Indústria nacional e a ciência brasileira: lições da Covid-19


Por Pedro Trés

O processo de desindustrialização brasileira começou nos anos 1980, o que para muitos economistas liberais não seria um problema, pois a demanda por industrializados poderia ser suprida por importações e financiada pela exportação de commodities em detrimento da indústria nacional, que passou a ser crônica e sistematicamente prejudicada, dentre outros fatores, pela política cambial neoliberal e pelos juros altíssimos praticados no país. Há décadas o país não sabe o que é uma política industrial verdadeiramente brasileira.

Hoje, durante uma pandemia em que o mundo inteiro busca os mesmos produtos, em especial ventiladores pulmonares e testes laboratoriais, escancarou-se que abrir mão da indústria nacional e da tecnologia significa se colocar em uma posição extremamente vulnerável e dependente de outros países, já que não somos capazes de produzirmos, nacionalmente, os produtos necessários para atender às demandas do nosso povo.

A escassez de respiradores, máscaras, EPIs e testes no mercado mundial exige dos Estados nacionais alta coordenação para que esta demanda seja suprida internamente via reconversão industrial e inovação tecnológica, algo que o governo federal brasileiro sequer cogitou até esta data – ainda que haja ampla capacidade instalada parada há vários anos, consequência da sucessão de más escolhas tomadas por nosso país.

Apesar da omissão do governo federal no gerenciamento desta crise e do descaso crônico com a ciência nacional, engenheiros da Poli/USP foram capazes de produzir o Inspire: um ventilador pulmonar de baixo custo. O equipamento pode ser produzido em até duas horas, tem custo de mil reais, já passou por diversos testes e segue para autorização da Anvisa para ser fabricado por empresas. E mais: só usa insumos produzidos no país e encontrados no mercado nacional.

Ou seja: graças à ciência nacional, ainda gravemente subfinanciada, fomos capazes de apresentar uma solução doméstica para o cenário crítico que só faz agravar, e estamos a poucos passos de produzi-la industrialmente. Essa é mais uma das incontáveis provas do nosso potencial industrial e de inovação. Até quando vamos desperdiçá-lo?

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