Precisamos falar de responsabilidade histórica


Apesar de tudo o que havia em jogo, o combate foi belo. Vimos diversas manifestações de resistência entre artistas, militantes e entusiastas que foram dignas de comoção. Era possível encontrar muita gente assustada e com medo do porvir, mas que nem por isso deixou de, à sua maneira, expressar seu apego pelo amor e pelas liberdades. Nós, particularmente, respeitamos imensamente a todos aqueles que, nesta última semana de disputa eleitoral, despertaram do estupor em que se encontravam para sair à rua e chamar a atenção das pessoas para os riscos que a democracia sofria. Mas mesmo assim não deu. O bolsonarismo havia crescido demais. O fascismo ascendera e já havia fanatizado uma gigantesca massa amorfa de indivíduos que exige ter suas vontades comtempladas, nem que seja à força. Conforme havíamos previsto, a esta altura seria muito complicado evitar o crescimento do fascismo e, consequentemente, a chegada de seu representante à presidência.

Mas havia sim uma maneira: apostar em Ciro. E poderíamos dizer agora que avisamos repetidamente sobre a iminência deste fracasso, mas a realidade é que, agora que o momento chegou, não queremos mais dizer. Afinal, quantas mães hão de chorar por seus filhos mortos pelo preconceito de civis ou militares, e quantos filhos perderão suas mães através do feminicídio covarde. Todos nós sofremos uma derrota acachapante, e mesmo aqueles que acreditam ter vencido, perceberão logo – quando a violência bater em suas portas – que, na verdade, estão entre os vencidos. Não queríamos enfatizar que avisamos pois, agora que a batalha foi perdida, temos a impressão de que é muito mais produtivo recolher os cacos e seguir em frente. Contudo, é preciso entender que, para que seja possível seguir em frente, faz-se crucial aprendermos com os erros. E por isso precisamos falar sobre responsabilidade histórica.

Resgatemos o cenário pré primeiro turno para compreender o que ocorreu: PT detentor de uma imensa rejeição na maior parte da população brasileira (grande parte porque via como necessária a alternância de poder para oxigenação da democracia), pesquisas indicando que só Haddad perderia para Bolsonaro, e o PT recém-saído de um golpe (perpetrado por gente que não vai desistir de espalhar ódio enquanto o partido continuar se reelegendo seguidamente). Estes fatores podiam até não ser suficientes para que o PT abdicasse da disputa, portanto podemos ainda dizer que era justo que lançassem sua própria candidatura e aguardassem para ver se a conjuntura se encaminharia a uma união ao seu redor mais uma vez. Resolveram então lançar a candidatura de Lula preso esperando que fosse solto, mas não foi. Começaram a campanha “eleição sem Lula é fraude” e insistiram nela até o último momento. Já naquele momento era claro que a melhor estratégia para o PT era desistir do pleito em prol de uma união de esquerda em torno de quem tinha a maior força política no campo progressista – até porque esta era não somente a maior chance tirar Lula da prisão como também a única de deter o fascismo – e, ao mesmo tempo, possuía a menor rejeição entre todos os candidatos.

Não foi o que aconteceu. Decidiram lançar um candidato fraco e sem espírito e, como se não fosse o bastante, articularam para combater e isolar quem deveriam ter como aliado. Tudo isso, simplesmente, no intuito de manterem sua supremacia de “líderes da esquerda”. Ou seja, em nenhum momento o PT, Lula ou Haddad abdicaram de seus interesses (projeto de poder) em prol da sociedade brasileira. O PT arriscou tudo pelo poder, e por isso nos trouxe a este cenário aterrorizante (claro que sabemos que não é tudo culpa do PT, já que os únicos culpados pela ascensão do fascismo são os próprios fascistas, mas não podemos esconder a responsabilidade do partido ao minar a luta contra os mesmos num momento tão grave). Até o começo de setembro, Bolsonaro ainda estava pequeno, mas cresceu graças à decisão de Lula de manter o PT na disputa. Há pouco tempo atrás ele perdia até mesmo para Marina nas pesquisas. Foi só quando a massa antipetista vislumbrou a possibilidade de ter o PT novamente na cadeira presidencial que Bolsonaro disparou.

Ciro, por outro lado, ao fim do primeiro turno, anunciou – junto ao PDT – o apoio crítico a Haddad. Afinal, depois de todas as articulações acima citadas, seu apoio não poderia mesmo deixar de ser crítico. O obscurantismo praticado pelos militantes petistas não pode esconder a responsabilidade histórica do PT na situação deplorável em que nos encontramos. Dito isso, não dava para pedir a um intelectual coerente como Ciro para que fizesse campanha junto a quem conspirou contra ele e, de tabela, contra a democracia. A grandeza histórica de Ciro já está afirmada pela campanha excelente que fez e, em seguida, por ter manifestado apoio ao único candidato democrático (apesar de fraco) no segundo turno. Se fizesse mais que isso estaria aprovando simbolicamente as ações pérfidas executadas pelo PT.

Muito nos admira agora a audácia da militância petista ao tentar colocar em Ciro a responsabilidade histórica do PT nesta situação. Com uma estratégia assaz desonesta, querem afirmar que foi Ciro quem entregou o país nas mãos do fascismo quando na verdade foi o oposto. Adeptos do PT no campo progressista estão comprando amplamente esta narrativa, ignorando que quem venceu estas eleições não foi Bolsonaro, mas sim o Antipetismo. Hoje, um dia depois do primeiro turno, olhamos para os números e constatamos algo que havíamos previsto há muito: o antipetismo mostrou todo o seu potencial e somou quase 100 MILHÕES de pessoas, entre eleitores do fascista, brancos, nulos e abstenções. E mesmo após a humilhante derrota, esta parte da esquerda ainda crê que era possível reverter este quadro com apoio de candidato X ou Y. Absurdo! O número de pessoas que rejeitou terminantemente votar no PT foi muito maior que o número de votos de todos os outros candidatos juntos. Alegam também que serão fiéis ao PT até o fim. Será que desejam enfiar o partido goela abaixo de 100 milhões de pessoas? Haja egocentrismo…

Agora que tudo passou, nosso desejo imediato era começar a oposição a Bolsonaro desde já, mas não podemos ignorar os ataques que Ciro vem sofrendo injustamente. É imperativo lutarmos pela narrativa em todos os espaços. Afinal, com Ciro vimos, pela primeira vez, que é possível brigar pela presidência apenas apresentando projetos, sem precisar apelar para a aura messiânica de velhos líderes. Através dele pudemos vislumbrar a possibilidade de ter um governante que desafie os privilégios para garantir uma distribuição de renda mais equânime. Ninguém nesta campanha foi mais antissistema que Ciro Gomes, pois foi apenas ele quem criticou abertamente – sem medo de represálias – os lucros obscenos daqueles que historicamente extorquem as riquezas nacionais. Portanto, deixar de brigar pela narrativa seria abrir mão desta possibilidade no futuro. Os petistas têm uma poderosa máquina de divulgação que irá disparar mentiras a seu favor, sistematicamente, e nós estamos incumbidos de desafiá-los propagando a verdade, e assim de auxiliar Ciro a tornar-se a grande figura da nova oposição. Se ele ocupará este espaço ou não, depende dele, mas depende também de todos nós.

1 Comentário

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  1. 1
    Glaucia maria

    O pt como sempre não aceita derrotas e agora quer culpar ciro gomes por seus erros e histórica de rota nas urnas .que quando na verdade deveria ter apoiando ciro gomes

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