O governo do Rio de Janeiro, as palavras ao vento e a sanha privatista


Por Ricardo Heredia

No final de março, com o início da crise do coronavírus, era comum ligar a TV aqui no Rio de Janeiro e ouvir frases fortes do governador Wilson Witzel sobre a possibilidade de uma expansão da propagação da Covid-19. Frases como “Se não houver isolamento, todos perderemos entes queridos.” até palavras de ordem como “Daqui a pouco vamos ter que começar a levar para a delegacia. Até então foi um pedido, agora estou dando uma ordem: não saia de casa.”.
Os mais diversos setores endossaram o tom, principalmente por contrapor as posições desconexas da realidade que vinham do presidente da República.
Já foram 6 semanas desde então, e, de fato, o que vemos?

Ontem, 7 de maio, foi um dia emblemático dessa crise para o Rio, pois tivemos mais óbitos do que SP. Tratando-se apenas da capital, a situação é crítica: o Rio de Janeiro teve ontem mais mortos do que o pior dia da capital paulista. É justo dizer que, como cidade, o Rio aparenta estar se tornando o novo epicentro da doença no país. E nesse cenário, o que aparece com relação ao governo do estado é um escândalo de um ex-subsecretário sendo preso por suspeita de fraudes, superfaturando a compra de respiradores e construções de hospitais de campanha, além de um contrato milionário para fazer a gestão do SAMU, antes feita pelos bombeiros. A fraude beira 1 bilhão de reais. Respiradores que na época eram vendidos no mercado por 70 mil a unidade, foram comprados por 170 mil. E isso ocorreu depois de uma exoneração de uma subsecretaria que pediu o chapéu justamente por discordar desses contratos. Como não suspeitar de uma situação dessas?

Além disso, vemos atrasos na entrega de hospitais de campanha por parte do Estado, em regiões que o sistema de saúde basicamente já colapsou. E o que dizer da vacilação que ele demonstra para decretar o “lockdown” depois de tudo que disse lá atrás?

Nessa quarentena estou tendo o hábito de ver um pouco daqueles telejornais locais que passam na hora do almoço. Hoje, nos comentários, me deparei com um discurso sobre a eficiência da iniciativa privada na entrega dos hospitais de campanha, enquanto o Estado do Rio de Janeiro os atrasa e gasta dinheiro com bobagens, como jardinagem. Não pude deixar de lembrar o quanto o governador usa da crise para justificar privatizações. Usou a crise para acelerar a privatização da Cedae, com a justificativa de fazer caixa e propôs na calada da noite, enquanto todos estão com a atenção na situação da Covid-19, um projeto para privatizar as universidades estaduais. Até que ponto esse discurso de deixar para a iniciativa privada lidar com essas situações e a entrada desse tipo de discurso na casa do nosso povo não está relacionada à sanha privatista defendida pelo governador?

Aparentemente a valentia do governador era mera retórica e, parafraseando Ciro Gomes, o senhor à qual ele serve não é o povo do nosso Rio.

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