Sobre ser liderança de fato (ou por quê não existe vazio na política)


 

Frequentemente se afirma que não existe vazio na política. Neste exato momento temos Jair Bolsonaro na condição de presidente-eleito, e o processo de transição de governo anuncia pautas como fim do Ministério do Trabalho, fusão dos Ministérios da Fazenda, Planejamento e Indústria em um super-Ministério da Economia sob comando de Paulo Guedes, manutenção do acordo Boeing-Embraer chancelado pelo governo ilegítimo de Temer, independência do Banco Central, mudança da embaixada brasileira em Israel de Tel-Aviv para Jerusalém, entre outras medidas. Enquanto parte do jornalismo político acompanha com atenção as medidas do governo eleito, outra parte busca referências da futura oposição para se posicionarem a respeito desses temas.
Nesse aspecto, chama bastante atenção que o candidato segundo colocado Fernando Haddad (PT) tenha praticamente se ausentado do debate público desde o fim das eleições, sem sequer dar uma entrevista a respeito das medidas anunciadas desse governo, retomando sua antiga rotina de professor do Insper. Para alguém que chegou a ser proclamado “articulador da oposição” pela presidente do PT Gleisi Hoffmann apenas por ter chegado ao 2º turno, o silêncio e reclusão de Haddad surpreendem – especialmente em contraste com a atuação do terceiro colocado da eleição, Ciro Gomes (PDT).
Já se passaram duas semanas desde o fim do segundo turno das eleições presidenciais. Nesse período Ciro já deu QUATRO entrevistas para diferentes veículos de imprensa (Folha, Rádio CBN, IstoÉ e GloboNews), já viajou para Brasília para se encontrar com a bancada eleita do PDT, e se reuniu com Marina Silva a fim de articular a nova Frente Progressista no Congresso que irá reunir partidos como PDT, PSB, PCdoB e Rede em uma frente de oposição propositiva e não-hegemonista a Bolsonaro.
Enquanto isso, Haddad não deu nenhuma entrevista nesse período, nem mesmo depois de visitar Lula na Superintendência da Polícia Federal em Curitiba no dia 8 de novembro – ao contrário, por exemplo, do deputado Paulo Pimenta (PT) e do ex-candidato a presidente Guilherme Boulos (PSOL) ao visitarem Lula na mesma semana. Segundo a colunista da Folha Mônica Bergamo, Haddad teria combinado com Lula (ou talvez obrigado a aceitar) que não assumirá nenhum cargo na direção do PT, nem mesmo a presidência da Fundação Perseu Abramo, braço de estudos políticos do partido. E ainda segundo o insuspeito portal petista Brasil 247, Haddad sequer chegou a falar com os militantes do Acampamento Marisa Letícia em frente à sede da PF em Curitiba após a visita, e praticamente emudeceu em suas redes sociais.
Houve quem defendesse que Haddad estaria tendo uma postura “republicana” de dar o destaque ao presidente-eleito Jair Bolsonaro para evitar ofuscá-lo. Mesmo esse argumento é contestável, uma vez que Haddad se recusou a telefonar para Bolsonaro para cumprimentá-lo logo após o anúncio da vitória deste no domingo da apuração (o que é praxe de todo candidato que perde a eleição), resumindo-se a uma declaração no Twitter apenas no dia seguinte. Ainda assim, por quê se abster de comentar as medidas já anunciadas do futuro governo e que irão afetar as vidas e os destinos de milhões de brasileiros? Houve também quem argumentasse que Haddad não teria tempo para dar entrevistas porque ele está ocupado trabalhando como professor. Mas por quê não dar entrevistas em casa ou pelo telefone, como Ciro chegou a fazer nas suas entrevistas à Folha e à CBN?
Posicionar-se e opinar sobre o contexto político é essencial para qualquer um que almeja ocupar e pautar o debate público. Do contrário, ausentar-se do debate é deixar de colocar sua própria opinião sobre o assunto e deixar que outros ocupem essa tarefa. E isso sem dizer da tarefa de articular a nova oposição ao próximo governo.
Ciro chegou a ser bastante criticado por setores da esquerda por ter supostamente “se omitido” no segundo turno – mesmo depois de o PDT ter declarado apoio crítico a Haddad três dias após o 1º turno, de Ciro ter afirmado “ele não” a Bolsonaro nesse mesmo dia, e de ter defendido “votar com a democracia, votar contra a intolerância, votar pelo pluralismo”. Porém nota-se uma completa ausência de críticas (ou seria conivência?) à reclusão do 2º colocado da eleição mesmo diante do prenúncio de medidas que afetarão gravemente os direitos do trabalhador e a soberania nacional, e talvez a própria democracia. Chega-se ao cúmulo de criticar trechos editados e descontextualizados de entrevistas do Ciro, mas não se critica a ausência de entrevistas de Haddad!
Houve até quem chegasse a questionar as credenciais democratas de Ciro, sendo que o próprio histórico de Ciro jamais o desmentiu em seu compromisso com a defesa da democracia. Vale recordar como exemplo a atuação de Ciro contra o golpe parlamentar de 2016, em que ele, mesmo sem ocupar nenhum cargo público naquele momento, manteve atuação contundente em defesa da democracia, denunciando o golpe a ajudando a trazer cerca de 2/3 dos votos da bancada do Ceará contra o impeachment – enquanto Haddad, mesmo na condição de prefeito da maior cidade do país, não teve nenhuma atuação contra o impeachment, não encabeçou nenhuma articulação de resistência mesmo, e ainda chegou a declarar em uma entrevista ao Estadão naquele mesmo ano que “golpe é uma palavra um pouco dura”.
Para concluir, é importante ter em mente que líder não é aquele que se autoproclama líder, mas sim aquele que exerce uma liderança de fato na conjuntura concreta. Não adianta dizer que algum partido tem como destino-manifesto a suposta liderança da esquerda se o seu principal representante na eleição se ausenta da arena pública. O campo progressista não pode se deixar liderar por figuras que se colocam como lideranças por procuração de outros apenas num contexto eleitoral, e ignorar uma liderança que rodou o país por mais de dois anos denunciando o golpe e a ameaça fascista que vivemos hoje, e que já se comprometeu a viajar o país novamente pelos próximos quatro anos para ajudar a organizar a juventude em um novo Projeto de Desenvolvimento Nacional. Afinal, a tão proclamada defesa da democracia definitivamente não deve se resumir a bandeira eleitoral levantada de maneira oportunista apenas num segundo turno, mas sim ser defendida e vigiada sempre.

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