O quanto controlamos do que acontece fora de nós?


Por Tomás Pinho

O resultado das eleições municipais deste ano foi um baque para mim por uma série de motivos. Ajudei intensamente algumas candidaturas progressistas de pessoas novas, com poucos recursos e que queriam mudar a realidade de suas cidades.

A maioria não se elegeu.

Acompanhei, de longe, alguns amigos e amigas, a maioria jovem e idealista. Os vi trabalhando duro, apresentando propostas, conversando com pessoas por todos os meios possíveis e alheios ao apadrinhamento político.

Novamente, quase nenhum se elegeu.

Ao analisarmos os partidos que conquistaram prefeituras, vemos que a maioria constitui o famoso centrão, permeado por fisiologismo, compra de voto e zero compromisso ideológico, seja de direita ou esquerda (“leva quem der mais”).

Para coroar, alguns parentes meus de uma cidade pequena do interior me relataram uma história desanimadora. O candidato deles, um jovem advogado que nunca ocupou nenhum cargo nem tinha rabo preso, acabou perdendo para o já prefeito que comprou os votos da população em dinheiro vivo.

Um primo meu tinha ido em mais de cem casas conversar de família em família para não votarem no atual prefeito e, ainda assim, este conseguiu comprar o voto das pessoas pagando os azulejos do banheiro da família ou algo do gênero. A falta de médico e dentista no posto, de tratamento de esgoto ou de reforma na quadra não foram suficientes para mudar o voto de muita gente.

O resultado final dessa série de infortúnios foi um profundo sentimento de impotência. Parece que o meu esforço e de várias outras pessoas que querem mudar as estruturas sociais simplesmente não é recompensado. De que adianta o trabalho e o esforço se o resultado geral é quase o mesmo, com algumas raras e importantes exceções?

Porém, não quero te incentivar a ficar parado, imóvel. Quero realinhar as minhas e as suas expectativas. Alguns amigos próximos viram a baixa renovação política, sobretudo nas prefeituras, e murcharam. Começaram a criticar os partidos progressistas ou desanimaram com a perspectiva de mudança.

Eu digo: perca a ilusão voluntarista!

Provavelmente quem está lendo este texto quer mudar a despolitização (“não sei qual é minha ideologia, o que eu defendo para a sociedade”) ou a descrença na política (“isso daí não vai dar em nada, nunca deu”) da maioria das pessoas. Quem está lendo provavelmente sabe que esse é o caminho para diminuir o próprio sofrimento e da maioria dos brasileiros(as). Contudo, nós podemos batalhar ao máximo de nossas forças e, ainda assim, não termos nem o mínimo desejado. Aí vem a frustração e a resignação, quando, na verdade, devia entrar a aceitação da realidade.

A sociedade está assim, as pessoas estão assim e é muito difícil de mudar. Ainda assim devemos trabalhar porque sabemos que algum efeito tem, só não temos como medir nossa ação enquanto indivíduos (a coisa é diferente em relação a partidos, instituições e governos). Devemos atuar também porque não agir é ter a certeza da manutenção do atual estado de coisas.

Continuemos trabalhando, mesmo sem saber o grau de impacto das nossas ações como indivíduos. Se quiser ler mais sobre isso, pesquise deontologismo ou ética de princípios de Kant. E, se quiser um resumo: trabalhe, analise e aprenda, mas perca a ilusão do controle sobre a realidade externa.