Paris: a decisão de Ciro Gomes salvou a esquerda


Por Cleber da Silva Vargas

Inevitável entender que a não presença de Ciro Gomes (PDT) no segundo turno de 2018 deve-se à força acumulada ao longo dos governos petistas. Também é inevitável concluir que a acachapante derrota de Fernando Haddad (PT) no segundo turno vem do fracasso redundante desses mesmos governos. Ao tentar se perpetuar no poder, o PT deixou de lado as reformas de base, a proteção do trabalho e a ampliação dos direitos civis, perdendo seu sentido de “esquerda”.

Entretanto, a dinâmica dos governos petistas por si só não explica a decisão de Ciro Gomes (PDT) deixar o Brasil rumo a Paris ao final do primeiro turno eleitoral de 2018, quando ficou como 3° colocado. Para entendermos a decisão de Ciro, precisamos considerar o fracasso de condução administrativa e política nos últimos governos do PT, que culminaram em 2016 com o golpe político sofrido por Dilma Rousseff, e contextualizar todo o pleito eleitoral daquele fatídico ano em que Jair Messias Bolsonaro foi eleito.

É preciso também escancarar as manobras petistas antes mesmo de se iniciar o pleito. Uma delas foi manter a natimorta candidatura de Lula até, no limite do tempo legal, lançar um candidato tampão (poste). Outra, foi usar seu Mav para, mais uma vez, atacar os “do mesmo lado” com mentiras e rifar quadros do partido para isolar Ciro e garantir o segundo turno, mantendo a hegemonia do partido.

Dito isso, podemos, agora sim, enxergar os motivos e compreender as consequências da decisão de Ciro Gomes. Ao negar subserviência ao petismo e viajar à Europa, Ciro descolou, em parte, sua imagem do PT e abriu uma nova possibilidade para a esquerda.

Mesmo que no início de 2019 sobrassem ainda acusações de ser o responsável da derrota em 2018, acusações estas que só o Lulopetismo usa atualmente, Ciro foi construindo um novo campo de debate e de oposição ao governo Bolsonaro. Tal campo se estruturou em ações no Supremo feitas pelo PDT e ganhou força quando conseguiu o auxílio de outros partidos nestas ações. Esse movimento deu início às conversas sobre alianças, algumas delas já firmadas com PSB, REDE e PV que preferiram discutir as ideias do PND a manterem-se sob a tutela do petismo.

Além disso, em função da atuação de Ciro ressurgiram antigos nomes escanteados pelo hegemonismo petista, ampliando e intensificando o debate sobre o que teria nos levado ao bolsonarismo. Os movimentos de possíveis novos candidatos à presidência da República, como Flávio Dino, ganharam força e, hoje, se apresentam-se novas possibilidades. Mesmo não se distanciando totalmente do petismo, alguns atores que antes andavam abraçados ao PT como, por exemplo, Boulos e Freixo, conectam-se à Lula, hoje, apenas pelas pontinhas dos dedos. É flagrante que buscam se reencaixar no contexto da esquerda almejando, talvez, o lugar de Lula.

Diante dos fatos expostos, é fácil compreendermos o porquê de Ciro Gomes. Já antes das eleições de 2018, Ciro havia reconduzido o PDT para um caminho independente. O trabalhismo, após um período fisiológico, foi retirado de seu estado anímico e passou a proporcionar uma nova chance à esquerda brasileira.

Mesmo que não vença em 2022, ou que não vá ao segundo turno motivado por um fracionamento já observado nas eleições municipais, sabemos que há novamente uma esquerda propositiva no país. Essa alternativa, goste-se ou não, se devemos a Paris e à decisão de Ciro Gomes.

A viagem de Ciro Gomes salvou a esquerda.