A política não é palco para inocentes, mas há meios e meios


Por Douglas Rafael Duarte (Equipe VPM)

A disputa narrativa travada nas redes entre apoiadores de Ciro (PDT) e Lula (PT), desde que o ex-presidente voltou definitivamente para o tabuleiro eleitoral, tem sido dura e costumeiramente descolada do que realmente importa. Enquanto Lulistas e Ciristas lutam para situar seus escolhidos mais à esquerda, a verdade é que ambos brigam para serem o nome ungido pelo centro político nacional. Nesse ponto, ganha ainda mais importância o projeto político (muito mais do que a retórica) defendido por cada um dos agentes desse embate. O problema é que o tradicional “neoudenismo” do Partido dos Trabalhadores subverte a discussão (mesmo contra os próprios esforços concretos do líder petista) para iludir uma multidão de incautos que acompanha a política apenas através do Twitter e da blogosfera lulista. A política não é palco para inocentes.

Diferentemente do enorme contingente de brasileiros simpatizantes de uma visão de centro-esquerda, mas que não acompanham o debate nacional de forma cotidiana e dentro das reais estruturas de poder, o presidenciável trabalhista e o ex-presidente petista sabem que, na atual conjuntura (e em praticamente toda a história do Brasil), a chave da vitória está em atrair o centro (partidário e da sociedade) para o seu lado.

CIRO E LULA: A DISTINTA MOVIMENTAÇÃO NO TABULEIRO POLÍTICO

Ciro tem feito isso de forma muito transparente já há algum tempo. O trabalhista tem sustentado em suas falas a necessidade de uma aliança entre quem trabalha e quem produz. Ou seja, trabalhadores e empresários. A ideia não é tão nova, mas de difícil execução: uma agenda de salvação e reconstrução nacional por meio da qual um Estado forte, coordenador e indutor do desenvolvimento, cria as condições para o empresariado empreender e lucrar, mas também distribui renda e amplia a malha de proteção social aos trabalhadores e à camada mais frágil da sociedade. Para além do discurso, é de conhecimento público, inclusive dito pela boca do próprio Ciro, que ele mantém conversas com nomes da direita como Rodrigo Maia (DEM), ACM Neto (DEM), Kalil (PSD), Gilberto Kassab (PSD) e até mesmo nomes do PSDB como Tasso Jereissati.

Lula, como sabemos, prefere as sombras e negociatas. Em geral, fala através de interlocutores ou meias-palavras para não expor ou macular sua imagem de líder popular das esquerdas (o tipo de fantasia que só pode prosperar em países como o Brasil). Na prática, é notório que sua atual obsessão é recompor a antiga aliança com o MDB. Além dos encontros e troca de afagos do ex-presidente com nomes como Calheiros (MDB), Eunício (MDB), Sarney (MDB) e Valdemar da Costa Neto (PL), o próprio Jacques Wagner (nome da alta cúpula petista) disse, recentemente, que Lula é de centro e deverá buscar um nome vindo do empresariado, da direita, para compor sua chapa presidencial.

O CRITÉRIO É O PROJETO

A política de alianças, nesse caso (claro que ressalvadas determinadas especificidades), não pode ser o fator determinante para apontar em que campo cada candidato está, mas efetivamente o seu projeto. Só com isso é possível separar o que é narrativa da blogosfera e do gabinete do ódio petista (que classificaram Ciro de “o nome da direita” por buscar alianças com o centro e direita, mas definiram os mesmos movimentos de Lula como “a genialidade de um estadista”) daquilo que cada candidatura representa efetivamente.

O projeto é a chave por vários fatores. O primeiro deles é: não estamos falando de cooptar essa parcela que flutua entre os dois campos da política, mas de efetivamente construir um programa minimamente palatável e benéfico aos interesses dos grupos representados por esses agentes da política nacional. Quando se tem um projeto bem definido, há margem para realizar uma negociação republicana da agenda em vez do tradicional loteamento de estatais e espaços de poder (e ladroagem) para notórios corruptos.

E quando o debate supera as paixões e o concurso de simpatias a que o ex-presidente almeja condenar o Brasil eternamente para manter-se no poder, fica escancarada a falta de compreensão lulopetista sobre a atual conjuntura e sua incapacidade de oferecer soluções aos problemas nacionais.

Mais do que isso: fica evidente quem está à esquerda nessa disputa. Enquanto Ciro (mesmo correndo o risco de quebrar pontes com possíveis aliados da direita) sustenta o compromisso de reverter todas as privatizações do setor mineral e energético feitas desde o governo Temer, Lula (na ânsia de atrair apoiadores à direita) acena de forma irresponsável até mesmo com uma criminosa abertura de capital da Caixa Econômica Federal.

MESMO FIM, DIFERENTES MEIOS

Portanto, para além do histerismo moralista do lulopetismo nas redes sociais e nos seus canais de divulgação de mentiras e narrativas desonestas (não por acaso Brizola os classificou como a “UDN de macacão”), Ciro e Lula brigam pelo poder real que, na atual conjuntura, é a construção de uma aliança ampla com setores do centro e da direita.

A diferença é que um deles tem feito isso de forma clara e sem abrir mão de compromissos centrais para retomar o desenvolvimento com justiça social, aplicar uma política de tributação progressiva, distribuir renda e estancar a sangria do rentismo. O outro, por sua vez, demonstra estar disposto a praticamente qualquer coisa para retornar ao poder. Pois, de fato, a política não é para inocentes.

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