A prescrição médica na berlinda


Por Marcio Aurelio Soares

Uma falsa berlinda. Uma falsa polêmica. Resultado de banalização de uma polarização política que só interessa a seu protagonista.De qualquer forma, o tratamento médico para a Covid-19 está no banco dos réus. E também na boca do povo.

O SILÊNCIO DO CONSELHO FEDERAL DE MEDICINA

O Ministério Público Federal de São Paulo (MPF/SP) já oficiou três vezes o Conselho Federal de Medicina (CFM) questionando se o órgão, diante de tantas novas evidências científicas, pretendia rever o parecer Nº 4/2020, de 16 de abril de 2020 que considera a indicação do uso de Cloroquina/Hidroxicloroquina no tratamento da Covid-19 em casos leves e até graves, desde que em decisão compartilhada com o paciente e sendo este, obrigatoriamente, informado sobre a inexistência, até aquele momento, de trabalho científico que comprove o benefício do uso da droga para o seu tratamento.

Todavia, até o momento o CFM não respondeu, se limitou apenas a emitir uma nota, em janeiro deste ano, afirmando que a “ciência ainda não concluiu de maneira definitiva se existe algum benefício ou não com o uso desses fármacos”. E indicou que o órgão não apoia nem condena o tratamento precoce ou qualquer outro cuidado farmacológico.

Por outro lado, a Associação Médica Brasileira, recentemente, publicou em seu site um comunicado subscrito por mais de uma dezena de sociedades científicas, afirmando que “o uso de Cloroquina e outros remédios sem eficácia contra Covid-19 devem ser banidos (do receituário médico)”.

OUTROS TEMPOS

O fato é que até o momento, nada sabemos sobre tratamento específico para esta virose que abate todo o Planeta. Durante a “Peste Negra” – nome dado à Peste Bubônica- que se estima que tenham morrido de 30% a 60% da população europeia, os médicos recorriam a diversos “tratamentos”, o mais recorrente deles era esfregar cebolas ou carne de cobra nos furúnculos que apareciam na pele.

No início do século passado, foi a vez da gripe espanhola, e não faltaram terapias milagrosas; as mais famosas foram as que juntavam formol, canela e flores de jasmim amarelo; uma tentativa desesperada que não impediu que milhões de pessoas morressem em todo o mundo.

Os tempos são outros. São tempos de sistematização da ciência e da criação de protocolos terapêuticos. Os vírus só começaram a poder ser vistos com a ajuda de um microscópio eletrônico em 1932 e antes disso, acreditava-se na teoria miasmática, em que as doenças eram transmitidas por eflúvios advindos de odores fétidos provenientes de matéria orgânica em decomposição.

Essa teoria explica a arquitetura de muitas casas presentes em nosso cenário até hoje construídas com porão. Os tempos atuais também são os de Deontologia e Ética médicas, partes da Medicina Legal que se ocupam de normas a que o médico está sujeito no exercício da profissão, e, nesse contexto, a “autonomia médica (na prescrição de medicamentos)”.

O RESTO É BALELA

O fato é que com cebola, flores ou miasmas, cloroquina ou ivermectina, respeitados cada um sua época, nós temos outro componente mais grave que é a polarização de opiniões. O debate não está em se devemos, ou temos que realizar o tratamento precoce mesmo sem evidências científicas definitivas.

Em suma, a questão é se esse chamado “kit covid” previne, cura ou trata? A resposta é que só existem dois tipos de condutas preventivas, o isolamento social e a vacina. Que não existe cura para a Covid-19 por meio de medicamentos. A doença tem sua evolução natural que depende das condições clínicas de quem a contraiu (capacidade de resposta) e da carga viral inalada. E que o tratamento é indicado conforme surgem as complicações, podendo serem elas mais ou menos graves.

No mais, o resto é balela de quem quer dar reposta política rasteira e não tem interesse e capacidade para liderar uma nação em busca de resultados para esta praga sanitária e econômica, e quer se manter no poder à custa do caos.

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