucados e sensíveis devido aos fortes debates – recheados de acusações e ofensas – que ocorreram nos últimos dias na disputa pela narrativa hegemônica sobre o processo eleitoral. Sabemos também que nossa disposição para participar destes debates e contar nossa versão da história surgiu como uma necessidade de proteger a verdade perante o furioso ataque petista a Ciro, levado a cabo no intuito de livrarem seu próprio partido do fardo de terem elegido o grande algoz dos progressistas.

Entretanto, a fase do contra-ataque para evitar o estabelecimento da narrativa petista começa a dar lugar a uma outra nova fase, mais importante e mais efetiva para vida de milhões de brasileiros. Não nos caberá mais empregar nosso tempo e energia defendendo aquilo que foi óbvio no passado recente. Esta disputa foi deveras intensa e muito importante para explicar aos milhões de eleitores e simpatizantes do Ciro que suas atitudes foram perfeitamente coerentes com a visão abrangente que o mesmo possui da política nacional. Mas neste momento os atores já estão tomando sua posição e os lados já foram escolhidos. Dificilmente alguém mudará de opinião antes de conferir os próximos acontecimentos. A esquerda identitária e a juventude da intelligentsia paulistana ficarão do lado do PT até que os fatos as obriguem a reconhecer seu erro, e aqueles que buscam um verdadeiro avanço social e econômico para o país se aliarão à única liderança com capacidade de superar o predomínio da doutrina liberal – que é a verdadeira carrasca do nosso povo, embora muitos ainda acreditem que devemos concentrar nossa atenção na luta contra o fascismo. O governo de Bolsonaro, como diz o próprio Ciro, não tem como dar certo. As contradições são gritantes e a lua de mel com seus eleitores vai terminar bastante cedo. Quando isso ocorrer, portanto, o povo recorrerá à liderança que tenha apresentado as melhores proposições e os projetos mais benéficos para as classes pobres.

E é por isso mesmo que Ciro bem destacou: a ordem do dia é “propor, propor e propor!” Reagir aos ataques não tornarão Ciro e seu projeto de desenvolvimento conhecidos pela população. Precisamos, primeiramente, estudar sobre as estratégias e os efeitos da aplicação das ideologias desenvolvimentista (pelo viés econômico) e trabalhista (pelo viés político) num projeto de país. Estamos carecas de ouvir Ciro dizer que não há exemplo de país desenvolvido no mundo que tenha crescido com políticas econômicas liberais. O laissez-faire (livre-mercado) eles defendem para seus dependentes na periferia do mercado mundial, isto é, na América Latina. Só poderemos crescer com um Estado forte, planejador e investidor ativo nos setores estratégicos, políticas econômicas estas que consistem no desenvolvimentismo. Já o trabalhismo, que visa atenuar os efeitos do capitalismo através de políticas públicas direcionadas ao bem-estar social da classe trabalhadora, foi iniciado no Brasil por Vargas e continuado por Brizola, possuindo uma vasta base histórica. Num ambiente absolutamente hostil aos avanços sociais – vide a repulsa à esquerda e o crescimento mundial da extrema-direita – o trabalhismo surge como único remédio possível para esta crise humanista que vivemos, pois negocia a conquista de direitos do povo com o patronato ao invés de impor um combate revolucionário que não se pode vencer.

Em segundo lugar, é necessário propagar estas ideias aos quatro ventos para fazê-las chegar nos ouvidos das pessoas de todas as classes. Elas precisam saber que esta dicotomia “ou geramos crescimento econômico ou investimos em serviços públicos” não se sustenta. Um crescimento equilibrado acompanhado de diminuição da desigualdade brutal que nos assola não é apenas possível como também é o único caminho para o qual a sociedade pode rumar se quiser evitar rupturas extremamente traumáticas. Precisam entender quais são as políticas públicas e econômicas que verdadeiramente lhe beneficiam, para que não voltem a acreditar nas soluções fáceis do primeiro aventureiro que surgir alegando ser seu salvador. Faz-se essencial que enxerguem que as pautas defendidas pelos bancos e grandes empresários não lhes trará vantagem alguma, muito pelo contrário, lhes tirará até mesmo o que não possuem no objetivo de aumentar a lucratividade dos mesmos. Chegou a hora de parar de dizer “eu avisei” aos eleitores de Bolsonaro. Este revanchismo os colocará de encontro com outro metido a messias (Sérgio Moro ou talvez General Mourão) nas próximas eleições. Precisamos esclarecer, clarificar, elucidar, propor, propor e propor.

Se possível, busquemos fortificar o PDT. Afinal, pela primeira vez desde a morte de Brizola, temos um partido progressista com condições de disputar os maiores cargos políticos da nação. Quantos de nós progressistas já não se viu obrigado a votar no PT “com ressalvas” por não encontrar outra opção no cenário político nacional (e quantas vezes!)? Pois não precisamos mais ficar reféns deste partido egocêntrico. Podemos construir um PDT que possua uma raiz ideológica trabalhista forte. Para tanto, será necessário oxigená-lo e renová-lo, inundando-o de juventude e engajamento. Entretanto, nada disso funcionará se não nos conscientizarmos de nosso papel de divulgadores do Projeto Nacional de Desenvolvimento e não levarmos estes caminhos ao conhecimento das bases em todos os cantos deste Brasil. Como Ciro disse na transmissão, sua geração venceu todas. Façamos, portanto, a nossa parte para que nossa geração reencontre o caminho das vitórias, rumo a um país mais justo para todos.

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