Agora é a vez de Ciro Gomes


Texto de: Caio Barros

A causa imediata do golpe civil militar de 1964 foi o excesso de polarização social e política. Isso impediu a construção de qualquer compromisso. Essa polarização já vinha sendo alimentada desde o segundo governo Vargas e atingiu seu zênite com a tentativa de golpe contra o Presidente, que rearranjou as forças políticas em decorrência de seu suicídio. A rixa deu trégua apenas no decorrer do governo Juscelino, que demonstrou sabedoria política para formar um consenso mínimo em torno de um ousado Plano de Metas. Mas logo após seu governo, com Jânio e Jango, o golpe de 1964 enterraria de vez a República Liberal.

A ditadura militar foi uma mistura de mal com atraso e pitadas de psicopatia. Com a democracia sufocada, a censura, a violência política e a limitação de direitos elementares o país regrediu em termos civilizatórios. Em termos econômicos, contudo, necessárias reformas viabilizaram um robusto crescimento, transformando o país em potência industrial. Ainda assim, o brasileiro vivenciou aspectos perversos desse crescimento: brutal concentração de renda e elevada inflação. O regime se deslegitimou pela excessiva violência política, pela crise econômica e pelas demandas sociais por democracia.

Vieram as lutas pela abertura e pela democracia. E veio a Constituição Cidadã. O Brasil avançava degraus civilizatórios em meio a uma disputa política regulada pela Carta Política, legitimada por toda a sociedade. Nessa disputa, primeiro debelamos a inflação. Depois atacamos desigualdades. Houve avanços e recuos. Trinta anos após a promulgação da Carta, a democracia ainda não conseguiu promover uma verdadeira igualdade de oportunidades, não democratizou o mercado, a violência urbana explodiu e a corrupção, o cupim da República, se alastrou.

A sociedade que foi vitoriosa ao enfrentar a inflação e combater a miséria agora quer segurança, igualdade de oportunidades e o fim da corrupção. São grandes desafios. Mas o fantasma da polarização passou a ameaçar nossa principal conquista: a democracia. O velho fantasma agora quer nos amedrontar com violência política e medo. O fantasma da polarização desinforma com fake news, mata ambientalistas, mata defensores dos direitos humanos (QUEM MATOU MARIELLE?), trata adversários políticos como inimigos, divide o mundo em esquemas toscos e tenta silenciar a democracia ao som de tambores de revólveres.

A crise brasileira hoje retorna à tensão dos anos 50 e 60. A excessiva polarização interdita possibilidade de um pacto social que objetive combater os grandes problemas nacionais em um ambiente democrático, regido pela Constituição Federal. Não podemos aceitar a escalada da violência política. Precisamos garantir um processo eleitoral pacífico e pedagógico que debata os verdadeiros problemas nacionais. Precisamos de sabedoria política para formar um consenso mínimo em torno de um projeto nacional de desenvolvimento.

A história brasileira mostra que períodos de crise podem levar o país à claridade (Juscelino) ou à escuridão (ditadura). Fantasmas querem o escuro. Progressistas querem a claridade de um projeto nacional que ilumine o futuro. Agora é a vez de Ciro Gomes.

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