Leonel Brizola: o centenário de um herói brasileiro


Por Marcus Cunha*

Quando fui convidado por uma amigo, aos 16 anos, para ir ao Rio de Janeiro, sabia que uma grande aventura me esperava. Principalmente porque não seria uma viagem convencional, de avião, como normalmente é quando saímos do Rio Grande do Sul. Com meu amigo Reges, 32 anos, percorri os 1,8 mil quilômetros que separam Pelotas da capital fluminense a bordo de um caminhão Scania 113H, na época um lançamento, mas que por ser novo estava amaciando o motor. Isso significa dizer que o motorista não poderia passar dos 60 km/h ao longo da viagem em que levaríamos arroz para os cariocas.

UMA VIAGEM SEM VOLTA

Já antes de chegar na cidade maravilhosa subiu um caroneiro na Baixada Fluminense, um senhor negro, alto e conhecido do motorista. Curioso com a eleição de um gaúcho, perguntei a ele o que achava do novo governador. A resposta ficou na minha mente. Ele disse:

No centro do Rio não gostam dele não, mas eu hoje subo morro de escadinha, tenho bica d’água na frente de casa, luz elétrica e meu filho chega cansado do CIEP e nem precisa apanhar.

Essa frase mudou minha forma de ver a vida.

Reges (como depois descobri, um brizolista) me levou para visitar o embrião do que seria o Centro Integrado de Educação Pública (CIEP). Era uma escola com infraestrutura de primeiríssimo nível, salas de aulas modernas, amplas, iluminadas, bem pintadas, quadras esportivas, laboratórios e até piscina, na qual vários jovens negros estavam nadando. Basicamente, um “colégio de rico” para a população pobre. Uma visão revolucionária, um governante que investiu em educação verdadeiramente como nunca tinha visto.

A política poderia mudar para melhorar a vida das pessoas. Dali para frente, quando Brizola falava, eu parava para ouvir. Quando voltei para Pelotas, me filiei ao partido de Brizola e me tornei logo presidente municipal da Juventude do PDT. Segui para o comitê estadual e para o diretório nacional.E, mais recentemente, fui vereador por dois mandatos, de 2013 a 2020, e hoje sou presidente do partido em Pelotas, RS.

Tudo graças ao governo de Brizola no Rio.

A PRIMEIRA ESCOLHA DO JOVEM BRIZOLA

Brizola não nasceu Leonel. Último dos cinco filhos dos pequenos agricultores José e Oniva de Moura Brizola, seu nome de batismo era Itagiba. Veio ao mundo em 22 de janeiro de 1922 na localidade chamada Cruzinha, interior de Carazinho, no norte gaúcho. No ano seguinte, ao final da Revolução de 1923, seu pai, integrante do grupo político maragato, foi assassinado depois do armistício por um vizinho do grupo rival, os chimangos.

Com a morte de José, Oniva havia perdido a posse da terra e da casa onde morava com os filhos. Aos 14 anos de idade, quando foi ser registrado, Itagiba avisou: queria ser batizado com o nome do líder dos maragatos, Leonel Rocha. Assim foi feito, registrado como Leonel de Moura Brizola.

O ENGENHEIRO LEONEL

O caçula da família foi alfabetizado pela própria mãe e transferiu-se para Passo Fundo a fim de continuar seus estudos. Mudou-se para a casa da irmã, Francisca, que era casada com um açougueiro. Leonel, pela manhã, cursava o primário, e, à tarde, entregava carnes como forma de ajudar seu cunhado. Fazia essa atividade descalço: não queria estragar o único par de sapatos que tinha para ir à escola.

Aos 10 anos, retornou a Carazinho. Para se manter, realizou pequenos trabalhos. Foi carregador de malas na estação ferroviária, engraxou sapatos, lavou pratos. Nessas atividades, conheceu um casal metodista que, sensibilizado com a determinação do menino, lhe recebeu em sua casa e ofereceu uma vaga no colégio Metodista.

Depois do primário, Brizola novamente trocou de cidade. Desta vez, foi para a Região Metropolitana, onde se matriculou na escola técnica rural. Os estudos foram possíveis porque, ao mesmo tempo, trabalhou como ascensorista e trocador de rodas. As tarefas profissionais não lhe atrapalharam. Pelo contrário, mesmo com tantas atribuições, conseguiu estudar e tirar primeiro lugar no exame de admissão. O diretor da escola de Viamão, comovido com sua pobreza, autorizou que ele morasse no colégio.

Concluiu o curso técnico rural aos 17 anos e foi para Porto Alegre trabalhar, primeiro em uma refinaria de óleo, depois como jardineiro municipal da prefeitura. Mas a educação, como o tempo haveria de mostrar, nunca deixava de ser prioridade: conciliou o trabalho noturno com o curso noturno de engenharia civil.

A SEGUNDA ESCOLHA DE BRIZOLA

Mais ou menos por esta época, iniciou sua vida pública. Em 1945, fez parte do movimento queremista, que recebeu esse nome em razão do slogan “Queremos Getúlio”. O grupo defendia a permanência de Vargas na presidência e a convocação de uma assembleia nacional constituinte.

Brizola participou da fundação do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB). Sua vida privada também foi influenciada por essas decisões: em uma dessas convenções, conheceu Neusa Goulart, com quem casaria e teria três filhos. Ela era irmã de João Goulart, um personagem que aparecerá na sequência, também importante na história de Leonel e do Brasil.

Líder, carismático e eloquente, Brizola, durante um discurso, chamou a atenção do próprio Getúlio, que o indicou para compor a nominata de candidatos à Assembleia gaúcha pelo PTB. Foi eleito deputado estadual constituinte em 1947 e reeleito em 1950. Dois anos depois, trocou o Legislativo pelo Executivo.

Entre 1952 a 1954, foi secretário de Obras do Estado. Sob seu comando, entre outras tantas conquistas, foi construída a ponte sobre o Rio Guaíba que, até hoje, liga Porto Alegre à região Sul. Até então, o transporte era feito apenas por balsas.

Voltou ao legislativo em 1954, como deputado federal. E dois anos depois, ganhou a eleição para a prefeitura de Porto Alegre. Em 1958, participou de um novo pleito, sendo escolhido, pelos gaúchos, governador do Estado do Rio Grande do Sul.

A MARCA DE BRIZOLA

Em seus anos no Palácio Piratini (1959 a 1963), foram diversas ações práticas que influenciaram na vida da população.

No ambiente rural, realizou a Primeira Reforma Agrária do Brasil, no Banhado do Colégio, em Camaquã. Na indústria, construiu a Aços Finos Piratini e a Refinaria Alberto Pasqualini (Refap).

Na infraestrutura, moldou a estrada que liga o Porto de Rio Grande ao resto do Estado (BR-392).

Nas finanças, também tomou decisões importantes: criou a Caixa Econômica Estadual e, por sua iniciativa, articulou com Paraná e Santa Catarina para a fundação do Banco Regional de Desenvolvimento Econômico (BRDE), além de estatizar as ineficientes empresas estrangeiras ITT (telefonia) e Bond and Share (eletricidade), criando a CRT e a CEEE.

Apesar de tantos feitos em outras áreas, a educação era a grande prioridade de Brizola. Na década de 1960, fez uma de suas mais importantes declarações: “A educação é o único caminho para emancipar o homem. Desenvolvimento sem educação é criação de riquezas apenas para alguns privilegiados”. Como ação concreta, fez construções simples, como casas populares, as chamadas brizoletas. Abriu 6.300 escolas de 1o e 2o graus assegurando a escolarização de todas as crianças. Sob seu governo, o RS teve a maior taxa de escolarização do Brasil.

A LUTA PELO BRASIL

Seu compromisso com a democracia também foi renovado. No terceiro ano de seu mandato, foi o líder de um dos maiores movimentos em prol da democracia da história. Em 1961, comandou a Campanha da Legalidade, que, com apoio do III Exército, da Brigada Militar e de grande parcela do povo gaúcho, garantiu a posse do vice-presidente João Goulart, seu cunhado, como presidente do Brasil, após a renúncia de Jânio Quadros. A ação de Brizola evitou um golpe militar, mesmo tendo apoio dos EUA.

Essa ação lhe deu notoriedade nacional. Era hora de sair do RS. Brizola transferiu-se para o Estado da Guanabara (hoje, Rio de Janeiro) e, em 1962, foi eleito deputado federal.
Com o golpe militar de 1964, que depôs João Goulart, Brizola foi cassado e caçado. Precisou exilar-se no Uruguai, onde viveu da pecuária até 1977.

Com o Exército no comando também do país vizinho e após as mortes de outros líderes políticos brasileiros como Juscelino Kubitschek e o próprio João Goulart, ele percebeu que não estava em segurança. Com Jimmy Carter na presidência dos EUA, parte da relação dos norte-americanos com os latino-americanos mudou, e Leonel, Neusa e os filhos foram para Nova York. Depois, transferiram-se para Portugal. Retornando ao Brasil na última leva de anistiados, em 1979.

A VOLTA DE BRIZOLA E A FUNDAÇÃO DO PDT

Em sua volta, tentou retomar o PTB, mas foi impedido pelos militares que entregam a sigla para uma aliada. A solução foi juntar outros trabalhistas recém retornados do exílio, e fundar o Partido Democrático Trabalhista (PDT). Sob a nova bandeira, permaneceu no Rio e mostrou a força que ainda detinha em terras cariocas, sendo eleito governador em 1983. Foi o primeiro – e até hoje único – brasileiro a ser governador de mais de um Estado.

No Rio, foram centenas de atos assinados por Leonel. Urbanizou e humanizou as favelas, levando água, eletricidade, postos de saúde e tratamento digno, inclusive policial, aos moradores, acabando com a prática de remoções e despejos, violência e assassinatos. Tratou com rigor os crimes ambientais, aplicando multas severas nos poluidores e conseguindo devolver à população a Lagoa Rodrigo de Freitas.

Reduziu o desemprego, absorvendo a mão-de-obra local nas obras de infraestrutura e estimulando as pequenas e médias empresas. Criou o programa Cada Família um Lote, legalizando milhares de lotes. Assentou 11.321 famílias de trabalhadores rurais Sem-Terra. Montou a delegacia da mulher, acabou com os esquadrões da morte, humanizou o sistema penitenciário. Para acabar com as suspeitas de superfaturamento e corrupção que pairavam sobre o Carnaval, construiu o Sambódromo, pago com os recursos da própria folia, e que, ao longo ano, funcionava como um CIEP.

DESTINO: UM OUTRO BRASIL

Foi nessa época que subi naquele caminhão e percorri as estradas de Pelotas até o Rio. Lá, ninguém me contou, eu vi como funcionava um CIEP: erguidas próximas às comunidades mais carentes, as escolas de tempo integral permitiam que as crianças entrassem às 8h e saíssem às 17h, com banho tomado, três refeições diárias e direito a atendimento médico e odontológico, acesso a piscinas, áreas de esporte, lazer, música, dança, teatro e artesanato.

Alunos desabrigados podiam morar na escola, acompanhados por um casal tutor. A estrutura era aberta para festas e reuniões da comunidade. E isso não se resumia a um colégio: em quatro anos, Brizola criou 508 CIEPs.

Em seu segundo mandato (entre 1991 e 1994) como governador do Rio, fundou ainda a Universidade Estadual do Norte Fluminense.

O ÚLTIMO GESTO POLÍTICO DE BRIZOLA

Brizola concorreu à presidência em 1989, ficando em terceiro lugar. Menos de 1% dos votos o impediram de chegar ao segundo turno. Voltaria a pleitear o cargo em 1994 e, como vice, em 1998. Na eleição de 2002, criou a Frente Trabalhista (com PDT, PPS e PTB) e abriu mão de ser candidato para indicar Ciro Gomes, então no PPS. Foi a transferência do fio da história trabalhista e também seu último ato político.

Em 21 de junho de 2004, seu coração não resistiu a um infarto. Mais de 1 milhão de brasileiros participaram de seus atos fúnebres nas cerimônias divididas entre Rio de Janeiro, Porto Alegre e São Borja, onde foi sepultado ao lado de Neusa, João Goulart e Getúlio.

O LEGADO DE UM HERÓI

Herdeira do trabalhismo de Vargas e João Goulart, a doutrina social, embora não tenha sido a que sonhou mais alto, foi a que mais entregou benefícios ao povo brasileiro. Vieram dela a Consolidação das Leis do Trabalho, a legislação previdenciária, o voto das mulheres, a indústria de base que possibilitou a formação do Brasil industrial e, a partir dele, a criação de milhares de empregos com salários mais dignos.

Ao comemorarmos, em 22 de janeiro de 2022, os 100 anos de nascimento de Leonel de Moura Brizola, exaltamos a prova de que a política pode ser o lugar da ação proba, digna e coerente em favor dos que mais precisam, o lugar onde o interesse público se sobreponha a todos os demais interesses, inclusive aos familiares e pessoais.

Depois de 60 anos de vida pública, atravessando 15 anos de exílio, ninguém – nem os golpistas militares e civis de 1964, que vasculharam sua vida – jamais apontou um ato de corrupção ou improbidade em seus governos. Leonel de Moura Brizola é a personificação perfeita do título que recebeu em 2015: herói da pátria brasileira.

* Marcus Cunha é formado em história e direito, é mestre em filosofia, advogado e presidente do PDT de Pelotas/RS.