Vidas arrancadas


Por Marconi Bourbon

Vivemos em tempos obscuros, tempos de incertezas. Desde meados de 2013 que o país passa por momentos estranhos, começando com movimentos locais por conta de R$ 0,10 a 0,20 de aumentos nas tarifas de transportes urbanos. A classe média alta infiltrou-se e transformou o movimento em críticas, muito delas assertivas, contra os gastos com estádios para a Copa do Mundo, se aproveitando dos escândalos expostos pela Operação Lava Jato. Depois da reeleição de Dilma Roussseff, a oposição frustrada com a virada no 2º turno das eleições presidenciais, se volta em uma operação que tinha como principal finalidade a paralisia do país, barrando os projetos do Governo Federal e impondo as chamadas “pautas-bombas”.

Tempos obscuros

Desse momento para cá, o país caiu em um poço sem fim. Derrubada de uma Presidente eleita legitimamente, operada por políticos sabidamente corruptos – Eduardo Cunha, Geddel Vieira, Michel Temer -, que após assumir a Presidência, jogaram o país em uma crise profunda, com aprovações de projetos cujo a meta principal era tirar direitos dos trabalhadores, incentivar privatizações e beneficiar a classe mais rica do país, tudo sob a alegação de que isso traria um crescimento econômico, o que até agora não ocorreu.

Aí vieram as eleições Presidenciais de 2018, e mais uma vez o país se mostrou perdido. Uma população praticamente dividida entre o “Amor e Ódio”, entre a corrupção institucionalizada e ao seu combate. Tudo sem sequer demonstrar um projeto sólido, um projeto com estruturas definidas que visassem a reconstrução do Brasil. Mais um momento obscuro, o país, os cidadãos brasileiros se mostraram totalmente perdidos. Um lado mostrando seu “amor” incondicional a um político, sabidamente impedido de concorrer às eleições e grande parte do outro lado apoiando um político desprovido de projeto, desprovido de conhecimento para governar um país, salvo do debate político por uma facada, que até hoje as investigações não foram bem claras.

Com a posse do atual presidente, se demonstra claramente que o único projeto é a entrega das nossas riquezas e a destruição da oposição. Passados mais de 18 meses de governo e o país continua rumo ao fim do poço, que até o momento parece não ter fundo.

Agravamento da crise: pandemia e desinformação

Com a chegada da pandemia no Brasil esse governo mostra mais uma vez, a sua verdadeira cara. Um presidente sem formação científica, muito menos na área médica, receita medicamentos sem comprovação de eficácia, imita o presidente norte-americano, negando a gravidade dessa famigerada doença, mostrando-se contra todas a orientações científicas, mesmo assistindo à degradação de outros países que sucumbiram ao covid-19.

Daí começa uma guerra institucional entre as diretrizes do Ministério da Saúde e as ações e comportamento do Presidente da República. Entre o Governo Federal e os governos estaduais e municipais, gerando conflitos de informações e ações. Enquanto a OMS informa que o isolamento social é a melhor saída para evitar o colapso do nosso sistema de saúde, o Presidente age e trabalha para o lado oposto, visando salvar CNPJ’s a CPF’s, demonstrando claramente que o seu objetivo/projeto não é a melhoria de vidas dos brasileiros é o fortalecimento das grandes instituições privadas nacionais e, principalmente, estrangeiras.

Hoje, completando 5 meses luta contra a pandemia, fica evidente para todos que o vírus da incerteza, da desinformação e o da Covid-19, está dando um verdadeiro baile em todos os gestores públicos. Onde se vê a fraqueza, a fragilidade em que vive o nosso país nas mãos pouco determinadas em realmente combater a pandemia, com raríssimas exceções.

Efeitos trágicos do descaso das autoridades

Nesse momento fica evidenciado que a falta de colaboração e cooperação entre os três níveis de governo foi e ainda está sem um desastre para o Brasil. A economia ruiu, grande parte da população está passando por privações, sem ter o mínimo para comer. O Brasil falhou e falhou feio.

O isolamento social sempre se mostrou precário, ou melhor, ineficiente. As autoridades não souberam agir a tempo e tentar diminuir os efeitos danosos em que chegamos. Não é de hoje que falo a todos que o caminho correto seria o lockdown, hoje estaríamos com quase tudo reaberto. Um fechamento geral de 20 a 25 dias, seria o suficiente para derrubar a curva de contaminação, mas infelizmente isso não ocorreu. Ainda sou totalmente favorável a isto, só não tenho certeza da sua eficácia nesse atual cenário. As ações de governadores e prefeitos mostraram-se insuficientes para minimizar os danos e isso fica claro quando vemos que a curva de casos positivos e de mortes só aumenta, alcançando nesse momento uma pequena estabilização, mas não redução.

Outra falha dos governos é a redução de investimento em testes eficientes de detecção da Covid-19. Em um país de mais de 200 milhões de habitantes, só foi testada pouco menos de 10% da população. Isso é um verdadeiro descaso das nossas autoridades. Tenho plena consciência que a falta de cooperação do Governo Federal tem grave influência nisso, mas não exime a culpa dos governadores e prefeitos, principalmente porque entre eles também não há consenso e cooperação.

Estamos vendo hospitais, principalmente os públicos, informarem da falta de medicamentos e equipamentos, tanto de prevenção quanto de tratamento. Não estamos vendo esforços para pressionar o Governo Federal a centralizar a compra de todos esses insumos, necessários no combate ao coronavírus. É evidente que o Governo Federal não tem interesse nisso e que ele que é justamente a derrocada dos governos, principalmente ligados a oposição.

Perdas humanas

Ao sentir na pele a falta de toda essa desastrosa gestão no controle e combate a pandemia, com a perda de um ente querido, de um familiar, vendo o mesmo acontecer com colegas de trabalho, com amigos próximos e vizinhos. No meu caso perdi minha segunda mãe e vimos a obscuridade dos números apresentados pelo Governo do Estado em relação a ocupação de UTI’s no momento em que foi constatado a necessidade de uma vaga para seguir o tratamento, os números informavam que 87% dos leitos estavam ocupados. Entretanto, só depois de 24h, muito esforço, ajuda de amigos médicos e amigos ligados ao Governo do Estado é que conseguimos uma vaga, mas infelizmente a situação dela não estava boa e os médicos aconselharam não fazer a transferência, a situação estava bem crítica. E pouco mais de 48h depois de dar entrada no atendimento hospitalar, ela não resistiu.

Outro caso é da mãe de um amigo, que estava internada em outro hospital e o estado se agravou. A partir daí começou a saga dele em busca de uma vaga em UTI, no momento segundo o Governo do estado que informava ter por volta de 75% das vagas ocupadas, número apresentado para justificar o início do plano de flexibilização. Mesmo assim quando esse amigo foi às redes sociais solicitando ajuda para conseguir a tal vaga, depois de quase três dias de busca, isso mesmo, três dias, foi que surgiu uma vaga no mesmo hospital, e mesmo assim levou mais de 4h para tentar estabilizá-la e assim fazer a transferência, que ocorreu no dia 10/07. Mas, foi tarde demais para conseguir vencer essa maldita doença. Na noite do dia 10 para 11 ela veio a falecer.

São momentos difíceis que vemos constantemente nos noticiários e no nosso dia-a-dia. Famílias destroçadas e desconfiguradas por falta de ações mais enérgicas de nossos governantes. Basta dar uma saída às ruas de nossa cidade para ver isso, trânsito quase caótico, pessoas “batendo perna”, muitas delas até sem máscara, ônibus lotados, o comércio operando as escondidas. E nas periferias? Ah, lá não tem pandemia, tudo na mais perfeita normalidade, o que mostra, mais uma vez, falta de fiscalização dos nossos gestores e a disseminação do vírus a todo vapor.

Perdas econômicas

Por outro lado temos os empresários, microempreendedores e os chamados MEI’s, que pela falta de um apoio concreto e eficaz, principalmente do Governo Federal, único capaz de gerar recursos no volume necessário para o socorro a economia, mostrando a sua incompetência em gerir o país, levando várias empresas à falência, a extinção de vários empregos, a catástrofe econômica.

Vimos que grande parte do socorro aos trabalhadores formais e informais só veio após pressão do Congresso, porque até então as ações vindo do Governo Federal não atingiram o objetivo proposto. Primeiro com a liberação de 1,3 trilhões de reais das reservas do depósito compulsório, liberado para que os bancos socorressem as empresas com empréstimos com juros baixos e carências maiores, o que não ocorreu.

Observamos diariamente nos nosso noticiários relatos de vários empresários informando da dificuldade em obter esses créditos, informando que os bancos estavam exigindo garantias difíceis de cumprir, já que a maioria das empresas estão fechadas, totalmente sem meios de obterem receitas.

Só agora as instituições financeiras, ditas públicas, como o Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal, BNDES e Banco do Nordeste abriram suas agências com o novo programa de apoio ao empresariado brasileiro, depois que muitas empresas fecharam suas portas definitivamente.

Quero deixar bem claro que esse texto é a minha visão, em momento algum expresso a visão do núcleo EmFrente – Manoel Bomfim, do qual faço parte da coordenação e muito menos da Todos Com Ciro, da qual sou apenas um colaborador. O presente texto é parte da minha indignação e insatisfação com os atuais governantes, seja por se mostrar totalmente ineficientes e irresponsáveis, seja pela omissão ou ainda pelas falhas nas suas ações. Não é um mero descontentamento pela falta total de visão e pulso firme para domar esse grande mal que assola nosso planeta, é a falta de uma perspectiva de um futuro claro.


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