Onde estava a Hyundai na década de 1990?


Por Michel Francisco da Silva

Em 1992, um garoto estava em frente a uma TV Philips (marca de origem européia). Ele assistia a um programa de auditório. O garoto se lembra bem de ouvir o apresentador anunciar entre os prêmios “um automóvel importado Hyundai”.

Ao ouvir essa frase, pensava que aquela marca desconhecida foi escolhida como prêmio por ser mais barata. No ano seguinte, 1993, começariam a surgir nas ruas alguns automóveis curiosos. Pareciam pequenos ônibus, de uma tal de KIA. A moda era fazer piada com o nome (Besta, literalmente).

Mais alguns anos depois, sua professora de Geografia passaria várias aulas falando sobre uns tais “Tigres Asiáticos”. Um grupo de países que haviam alcançado crescimento econômico através, principalmente, do aumento das exportações.

Ok. Mas o que tem a ver a Hyundai com os Tigres Asiáticos?

O garoto que assistia à sua TV Philips, que criticava mentalmente o prêmio e que fazia piada com o nome dos carrinhos da KIA só enxergaria e testemunharia inúmeros outros efeitos dessa relação já na vida adulta.

“Vamos ter clareza”: dentre os Tigres Asiáticos está a Coreia do Sul. Esse é o país de origem da Hyundai e da Kia. E não para por aí. A Philips, marca holandesa da antiga TV do garoto, perdeu bastante espaço para a Samsung e LG, ambas sul-coreanas.

A Samsung disputa a ponta do mercado de celulares e tablets palmo a palmo com a Apple dos Estados Unidos. Basicamente, um monte de indústrias desconhecidas, oriundas de um país até então subdesenvolvido, tomou uma grande fatia do mercado mundial em menos de trinta anos.

Como consequência direta, houve um enorme salto no PIB deste país. O gráfico abaixo ilustra exatamente isso.


Figura 1 – Série histórica do PIB trimestral da Coréia do Sul em bilhões de dólares. Fonte : https://www.ceicdata.com/pt/indicator/korea/nominal-gdp. Acesso em 10 de junho de 2021, às 22:37.

A mentira da desregulação e diminuição do Estado.

A pergunta-chave é: como eles conseguiram isso?

Já sei!!! Reduziram o Estado o quanto possível, desregulamentaram a economia, acabaram com todos os incentivos e subsídios e abriram as portas do país para a importação indiscriminadamente. Certo?!?

ERRADO!!!

Ocorreu exatamente o contrário, o Estado assumiu o papel central de investir em infraestrutura e em formação de mão de obra altamente qualificada, dentre outras coisas. Adotaram o modelo de economia orientada à exportação.

Além do salto extraordinário do PIB da casa do US$ 70 bilhões para a casa do US$ 450 bilhões trimestrais, no último trimestre de 2020 esse país, longe da linha equador e com pouco mais de 100.000 km², produziu algo próximo de US$ 17 bilhões fora de suas fronteiras. Em três meses!!! Em outras palavras, suas empresas já operam no exterior. Inclusive a Hyundai tem uma fábrica em Piracicaba/SP.

E o povo do país?

“Repare bem”, como Ciro Gomes costuma dizer: o povo não compra dólar, mas come pão; pão é do trigo e trigo se compra em dólar. Então, como consequência direta da redução da dependência de importações e da entrada de divisas (dinheiro, grosso modo) advindas das exportações, os índices de desenvolvimento humano também melhoraram substancialmente.

Deveras, a primeira consequência óbvia desse desenvolvimento das empresas sul-coreanas é a geração de empregos. Mas não foi uma geração de empregos qualquer. Surgiram vagas em setores de alta complexidade, produtores de bens e serviços com alto grau de agregação de valor.

Além disso, as tecnologias de conteúdo próprio permitem ao país afirmar sua soberania (poder de determinação do próprio destino, basicamente), ajudando a coibir a interferência estrangeira em assuntos internos.

Em 2019 a Coreia do Sul ficou em 23º no ranking mundial do IDH (Índice de Desenvolvimento Humano), o Brasil ocupou a 84ª posição.

Então, caro leitor ou leitora, se um país menor que a maioria dos nossos estados conseguiu isso tudo em trinta anos, nós também podemos conseguir.

Basta parar de esperar um milagre individualista e colocar à frente da nação alguém comprometido com um projeto de país em que o Estado assume seu papel fundamental.

Atualmente, o único nome à altura desse desafio e que já apresentou seu projeto é Ciro Gomes. Você está convidada ou convidado a vir conosco nessa jornada.