Nosso principal adversário, de fato, é a ignorância


Texto de: Leandro Nogueira dos Reis

Em uma de suas numerosas entrevistas, questionado sobre quem seria o maior adversário nestas eleições, foi esta a resposta dada por Ciro Gomes: a ignorância. Ato contínuo, sua entrevistadora busca encarnar o atributo em um candidato específico, obtendo por resposta o fato de ser este um mero intérprete do mesmo. Devemos ter em conta que uma resposta de tal ordem não é algo indiferente, pois nos coloca diante de uma relevante discussão sobre substantivos e adjetivos. Adjetivamente a ignorância remete somente ao estado daquele que ignora, uma falta de cultura, conhecimento ou experiência. Substantivamente, entretanto, a ignorância pode ser encarada como algo distinto, mais do que mera negatividade, um conjunto de disposições estruturadas que regulam as relações do sujeito com o Outro, e que dizem muito da nossa organização social. Referimo-nos a paixão da ignorância, discutida por Spinoza e retomada pela psicanálise.

Consideremos a conjuntura política atual. Tanto à direita quanto à esquerda se observa um insistente apelo à mistificação em torno de figuras mais ou menos emblemáticas. No sentido mais evidente salta aos olhos a dinâmica das duas paixão mais conhecidas, amor e ódio, em torno de tais figuras, e seu sintoma mais característico é a polarização simplista da sociedade entre coxinhas e mortadelas. Ligada e estas de modo indissolúvel, contudo, está a paixão da ignorância. Não é por acaso que as causas identitárias, ainda que legítimas, tenham deslocado progressivamente o debate sobre questões centrais da política e das relações de poder como, por exemplo, a concentração de renda por uma minoria e a cooptação das instituições de estado. Se esta concentração de poder e renda determina os rumos do país e as condições de vida da população, a paixão a que nos referimos submete o sofrimento não à uma discussão racional sobre causas, mas a identificações imaginárias subordinadas ao narcisismo. A demanda endereçada a figuras mistificadas visaria o apagamento da falta no sujeito e o preenchimento do Outro, dando-lhe uma consistência que não possui.

Daí a essencialidade de uma posição distinta, que ao invés de simpatias pede somente a atenção de quem a escuta. Uma posição segundo a qual a democracia é um regime de conquista e não de concessão. Que a todo momento, questionada sobre porque seria ou não como as demais, retorna com a responsabilidade do eleitor: “vocês já viram algum político falando coisa desagradável pro povo em véspera de eleição? O que distingue não é o político é o eleitor. Então repare, não existe democracia sem o cidadão ativo”… Em confluência com tais posições está aquela que propõe um método e um projeto acima de qualquer personalismo, resgatando em face dos impasses a distinção tão cara ao período das luzes entre chefe de governo e chefe de estado. Lembramos aqui de valores que, numa polarização caricata advinda da guerra fria, acabaram ficando esquecidos, mas que em seu resgate conceitual promovem as ideias de mediação, dialética e, sobretudo, a ideia de soberania. Isto é, a ideia segundo a qual emanando do povo o poder, nenhuma representação pode preencher seu lugar e pretender falar em seu nome.

Categorias

+ Não há comentários

Adicione o seu