Por um voto que empodere eleitor e candidato


Por Fernando de Souza Martins

Quero propor uma solução para um sério problema na forma como debatemos sobre políticos no Brasil. Explico: o apoio que uma pessoa eventualmente expressa a um político é visto como um compromisso de fidelidade àquele. Isso trava o debate, introjeta um receio em expressar qualquer nível de apoio a políticos, pois esse apoio pode ser compreendido como um alinhamento total ao candidato.

No Brasil, o voto é tratado como se fosse um alinhamento eterno de almas, como se votar fosse a declaração de um sentimento de sentir-se representado intimamente por tal político.Como poderia uma figura pública declarar seu voto ou demonstrar apoio prévio a um candidato quando teme ser culpabilizada por todo e qualquer erro futuro, ou mesmo passado, do agente político? Estaria declarando alinhamento tão íntimo através do voto?

Outro problema advindo dessa visão é que fica menos provável que as pessoas sintam-se encorajadas ou até simbolicamente autorizadas a criticar a pessoa em quem votaram.

Se vão “contra” o próprio voto, podem ser chamadas de hipócritas, precisam sustentar a defesa dos políticos que votaram para não correrem o risco de também serem chamadas de infiéis, o que talvez seja pior que ser hipócrita na nossa cultura eleitoral.

O ELEITOR TORCEDOR

Impossível não traçar um paralelo com o futebol. Cada um escolhe um time e, assim, seu caráter será testado na defesa deste. Perdendo ou ganhando, a fidelidade deve ser mantida. Até porque a brincadeira de torcer por um time está justamente no conflito lúdico, se o personagem torcedor sai do seu papel, troca de time ao seu bel-prazer, a brincadeira acaba.

Há, portanto, um valor dado à fidelidade. Quanto mais fervorosa for a torcida, mais coisas são postas em jogo e, assim, a vitória ou a defesa em face da derrota se tornam mais significativas.

A PARTIDA QUE ACIRROU O EMBATE

Voltando à política.

Assim que Bolsonaro é eleito, qual é a questão que toma conta da política nacional? Torcida. “Você tem que torcer para o governo dar certo, estamos todos no mesmo barco”, como quem diz “aceita, teu time perdeu, meu time é a própria seleção nacional agora, você tem que torcer para o meu time”, é a declaração máxima de vitória.

É POSSÍVEL APRIMORAR AS REGRAS

Há uma forma de mudar isso. Instituir uma forma mais madura de lidar com este dever e responsabilidade civil que é o voto. Podemos o compreender como uma autorização cética à representação pública diante de um poder também público, cujo cumprimento deve ser conferido, eventualmente corrigido e aprimorado através de pressões e críticas.

Agir como quem contrata um serviço, mas o acompanha ceticamente para certificar-se de que o contratado está executando de acordo com o combinado.

AVALIAÇÃO DOS CAMPEONATOS PASSADOS

O problema é que o povo brasileiro foi ao mesmo tempo posto num sistema em que a “contratação” desse “serviço” de representação é compulsório.

Ao mesmo tempo, há, no povo, a certeza de não ser capaz de influenciar o cumprimento do serviço depois que o político chega ao poder.

O problema pode se agravar duplamente: primeiro, quando o voto é dado sem conhecimento de qual é o papel do candidato eleito, seja para o poder legislativo ou executivo; segundo, quando os políticos se aproveitam dessa falta de conhecimento civil.

Mas e se o voto fosse dado não exclusivamente à pessoa.

O que aconteceria caso esse vínculo pessoal fosse diluído no amparo legal e simbólico de um documento contratual que limitasse a atuação de tal político a certos valores, princípios norteadores e a um projeto claro e realista que estipule algo a ser cumprido, tendo tal político deveres explicitados no cumprimento de tal projeto?

Instituiríamos, dessa forma, um voto com um teor menos pessoal, com contornos mais objetivos de apoio a um projeto maior que pessoas e até mandatos.

O amparo legal já existe, mas é amplamente desacreditado. O eleitor não se sente amparado pelos tribunais eleitorais ou por projetos partidários e, assim, o voto cai nesse difuso ambiente da confiança pessoal dada ao candidato ou candidata.

A REFORMULAÇÃO ESTRATÉGICA PODE ENCAMINHAR O BRASIL À VITÓRIA

De toda sorte, podemos ir além das leis e instituições falidas aos olhos do povo. Podemos propor, junto ao nosso projeto de governo, um voto que institua um vínculo cético e, portanto, vigilante, crítico e propositivo.

Um pacto que reflita e proponha uma atitude civil mais madura, um vínculo eleitoral avesso a essa crença despolitizante e populista de que política é uma questão personalista.

Em tal desenho, arejamos o ambiente ao ponto de passarmos a tratar de ideias, projetos, valores, estratégias e ética.

Através de um documento que não seja entregue para os tribunais vigiarem, mas algo que possa ser abraçado pelo maior número de pessoas.

Algo que possa virar um movimento enorme, empoderando o povo a participar do processo político eleitoral e que o mantenha ativamente, com ajuda também da imprensa, firme em um foco: o Projeto de Brasil eleito junto com seus mandatários políticos, algo que supere a tradição de eleger políticos com vagas promessas de um Brasil sonhado e nunca atingido.

O ALICERCE DE UMA ESTRATÉGIA CAMPEÃ ESTÁ NA MOVIMENTAÇÃO PRECISA DAS PEÇAS

Para terminar, as ferramentas para esse movimento podem ser várias, tanto no âmbito da propaganda e comunicação quanto no âmbito político.

Um abaixo-assinado acompanhado de um manifesto a ser disseminado nas redes sociais a partir de um evento de lançamento, como uma simples entrevista ou algo maior como um debate com lideranças políticas, figuras públicas e intelectuais a aderir, anúncio à imprensa, seria uma estratégia comunicacional a ser considerada.

Já politicamente, pode-se incorporar ao planejamento, discurso e prática de políticos do PDT (encabeçado por Ciro Gomes) e reforçar, pela adesão de figuras públicas, um projeto de poder capaz de empoderar, além de um Projeto Real de Brasil a ser construído, o povo que o elegeu.