Segurança das urnas e voto auditável: para além da “lacração”


Por Roberto Viana Jr. (Presidente Nacional do Movimento Cultural Darcy Ribeiro)

Nestes tempos voltou à tona a discussão sobre a segurança das nossas urnas eletrônicas e o voto impresso. Muitos ainda não têm opinião formada sobre tal assunto, com isso, geram argumentos falsos e lacrações sem um debate mais profundo sobre o tema. Assunto complexo como esse requer bastante atenção, ponderamento e clareza. Afinal, o que é o voto impresso, a quem serve e qual motivo de partidos da direita e esquerda o defenderem?

PARA ALÉM DA LACRAÇÃO ESTÁ A HISTÓRIA

Muitas vezes a esquerda, melhor, parte dela, se molda às pautas do país de acordo com a conveniência de como pousará bem para o eleitor, preocupando-se apenas em um projeto de poder que possa abraçar a maioria, agradar a maioria no discurso, não tendo clareza no que se defende. Para um resgate breve e histórico queria relatar que, em 2009, os deputados federais Brizola Neto e Flavio Dino aprovaram em ampla maioria na Câmara (mais de 400 votos) e no Senado, com apoio do senador Roberto Requião, a lei que permitiria a impressão do voto.

Essa lei teve a sanção do então presidente Lula. Ora, mas essa não seria uma pauta da direita bolsonarista? Como os deputados do PDT, PCdoB, PSB, PMDB e o presidente Lula, do PT, aprovaram, apoiaram e sancionaram? Não seria uma contradição, ou até mesmo antagonismo? Essa pauta só é válida e justa quando feita por alguém da esquerda hegemônica?

Foram essas posturas, e outras mais, que levou o país ao trágico estado que se encontra hoje! O questionamento da urna eletrônica é uma bandeira histórica de nós trabalhistas. Não meramente porque queremos concordar ou pactuar com quaisquer teorias de conspiração, e muito menos contribuir à narrativa de Bolsonaro de não querer reconhecer os resultados eleitorais em 2022 pelo seu derretimento popular. Claro que temos muita consciência do jogo político e sabemos que é uma pauta delicada, mas se acovardar e não ter firmeza no que defende, não é algo que faz parte da história do trabalhismo.

LUTA HISTÓRICA E SOCIAL NÃO TEM PRAZO DE VALIDADE

Ouvi muitos camaradas queridos questionarem quando afirmamos que essa luta histórica é do PDT, é de Brizola. Alguns falaram que é uma pauta vencida, atrasada e não mais moderna. Alegaram que Brizola morreu há quase 20 anos e isso é atrasado! Porém, gostaria de fazer um contraponto. Getúlio Vargas morreu há quase 70 anos, Darcy Ribeiro há mais de 20 anos, Abdias do Nascimento há mais de 10 anos, Lélia Gonzalez há mais de 15 anos, sem falar do bom e velho Marx que fundamentou a luta de classes tão requerida intelectualmente pelas esquerdas no mundo, que morreu há séculos. Então, por isso todas suas pautas, lutas e questionamentos não são mais modernos? Não há inteligência nesse argumento. Luta histórica e da sociedade não tem prazo de validade, apenas temos que ter uma compreensão atual dessas obras e contribuidores.

Não há algo mais moderno do que querer aperfeiçoar um mecanismo que é usado há quase 30 anos sem aperfeiçoamento. Como falar em modernidade, segurança e transparência quando o mecanismo democrático que usamos não se aperfeiçoa, não
pode se quer ser auditável. Como falar em confiabilidade democrática se é apenas o Brasil que usa esse tipo e modelo de urna, que já tem mais 6 gerações de outros modelos da mesma urna? Não podemos ser negligentes a esse ponto. A democracia é algo inegociável e que nos custou muito caro. Para ela, toda segurança, transparência e dedicação em aperfeiçoar.

NÃO FUGIREMOS DE NOSSAS LUTAS

Entendemos os tempos sombrios e terríveis que o Brasil passa, mas não cabe a nós trabalhistas fugir das nossas lutas. Podem perguntar a nós, já que é luta histórica, o porquê de não estar na carta de Lisboa, estatuto etc. Mas lembramos também que uma das maiores bandeiras históricas do PDT não se encontra lá, que é a escola de Tempo integral, nosso valoroso e maior projeto educacional deste país, os CIEPs de Darcy, Brizola, Anísio Teixeira e Oscar Niermeyr. A Escola pública, de tempo integral, é algo não mais moderno por que seus protagonistas morreram?

Isso é oportunismo, ou simplesmente falta de compreensão do que estamos tratando. Parte da esquerda não quer usar o verde e amarelo porque Bolsonaro e seus seguidores abraçaram essas cores. Então porque Bozo e seu time fizeram e defendem, nós não  usaremos? É pequeno demais pensar assim, além de nada estratégico.

NOSSA CAUSA É A TRANSPARÊNCIA DA DEMOCRACIA E SUA SOBERANIA

As tecnologias, informática e todo avanço global devem servir para melhorar a vida da humanidade. Queremos avanço de modernidade nas eleições no Brasil, além de, cada vez mais, segurança democrática. Não é possível que uma urna com 30 anos, sem aperfeiçoamento, possa ser considerada moderna. Não podemos negligenciar o debate que é de extrema importância. Nossa causa não é eleição, mas sim a transparência da democracia e sua soberania.

O povo não poder ter, através de uma auditoria, a certeza das suas escolhas, isso sim é um cabresto, conspiração democrática e fraude.

Para finalizar, quero dizer que o Trabalhismo não é uma corrente política simplória, pelo contrário, ela é profunda e complexa, assim como o Brasil. No trabalhismo não cabe lacração, cabe debate, inteligência e clareza no que defende. A luta histórica de Leonel Brizola perante às urnas eletrônicas não morreu, continua viva, atual e moderna. Será uma luta de todos nós!

É uma luta do Presidente do PDT, Carlos Lupi, de toda direção do partido, e do nosso pré-candidato à presidência, Ciro Gomes, e deve ser de toda militância pedetista. O sonho de uma democracia transparente e soberana não morreu, nem morrerá, afinal: “SONHOS NÃO ENVELHECEM”!

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