A unidade da esquerda: o novo alvo da imprensa brasileira


Texto de: Diego de Oliveira

A corrida presidencial já começou. Traçando uma analogia pretensiosa, podemos afirmar que, aqui no Brasil ela é uma mistura caótica do que há de mais empolgante nas corridas de atletismo que, por regra, assistimos apenas nos jogos olímpicos. Uma mistura de maratona, revezamento 4×100, culminando num cem metros rasos alucinante, onde, para o bem ou para o mal, quase tudo pode acontecer.

Como em toda corrida, nesta que proporciona ao vencedor o cobiçado troféu de presidente da república, também há os mais diversos tipos de velocistas. Há aquele que queima a largada e sequer entra na disputa, o que se impõe e ganha destaque na resistência longa e dolorosa de uma maratona ou até mesmo aquele verdadeiro cavalo de corrida que chega atropelando o que vê pela frente e que, mais adiante, é pego no flagra em algum exame antidoping. Tem de tudo. Analogias a parte, entretanto, há dentre todos esses, um importante corredor, conhecido por sua presença constante em todas as corridas, por sua volumosa habilidade em alternar as raias, correndo por fora tão bem quanto por dentro, sempre se impondo assustador na reta final e nunca subindo no pódio, deliberadamente. Este habilidoso e escorregadio velocista é a imprensa brasileira.

Já não é novidade para nenhum brasileiro a terrível influência que a imprensa, através do que popularmente atribuímos como “grande mídia”, exerce na condução da nossa política, se fazendo presente em todos os momentos importantes do país. Sempre defendendo os seus próprios interesses e dos seus pares. Aqui poderíamos dissertar longamente sobre a imensa reponsabilidade que os meios de comunicação de massa devem ter para com a população, sobre o escândalo das concessões públicas, mas sugiro que não o façamos. O propósito do presente artigo é levantar algumas questões pontuais sobre a conduta da imprensa no presente e alertar sobre os riscos que estamos correndo.

Ainda que estejamos passando pela mais grave crise de nossa história recente e que os problemas estejam se acumulando aos montes, os mais otimistas – e eu sou um deles – diriam que o futuro próximo que se desenha para começar com o resultado dessas eleições parece ser o melhor possível para o povo brasileiro. Talvez não tão bom quanto sabemos merecer mas, ainda assim, o melhor possível. Há um consenso entre alguns analistas e cientistas políticos ao afirmar que há um favoritismo crescente para o chamado campo progressista na eleição presidencial deste ano. O barulhento Bolsonaro e sua horda de jovens com pouca vivência democrática e seus dissonantes robôs já não parecem ter chances reais, à medida que outubro vai se aproximando. Por outro lado, o conservadorismo com seu histórico amparo plutocrata não parece encontrar na figura do Geraldo Alckmin um nome forte o suficiente para ganhar a corrida, diante de tanta insatisfação popular. Ainda que não esteja nada definido e um enorme risco ainda se encontre à espreita, esperando uma oportunidade de atacar, o esboço para a eleição está favorável para a centro-esquerda. Comprovamos este fato quando vemos, por exemplo, um irritadíssimo Reinaldo Azevedo – o ventriloquente liberal criador do termo “petralha” – esbravejando em seu programa sobre o favoritismo da esquerda, irritadíssimo com a iminente derrota daqueles a quem serve. Ora, para este camarada dizer que há mais chances de vitória para os seus adversários, dá uma ideia de como as coisas andam mal no reino da fantasia, não é?

De todo modo, ainda há muito com o que se preocupar. A “grande mídia”, como de costume, continua sendo um dos adversários mais perigosos. E ela já entrou de cabeça na disputa. Fundamental no golpe contra a presidenta Dilma, na prisão do presidente Lula e carro-chefe no processo de vilanizar a esquerda brasileira, impondo-lhe descrédito diante da população , agora elas têm outra tarefa: desestabilizar uma possível unidade do campo progressista para a eleição presidencial . Está claro, desde a prisão do Lula, que há um debate constante estabelecido entre as lideranças da esquerda e centro-esquerda para aparar as arestas das divergências em seus projetos individuais, com o foco em amadurecer a ideia de uma unidade. O apoio irrestrito do Guilherme Boulos e da Manuela D’ávila ao Lula nos últimos meses, os jantares e conversas discretas entre o Ciro Gomes e o Fernando Haddad, apenas atestam este interesse. Naturalmente nada pode ser dito de concreto, enquanto os caminhos do PT não estiverem claramente definidos e isto depende exclusivamente da situação de Lula. Mas algumas pistas já foram deixadas. Em vídeo no último dia 05 ao programa Nocaute, do jornalista Fernando Morais, o ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad reiterou diversas vezes a importância em estabelecer um diálogo com as outras frentes do campo progressista, para consolidar uma unidade no primeiro, segundo e, principalmente, no terceiro turno (termo usado para se referir ao período do governo). Em dado momento, Haddad deixa claro ter sido direcionado pelo próprio presidente Lula neste ponto:

“Também por indicação do próprio Lula, eu tenho que conversar com as demais forças políticas do nosso campo”, afirmou Haddad.

E não é apenas o presidente Lula, o eixo desses debates. Há pouco mais de um ano, liderado pelo economista Luiz Carlos Bresser-Pereira, um grupo de debates sobre o Brasil foi criado, com o intuito de estabelecer caminhos para o país se recuperar da crise e voltar a crescer enquanto nação. Deste projeto saiu o Manifesto Brasil-Nação, apoiado por políticos, economistas, artistas e intelectuais dos mais diversos segmentos e, dentre eles, encontram-se, novamente, Ciro Gomes e Fernando Haddad.

A “grande mídia” brasileira sabe de tudo isso e está atacando esta ideia, antes mesmo que ela tome forma. Paralelamente, a chamada “elite” brasileira, os plutocratas,  tem ciência do mal-estar causado dentro do próprio conservadorismo por causa da brutal desindustrialização que o país também sofre. Importantes nomes da indústria que sempre foram ferrenhos apoiadores da direita, agora já se colocam à procura de um projeto que melhor atenda suas demandas. Por isso, os grandes veículos de comunicação estão envolvidos com a tarefa de desestabilizar a esquerda para impedi-la de costurar uma unidade. Para tal, têm se apoiado principalmente nas diferenças entre o Ciro (pré-candidato pelo PDT) e o Partido dos Trabalhadores e vice-versa. Como uma união entre os dois partidos certamente asseguraria um lugar para a esquerda no segundo turno, com largas chances de vitória, a imprensa brasileira a serviço da plutocracia, trata de jogar um lado contra o outro, valendo-se dos seus contrários.

O fato mais recente teve início com a fala do ex-governador da Bahia, o petista Jaques Wagner, ao se colocar diretamente a favor de uma união entre o PDT e o PT. Sua declaração teve uma enorme repercussão, negativa em sua maioria, levando a presidente do seu partido, a senadora Gleisi Hoffmann a se pronunciar: “Ciro não passa no PT nem com reza brava”, disse a senadora. Foi a deixa para a imprensa fazer o que sabe de melhor. Instantaneamente o caso foi veiculado por todos os meios de comunicação de massa, conseguindo penetrar inclusive a imprensa de menor visibilidade. O Ciro que, até então, vem repetindo à exaustão que o momento do PT é preciso ser respeitado e que, por ora, nada pode ser definido, acabou por deixar as suas diferenças com o partido sobressaírem novamente, emitindo opiniões duras sobre o fato e sobre a senadora: “Tenho pena  de uma pessoa da responsabilidade da presidente nacional do PT dizer uma coisa dessas”, arrematou o ex-ministro, dando fim ao assunto.

Assim, como um experiente velocista, a imprensa soube a hora de gastar um pouco do seu fôlego. Percebeu a distração do adversário.  Através de seus braços extensos espalhados na rede e com um empurrãozinho dos veículos de esquerda que não aprovam uma aliança entre Ciro Gomes e o PT, em poucos dias conseguiu balançar o eixo de uma parceria que, certamente, já vinha tomando corpo desde 2017. É evidente que a relevância de uma tentativa de unificação entre o campo progressista, no momento certo, dificilmente se abalará por conta de uma ou duas troca de farpas entre suas lideranças. Muito pelo contrário, ao vir à tona o interesse da imprensa em destruir esta ideia é que se deve lutar por ela. Não há nada mais certo nesta corrida do que a convicção de que, para sairmos vitoriosos no final, devemos ir na maré contrária de toda opinião que a “grande mídia” investir seus esforços para divulgar. Devemos ter sagacidade para saltar os obstáculos, para passar o bastão na hora certa e, inclusive, sabedoria em resguardar nossas energias para a reta final.

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