O economista de Ciro Gomes na cova dos liberais


Texto de Daniel Soares, Cientista Social pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo.

Terça-feira passada coube a Mauro Benevides, economista da chapa de Ciro Gomes, a ingrata tarefa de confrontar os jornalistas “especialistas em economia” da Globo News numa sabatina torturante de quase uma hora. Sessenta minutos de uma intensa batalha contra jornalistas mal-intencionados que interrompiam suas falas, impediam a conclusão de seus raciocínios e, claramente, buscavam formas de desqualificar suas propostas uma a uma.

Benevides sofreu, inclusive, da mesma má vontade – ou poderíamos até dizer oposição militante – que Guilherme Mello, do PT, no dia anterior. Esta disposição para buscar desconstruir as explanações destes dois economistas, afinal, faz parte da usual cartilha do jornalismo neoliberal, que tenta a todo custo reduzir a racionalidade econômica heterodoxa (progressista) à utopia e desinformação. Mello, porém, apesar de brilhante acadêmico, não possui o mesmo dinamismo retórico de Benevides, e por isso penou um tanto mais para divulgar seus pensamentos e projetos para os anos vindouros. Benevides, por sua vez, respondia prontamente às perguntas e às indesejadas e grosseiras intervenções sem pestanejar. Seu “economês”, quesito indispensável para debater com liberais sofistas, foi impecável. Isso fez com que Miriam Leitão e seus amigos – dotados de uma arrogância que lhes dava ares de quem conhecia do assunto melhor que ninguém, embora fossem pouquíssimo articulados no discurso – recuassem pouco a pouco à proposta inicial de ataque franco ao economista.

O formato do programa, a propósito, faz lembrar da elucidação de Pierre Bourdieu no livro “Sobre a Televisão” a respeito do formato jornalístico de distribuição de informações. Segundo o autor, a televisão possui uma dinâmica própria que se submete à lógica mercadológica da competição e da acumulação, aderindo assim à competição como (modo de agir) central. As emissoras, portanto, brigam constantemente entre si na gana de aumentar sua audiência e lucrar mais com suas atividades. A consequência desta competição é a aceleração do fazer jornalístico – desde o colhimento e apuração de informações até o consumo das mesmas pelo espectador -, impedindo assim o aprofundamento adequado que os acontecimentos, em sua complexidade, demandam. Esta dinâmica faz com que os fatos sejam explorados apenas superficialmente, que sejam tratados por um prisma limitado, e evita que as reportagens retratem todos os pontos de vista envolvidos. Da mesma forma, a rápida – e por isso rasa – reflexão que existe por trás da distribuição de informações culmina em graves problemas para a divulgação dos fatos, como a parcialidade na escolha e na comunicação das notícias, por exemplo, que, ao contrário do que comumente se diz, não ocorre por decisões deliberadas do editor e sim pela racionalidade – que inclui tanto a dinâmica de mercado já citada quanto a consideração automática da equipe pelo que agradaria aos proprietários da emissora – à qual o jornalismo está subordinado.

Portanto, a velocidade insana exigida pelos jornalistas nas respostas da sabatina remete intimamente à crítica que Bourdieu faz à superficialidade com que qualquer assunto deve ser tratado na televisão, no intuito de obedecer à dinâmica acelerada da mesma. Os intelectuais que são convidados a discutir assuntos de grande relevância na televisão precisam fazê-lo de maneira veloz, e a consequência disto é uma exposição incompleta dos conteúdos, o que prejudica a compreensão do caso pelo consumidor.

Logo, a nocividade deste processo é proporcional à importância do assunto tratado. Bourdieu explica que seria na busca por estes expositores velozes que a mídia acaba escolhendo seus favoritos. Uma espécie de “pensadores de estimação” que se estabelecem no mainstream jornalístico tratando de tudo o que se peça, sempre mediocremente, exatamente como fazem os especialistas que batem cartão na Globo News. Para os jornalistas ali presentes pouco importa se o assunto é de extrema importância para o futuro do país. A preocupação principal é manter a audiência e o prestígio do programa perante o público, e tal preocupação guarda um objetivo escuso. Mais que esclarecer as ideias de cada entrevistado, o programa da sabatina tem o foco em defender aquilo que se afirma todo (sacro) santo dia: a interpretação ortodoxa, liberal e elitista da economia, provando assim que o ponto de vista exposto na emissora, constantemente, é real. Uma busca pela autoafirmação dos personagens jornalistas e, consequentemente, dos interesses que suas ideias representam. A entrevista está em segundo plano; uma mera peça teatral a serviço da manutenção do status quo.

Os jornalistas que defendem o pensamento ortodoxo na economia, que é o caso dos presentes na sabatina, procuram codificar o máximo possível sua linguagem no duplo intuito de manter o debate afastado do vulgo e, ao mesmo tempo, aparentar credibilidade e conhecimento técnico elevado perante os não iniciados no assunto. Quanto mais complicado é o discurso de um especialista em economia, mais competente ele parece. Benevides, na terça-feira, mostrou que domina o “economês” dos números e fórmulas matemáticas com maior eloquência que os entrevistadores da noite. Contudo, suas proezas principais no debate – como sua retórica impecável e seu sentido alerta às “pegadinhas” sarcásticas que tentaram descreditá-lo por diversas vezes, por exemplo – ainda se somam a uma coerência inquestionável, algo de que carece o discurso econômico ortodoxo, que cospe teoria microeconômica à torto e a direito quando o assunto é macroeconomia, que exige austeridade para os trabalhadores e fecha os olhos para a bonança dos bilionários.

Portanto, ao espectador e eleitor se faz crucial notar a manipulação do discurso na televisão buscando manter um pensamento hegemônico que preserva a acumulação desenfreada de capital para quem já o possui em volume gigantesco e a privação do mesmo para aqueles que não possuem sequer as condições básicas para sua reprodução. Um exemplo claro disso na entrevista, entre vários outros, foi o momento em que Benevides explicava a proposta de Ciro para a Reforma da Previdência. Por mais que o economista se dispusesse a elucidar ponto a ponto, foi interrompido por muitas vezes, e Sardenberg, como uma criança birrenta, ainda apelou para o “não estou entendendo nada”.

Os outros jornalistas batiam na tecla do “e a liberdade (de enriquecer às custas do estado), onde fica?”, buscando levantar uma questão que pega forte para uma sociedade neoliberalizada; a saber, a lendária liberdade para se tornar um milionário. Todas as perguntas, intervenções e pausas foram fabricadas artificialmente com o objetivo de desconstruir – perante a opinião pública – as interpretações alternativas para a economia. É preciso ficar atento! Se comprarmos a narrativa que tentam nos vender, reproduziremos indefinidamente este sistema que interessa somente aos poderosos, e o povo continuará relegado à própria sorte.

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