Lula é adversário, o inimigo é Bolsonaro


Por Christian Velloso Kuhn

As eleições nacionais de 2018 legaram grandes ensinamentos, mas também provocaram fortes desavenças entre candidatos à presidência da República, culminando inclusive no rompimento de relações. A mais notória foi entre Lula (e consequentemente o PT) e Ciro Gomes.

De um lado, Ciro sentiu-se traído por Lula e o PT, dentre alguns motivos, devido ao acordo que fizeram com o PSB para este se manter neutro, impedindo que ele recebesse um importante apoio que se consolidaria numa forte aliança.

Por outro lado, o PT mostrou sua insatisfação com o apoio crítico do PDT no 2º turno, principalmente pela ausência de Ciro na campanha de Haddad, quando o pedetista se negou a dividir o palanque com seu desafeto, Eunício Oliveira (MDB/CE), e outros emedebistas que votaram pelo impeachment de Dilma.

CIRO COMO TERCEIRA VIA

Desde o início do Governo Bolsonaro, Ciro Gomes e o PDT vêm exercendo uma oposição responsável e propositiva, focada no debate de ideias, ações e projetos.

Ao mesmo tempo, descolaram-se de maneira clara e definitiva de Lula e do PT, permitindo consolidar a liderança de Ciro e seu Projeto Nacional de Desenvolvimento (PND) como uma 3ª via alternativa à polarização entre o bolsonarismo e o lulopetismo.

Mais do que isso, vem revelando a simbiose entre os dois polos, em que Bolsonaro é fruto do crescente antipetismo instaurado no país. Nas palavras do próprio Ciro, “não existiria o bolsonarismo boçal se não fosse o lulopetismo corrompido” .

ACIRRAMENTO DA DISPUTA ELEITORAL

Com o advento da saída de Lula da prisão, somada à anulação de suas condenações pelo STF com a declaração de suspeição de Moro, o ex-presidente resolveu se lançar novamente para a candidatura à presidência nas eleições de 2022.

Uma vez que Bolsonaro é candidato no próximo pleito eleitoral desde o início de seu mandato – apesar de ter prometido acabar com a reeleição na campanha de 2018 3 – a disputa pelo cargo presidencial se acirrou consideravelmente.

Com as pesquisas eleitorais indicando percentuais ligeiramente acima de 30% para Bolsonaro e Lula, o candidato que vem ocupando a 3ª colocação vem sendo Ciro Gomes (na mais recente, passando pra 10% ). Todavia, essas pesquisas ainda consideram candidaturas improváveis (Huck e Moro), não confirmadas (Mandetta e Doria) ou que já desistiram (Amoedo).

Todas no mesmo campo disputado por Ciro, que não se sentem representados nem por Bolsonaro, nem por Lula, o que sugere que há um bom espaço para o pedetista crescer nas preferências desses eleitores (somam 14% na última pesquisa).

CIRO EM OPOSIÇÃO AO BOLSONARISMO E AO LULOPETISMO

As razões que levam Ciro Gomes a ser um candidato de oposição ao Governo Bolsonaro são por demais conhecidas. O PND apregoado por Ciro defende a reindustrialização da economia brasileira, um Estado atuante e fiscalmente saneado sem recorrer ao entreguismo de privatização de estatais estratégicas, a realização de reformas estruturais em prol do combate às desigualdades e aos interesses nacionais e da maioria da população (como as reformas da Educação, Previdência, Política e Tributária), dentre outras proposições que contrapõem o descalabro causado pelo caótico Governo Bolsonaro.

De outra sorte, Ciro também apresenta divergências ao lulopetismo, muito além de meras rusgas ocasionadas pela postura antiética de Lula desde as eleições passadas.

Nos 13 anos do PT no poder, o envolvimento do partido em esquemas de corrupção, o descaso com a desindustrialização, a falta de políticas tributárias distributivas (criação de Impostos sobre Grandes Fortunas, Lucros e Dividendos, etc.), a política de juros que permitiu lucros recordes aos grandes bancos, e outras mais se constituem em ações e omissões às quais Ciro Gomes apresenta sérias desavenças veementemente.

UMA OBRIGAÇÃO MORAL

A despeito dos dissensos supracitados, num eventual 2º turno de disputa entre Bolsonaro e Lula, tanto Ciro quanto o próprio PDT possuem mais identificação política e ideológica com as ideias e programas do PT.

A começar com a necessidade de proteger a democracia no país, atualmente em risco e com possibilidade de agravar com a reeleição de Bolsonaro. Mas mesmo algumas proposições de Ciro também são defendidas pelo PT (ainda que copiadas de seu programa, como a taxação de Grandes Fortunas).

Visto que o ex-ministro apresenta um projeto para o país – e não de poder, como os outros dois candidatos – não permitiria que vaidades pessoais se contrapusessem e comprometessem os interesses do Brasil.

Entretanto, dado o vasto e viável espaço de uma candidatura alternativa ao bolsonarismo e ao lulopetismo, em virtude da alta rejeição a Bolsonaro e Lula, como o próprio Ciro proclama, ele deseja ser candidato até por uma “obrigação moral” de oferecer aos brasileiros uma alternativa sem restringir apenas a “escolher entre coisa ruim e coisa pior”.

Ademais, advoga que ambos sejam cobrados pelos motivos “que nos trouxeram a essa tragédia”, e aponta que “aí não vai ter jeito, as pessoas vão lembrar claramente que o Bolsonaro não caiu de paraquedas”.

SÓ HÁ UM INIMIGO

Em que pese a responsabilidade que recai sobre o PT pela ascensão do bolsonarismo, cuja origem é o antipetismo, supostamente há quem diga, entre os seus apoiadores, que Ciro deve se focar em enfrentar Bolsonaro e poupar de dirigir tantas críticas a Lula.

Se confirmada essa intenção de mudança na estratégia de pré-campanha de Ciro, devemos nos aperceber que, muito embora tenhamos sérias ressalvas à postura de Lula e do PT, estes são tão somente adversários na disputa das eleições presidenciais – ainda que por vezes usem de meios escusos e imorais para caluniar seus rivais.

O verdadeiro e único inimigo da nação e que vem causando enorme estragos e atrasos ao país, e danos irreparáveis à população, comprometendo inclusive a sua sobrevivência, é Bolsonaro e sua corja bolsonarista.

Contra eles que devemos nos unir, seja para expulsá-los do poder via um impeachment, seja os derrotando nas eleições de 2022. Nesse caso, preferencialmente os tirando do 2º turno, permitindo que Ciro concorra à presidência contra um adversário democrata, ou concorrendo contra Bolsonaro.

Porém, se não tivermos êxito em levar Ciro pro 2º turno (o que seria outra tragédia), restar-nos-á apoiar quem quer que seja para evitarmos uma reeleição de um autoritário genocida.