As entranhas do preconceito contra Ciro Gomes


Texto de: João Cyrilo

É notório quando qualquer presidenciável chega ao centro do programa Roda Viva e começa a expor suas propostas ao Brasil com sotaque paulista, que os entrevistadores da bancada se derretem como algodão doce na boca de uma criança no parque. Isso faz parte da cultura dos grandes jornalões e emissoras de TV, que concentram todo o aparelho de difusão de informação e que são localizados geograficamente e linguisticamente no centro-sul desse país continental. Podemos observar que há contrastes e distorções evidentes referentes à nossa identidade quando consumimos conteúdo sobre futebol, telenovelas e séries, canais de entretenimento e o conteúdo jornalístico.

Isolando os estados do Ceará, Pernambuco e Bahia, os outros estados do Nordeste ficam reféns da emissora dos irmãos Marinho no conteúdo fechado e aberto das transmissões de futebol. Isso impacta diretamente na afinidade que a sociedade tem pelos clubes. Não à toa, Flamengo, Corinthians, Palmeiras e Vasco são os clubes preferências de um imaginário hemisfério norte do Brasil.

Mapa de times do Brasil

Figura 1 – Mapa de aproximação de torcedores com as páginas oficiais dos clubes

Nas novelas e séries, as questões culturais e tradicionais das regiões norte/nordeste são rearranjadas de forma violenta, a fim de oferecer aos telespectadores do eixo sul e sudestes um cenário mais, digamos, “agradável”. Consideradas rudimentares, as características dos povos do Norte são readaptadas nos figurinos, nos hábitos e gírias, na pele e nos atores dos atores e atrizes que contracenam as tramas da TV. É conteúdo forjado para paulista ver.

Novela Segundo Sol Globo

Figura 2 – Protagonistas do elenco de Segundo Sol, novela da Globo encenada na Bahia

Na política isso não é diferente. Diversas personalidades da política brasileira que surgem do povo nordestino são enclausuradas nos próprios estereótipos que a imprensa paulista cria. Não faz muito tempo que ouvimos nos meios de TV ou nas redes sociais, a reprodução racista sobre lideranças nordestinas. Ora são chamados ou chamadas de analfabetos e analfabetas, ora de coronéis.

Fazem isso apenas pela origem do Ciro Gomes e de Lula sem a mínima concordância com os fatos, com o histórico, com os conceitos de analfabetismo ou coronelismo – e olha que temos muito conteúdo de elucidação desses tacanhos conceitos pré-difundidos. O que explicita um grande desacordo estrutural do que realmente é esse povo brasileiro, que nos unifica pelas cores da bandeira, mas nos desune covardemente pela desconsideração da nossa própria pluralidade sociocultural.

Esse texto não é nenhuma tentativa de dar bases para um levante que divida a nação nos seus contrastes, que coloque paulistas contra o povo cearense, do amapaenses contra os gaúchos. O objetivo é evidenciar que existem mecanismos explícitos de adulteração da nossa identidade, da nossa cultura, dos traços que formam a nossa nação, para o controle obsessivo da informação, do poder e da riqueza, por uma pífia fração reinante da imprensa e da elite arrogante paulista. Tudo isso também entra em jogo nas eleições de 2018. Assim como prenderam o “analfabeto” ex-presidente Lula, por não se inclinar aos interesses de servir o Brasil como banquete de poucos, também ilustram Ciro como “coronel desequilibrado”, por não ser capaz de atender aqueles que odeiam a Princesa Isabel até hoje.

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