A tentativa de desvincular Ciro Gomes do Plano Real


Por Marcos Vinicius Rodrigues Brizola*

Não assisti a última entrevista do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (FHC) ao Roda Viva no dia 28/9. Apesar disso, recentemente tive contato bem próximo com boa parte de sua vida e, principalmente, com suas ideias sobre os mais variados temas. Li, semanas atrás, a autobiografia intitulada: “FHC O Improvável presidente do Brasil”.

Passando por um sebo aqui na cidade de Pelotas, ao olhar as vitrines, decidi fazer uma das coisas que mais gosto: comprar bons livros por um preço acessível. Depois de um bom tempo vasculhando nas mais variadas estantes, lá estava. Encontrei, na seção biografia, a obra escrita (e bem escrita por sinal) pelo ex-presidente tucano, sociólogo e filho de militar. Sim, a biografia de Fernando Henrique Cardoso, que recentemente manifestou estar arrependido por ter articulado tanto para aprovar a emenda da reeleição em 1998, quando ele mesmo era um dos favoritos a um inédito segundo mandato no executivo do país.

Além do preço baixo (R$ 8, pra ser mais específico), o que me mobilizou a comprar o livro foi principalmente a curiosidade acerca deste presidente que até algum tempo atrás parecia ter caído no ostracismo.

O retorno midiático do nome de FHC talvez se deva ao fato destes tempos complicados em que somos “governados” por um presidente sem moderação alguma, além da galopante inflação que traz consigo a sensação de estarmos retroagindo à década de 1980 com suas subidas de preço até nos produtos mais básicos como o arroz.

O IMPROVÁVEL PRESIDENTE E SUA INESPERADA ANÁLISE

Voltando ao livro, este foi escrito em 2013, e de modo geral é uma interessante leitura para quem quer conhecer alguns aspectos da política brasileira desde o início do século XX e, de modo mais detalhado, algumas nuances da política pós-redemocratização do Brasil na década de 1980. FHC vai misturando – numa retórica interessante, diga-se de passagem – fatos políticos do Brasil com os mais variados fatos de sua família.

Eu, um trabalhista, me surpreendi com a análise interessante acerca de Getúlio Vargas. Longe dos chavões extremistas, FHC soube reconhecer as virtudes do grande estadista que – apesar de todas as tensões daquelas décadas totalitárias – conseguiu implantar um modelo de nacionalismo e soberania em nosso país como até então não havíamos experienciado, e como, até hoje, não experienciamos, talvez a partir de 2022 com a implementação do Projeto Nacional de Desenvolvimento (PND)

FHC também cita os líderes trabalhistas posteriores, João Goulart e Leonel Brizola, mas com muito menos simpatia do que a Getúlio. No que se refere a personagens políticos mais recentes, cabe destacar as interessantes descrições de diálogos com Lula, desde os primeiros anos da fundação do PT e PSDB até a eleição do ex-sindicalista em 2002.

A INEXPLICÁVEL AUSÊNCIA DE CIRO GOMES

Mas o assunto que me fez escrever este texto versa muito mais sobre quem não aparece do que sobre quem é citado. Apesar de FHC fazer toda uma descrição detalhada acerca do governo Itamar Franco e do Plano Real, o nome de Ciro Gomes não é citado nem uma única vez ao longo das mais de 300 páginas.

Tal fato é surpreendente se lembrarmos que Ciro, além de ter sido o ministro da Fazenda do emergencial Governo de Itamar Franco, fez parte das primeiras formações ideológicas do PSDB. Esse partido, que surgiu como um interessante projeto de consolidação de uma Social Democracia no Brasil, lamentavelmente enveredou-se por caminhos vergonhosos no decorrer da história. Sendo, talvez, o mais trágico deles o não reconhecimento de Aécio Neves da derrota nas eleições de 2014, fato que abriu caminho à destruição da nossa ainda jovem e frágil democracia.

DA LITERATURA AO CINEMA: A TENTIVA DE APAGAMENTO PERSISTE

Saindo da literatura e indo para o cinema, alguns dias após a leitura, fui fazer outra das minhas atividades preferidas: ver um filme brasileiro. Mergulhado ainda pela leitura na visão de FHC, decidi ver o filme: “Real, o Plano por trás da história”, exibido em 2017. O filme, dirigido por Rodrigo Bittencourt, avisa nas primeiras cenas que alguns personagens, diálogos e situações serão acrescentados para uma melhor experiência cinematográfica.

O longa tem como núcleo principal a equipe econômica montada para a elaboração do Plano Real durante o final do governo de Itamar Franco e, assim como o livro de FHC, é um material interessante para o conhecimento de alguns fatos da história recente do nosso país. Emílio Orciollo Neto interpreta o personagem principal: o Economista Gustavo Franco. Hoje, um dos “alaranjados” do Partido Novo.

Para quem quiser dar uma conferida nos já conhecidos e velhos chavões neoliberalizantes de Gustavo Franco e, principalmente, nas suas inconsistências, recomendo o debate deste com Ciro Gomes, em 2000, no Fórum da Liberdade em Porto Alegre. É impressionante o modo como Ciro Gomes conhece, de fato, o nosso país, além de sua capacidade em prever as equivocadas medidas, vendidas como modernizantes, de desmonte do Estado.

Quem vê o debate pode perceber: Ciro já vinha alertando sobre a falta de um planejamento econômico estratégico desde o ano 2000! Os argumentos de Ciro não apenas seguem os mesmos, mas são defendidos de forma ainda mais qualificada devido ao acúmulo de experiências práticas e bagagem teórica.

O filme em si, apesar de passar bem longe de ser uma grande obra cinematográfica, traz algumas questões interessantes. A principal delas, acredito eu, é mostrar as difíceis adequações dos planos econômicos ao caótico sistema político de um país ainda se recuperando dos impactos socioeconômicos catastróficos da ditadura.

Infelizmente, assim como no livro de FHC, no filme “Real” Ciro Gomes também não aparece e não é citado, mesmo sendo um dos idealizadores da moeda cujas primeiras cédulas tinham a sua assinatura como Ministro da Fazenda.

Antiga cédula de R$1 leva assinatura de Ciro Gomes, ministro da Fazenda do governo Itamar Franco.

Na obra cinematográfica, aparecem alguns nomes conhecidos da política brasileira como Rubens Ricupero e José Serra. Lula é citado algumas vezes e a figura aparentemente “populista, oportunista e demagoga” do Partido dos Trabalhadores (PT) é sintetizada num senador fictício interpretado por Juliano Cazzaré.

O filme é baseado na obra “3000 dias num Bunker” de Guilherme Fiúza, talvez Ciro Gomes tenha sido citado por lá (não sei pois não o li), mas é curiosa a sua ausência. O filme inclusive apareceu nos noticiários rodeado de polêmica por ter sido boicotado, no festival de Cinema em Pernambuco, por alguns cineastas que o consideraram como “filme de direita”.

A HISTÓRIA SE REPETE

Não vou entrar muito no mérito da questão, mas acho que quase sempre podemos aprender com uma leitura ou um filme. Independentemente das visões expressas diferenciarem-se das minhas convicções ideológicas ou não, sempre há algo a se extrair de uma obra. Discordei em muitos pontos tanto do livro de FHC quanto do filme “Real”. E, pra concluir, talvez seja um pouco “conspiratório” da minha parte, mas a inesperada ausência de Ciro Gomes nas obras citadas não parece ser um acaso: se há alguém que incomoda e preocupa tanto o FHC quanto figuras como o Gustavo Franco, este alguém é Ciro Gomes. Se há algo que os tecnocratas e ideólogos deste injusto status quo temem, é que o nome de alguém da esquerda, verdadeiramente qualificado e preparado como Ciro Gomes, venha a ser difundido no debate público. Como já disse Michel Temer: Qualquer um, menos o Ciro Gomes!!!

Sempre tentaram ofuscar o brilho do Brizola e, agora, fazem o mesmo com Ciro Gomes. Ambos representam a esperança de um Brasil não só mais produtivo, mas, principalmente, mais honrado, justo e soberano. Tentaram ocultar Brizola, mas não conseguiram. Tentarão novamente com Ciro e, mais uma vez, não conseguirão!

*Marcos Vinicius Rodrigues Brizola é mestrando em Filosofia pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel), Secretário de Formação Política da Juventude Socialista do PDT-Pelotas.