Muito pior que a postura de Karol Conká!


Por Tomás Pinho

Ontem, quarta-feira (10), a Câmara dos Deputados aprovou a autonomia do Banco Central (BC). Isso conseguiu me deixar mais indignado e enraivecido com o Brasil do que todas as inserções de Karol Conká no BBB21 (e olha que são muitas)! Brincadeiras e clickbaits à parte, figuras públicas também demonstraram grande indignação com a mudança. Mas antes de mais nada, vamos falar rapidinho sobre como a alteração nos afeta.

O Banco Central toma uma série de decisões sobre:

  1. Aumentar ou subir os juros (SELIC);
  2. Regular quanto de dinheiro o banco não pode emprestar, ou seja, quanto precisa garantir guardado no “cofre” (compulsório);
  3. Como fiscalizar bancos, corretoras, instituições do sistema financeiro em geral, entre outras.
POR QUE ISSO É IMPORTANTE?

À primeira vista, parece algo distante do nosso dia a dia, porém não é!

Se a SELIC está alta, fica difícil para você, empreendedor, conseguir um empréstimo para começar seu negócio, reformar sua loja, comprar uma máquina ou software novo, ou até pagar uma dívida inesperada. Se apenas cinco bancos concentram o grosso do crédito no país (como é o caso), fica pior ainda, porque ninguém oferece crédito barato – nem para empresa pequena nem para a população. É como ter só duas ou três farmácias ou postos de gasolina numa cidade. Na prática, eles controlam os preços e não há concorrência. Pois é, o BC deveria fiscalizar e preservar a concorrência entre os bancos, como numa economia saudável.

Os donos de restaurante, bar, salão de beleza, lojistas e comerciantes em geral sentiram o desespero de ter que fechar as portas definitivamente e mandar muitos trabalhadores embora por conta da pandemia. Quem precisou de empréstimo para uma emergência de saúde ou até alimentar, sentiu o mesmo. Tudo porque o crédito barato não chegou no momento em que mais precisavam!

Os grandes bancos receberam ajuda do Banco Central, mas não repassaram o dinheiro para os brasileiros via empréstimos baratos, mesmo durante a pior crise de saúde pública da história recente. O oposto aconteceu na Alemanha, por exemplo. E o que me enraivece (novamente consegue ser pior que certos abusos do BBB) não é mudarem ou não uma regra da administração pública, mas sim pessoas terem sofrido muito em 2020 por falta de apoio quando isso poderia ter sido evitado!

A INDIGNAÇÃO DE CIRO

Em live da ANFIP, o presidenciável de 2018 pelo PDT, Ciro Gomes, listou fervorosamente os desvios, injustiças e “picaretagens” feitas pelo Banco Central ao longo dos anos. Via de regra, nas gestões de FHC, Lula, Dilma, Temer e agora Bolsonaro, quem ocupou cargos no BC veio da elite do sistema financeiro privado. Os presidentes do BC aplicaram políticas monetárias favoráveis a essa mesma elite, seus bancos e corretoras. Esse problema vem de antes de Bolsonaro e tudo isso sem o Banco Central independente! Com a nova lei, pode piorar ainda mais. E um novo presidente em 2022 terá menos poder para mudar isso.

POR QUE PODE PIORAR?

Mesmo com a decisão da Câmara, o presidente da República ainda nomeará o presidente do BC e o Senado seguirá com a prerrogativa de sancionar ou não a escolha. Porém, o presidente e os diretores do BC passam a ter um mandato fixo de quatro anos, só podendo ser “demitidos” em casos especiais, com aprovação do presidente e do Senado. Antes, todos os membros nomeados podiam ser substituídos a qualquer momento pelo chefe do Executivo.

Além disso, a nova regra estabelece que os mandatos do presidente da República e do Banco Central não coincidam. Como assim? Estamos no terceiro ano do mandato de Jair Bolsonaro, correto? Com a nova lei, ele precisará nomear (ou renomear) o presidente do Banco Central este ano para um mandato de quatro anos. Se Bolsonaro renomear o atual presidente, Roberto Campos Neto, ele ficará no cargo até 2025, independentemente de mudarmos ou não de presidente em 2022.

É evidente que as indicações de Bolsonaro ou Guedes são muito diferentes das eventuais indicações de Ciro ou de outros políticos. Decidir sobre como manejar a macroeconomia do país não é um conjunto de decisões puramente técnicas, com soluções únicas para os problemas. São feitas escolhas que, muitas vezes, privilegiam grupos (como donos de bancos, corretoras ou investidores bilionários) e prejudicam outros (adivinha quem?). Blindar mais o comando da economia do presidente da República, é blindar a economia do voto das urnas.

“CANALHAS!”

As exclamações de Ciro durante a live da ANFIP ultrapassam até mesmo a combatividade normal dele. É a indignação de quem vê a canalhice se delinear enquanto quase ninguém percebe, já que envolve um assunto difícil e distante do povo. É a mesma indignação de Jean Wyllys ao votar contra o Impeachment de Dilma Rousseff. Ele estava ciente que, apesar da má administração e da corrupção de outros, ela de fato não estava sendo retirada pelas pedaladas fiscais. É a exasperação de quem vê um trem sendo tirado dos trilhos (por canalhas) sem ninguém fazer nada!

Caso queira, compartilhe com as pessoas próximas, inclusive aquelas que não ligam para política, economia, taxa disso ou daquilo. Quem sabe elas entendam a nossa indignação. E caso queira escrever para o VemPraMassa, sinta-se convidado para discutir o Brasil e a vida dos brasileiros e brasileiras, seja pela política, economia ou cultura.