Fernando Haddad, um “especialista sem espírito” e sua visão de país


Texto de: Bia Silva

Conhecimento aguçado e localizado, talento reconhecido em sua área de atuação, ponderação, diálogo pautado pela razoabilidade ao lidar com visões diferentes. Um senso crítico que, no entanto, não chega a incidir sobre sua própria ação até aqui.

Um republicanismo a manter, mesmo que seja a qualquer custo, mesmo diante da necessidade de fazer os enfrentamentos necessários para o país mudar. Um charme crítico que, contudo, repete pressupostos de um pensamento conservador sobre cultura e classes sociais no Brasil.

Fernando Haddad, um prodígio político, um bom prefeito, um talento em liderança e políticas públicas aprendidos nos ambientes universitários paulistas e seus manuais de gestão. Uma possibilidade – ceifada por seu próprio partido – de ser o deputado federal mais votado do país ou de ser um importante senador paulista.

A incapacidade de reagir diante da conduta jornalística mais sórdida, e que mesmo assim espera ter capacidade de reagir em um futuro governo a seus opositores, mais sórdidos ainda. Um futuro brilhante para um futuro líder que aceitou ter, como ápice político que entrará para seu currículo, a tutela irrestrita de outro líder sobre si e suas ações.

Uma relação instrumental mas altruísta, de ser meio de fruição de “uma ideia”, sem ser a fonte ou o autor das próprias ideias. E um possível debate com algumas ideias excelentes que chegaram a si copiadas de um outro candidato a quem seu partido foi incapaz de dar apoio.

É lamentável constatar que Haddad vem desempenhando o tipo ideal do verdadeiro especialista sem espírito.

O pensamento liberal conservador de Fernando Haddad já foi mencionado antes. Sua forma de enxergar, que impede uma visão verdadeiramente emancipadora sobre a sociedade brasileira, foi mencionada nas reflexões do livro “A elite do atraso – da escravidão à lava jato”, de autoria de Jessé Souza (2015).

No livro, Souza demonstra como mesmo um representante de uma fração crítica e à esquerda como Haddad também pensa o Brasil a partir de noções que se desdobram em ações públicas e institucionais limitadoras. Segundo ele  (p. 188):

“Mas, infelizmente, essa leitura conservadora da sociedade brasileira não é privilégio das frações conservadoras e liberais da classe média. Ela atinge também a fração crítica dessa mesma classe. Até mesmo um refinado e sofisticado intelectual como o ex-prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, defende posições muito próximas do ministro Barroso e do procurador Dallagnol.”

Souza cita, então, a interpretação feita por Haddad a partir da noção de “patrimonialismo” sobre seu governo na cidade de São Paulo e sobre as dificuldades que enfrentou – já como ex-prefeito, Haddad divulgou aqui uma reportagem com um balanço sobre sua passagem pela prefeitura. E o que haveria de limitador ou nocivo nessa forma de interpretar a sociedade brasileira?

O conceito de patrimonialismo tem sido usado há décadas para tentar dizer a nós, brasileiros, que haveria uma singularidade no país que nos impede de crescer, uma espécie de mal de origem, uma natureza impeditiva: nosso Estado é corrupto e nele as relações políticas são norteadas por questões pessoais e de afeto entre os ocupantes do poder e seus núcleos, enquanto o mercado seria virtuoso, racional e merecedor de maior confiança.

Como Souza tem demonstrado, essa visão é a semente do viralatismo brasileiro e se alastrou de tal modo que atinge as universidades e o pensamento social da população em geral, que crê haver um “jeitinho brasileiro” ou que o “brasileiro é difícil” – crendo em uma espécie de desonestidade intrínseca entre os brasileiros. Segundo Souza (p. 135), esse pensamento, bastante baseado no livro “Raízes do Brasil” está até mesmo em conhecidos partidos políticos que julgamos ser diferentes mas que têm pontos ideológicos em comum:

É do livro clássico de Sérgio Buarque, Raízes do Brasil, que o PSDB, o partido orgânico das elites paulistanas, hoje associado ao rentismo, retira todo o seu ideário e seu programa partidário. Ao mesmo tempo, a sala nobre da fundação Perseu Abramo, do PT, tem também seu nome. Maior símbolo da colonização da esquerda pelo liberalismo conservador da elite conservadora parece-me impossível.”

Há muitos pressupostos na visão de Haddad e de especialistas sem espírito como ele que nos fazem chegar a uma conclusão: suas ações para o país não conseguem mais responder e solucionar os problemas atuais.

***E como essa forma de pensar se desdobra em ações políticas nocivas ou limitadoras? Uma breve consideração sobre isso estará ao fim do texto.

O aprendizado coletivo que tivemos pede outra visão. Parte da classe média intelectualizada quer investir num “charminho crítico” contra o golpeachment e pensa em votar em Haddad – nele próprio, que suaviza o golpe. Para eles, Ciro Gomes não seria confiável ou seria passional demais. Isso está nas entranhas de um culturalismo conservador, que aceita apenas os frequentadores de seus próprios círculos intelectuais ou políticos para ocupar as posições de poder.

Que momento é esse em que a sociedade indignada aceita como liderança apenas aqueles que rezarem a cartilha das hierarquias simbólicas da intelligentsia ou dos pais da política do sudeste brasileiro?

Apostar em um especialista sem espírito como o que Fernando Haddad vem sendo é negar durante mais um ciclo histórico uma visão verdadeiramente emancipadora do Brasil, que entenda mercado e Estado como instâncias não opostas, ambas providas de vícios e de virtudes. Apostar em Haddad é postergar por mais um ciclo histórico o surgimento de uma nova visão sobre a cultura nacional e sobre as profundas causas da reprodução simbólica da dominação (e não apenas de sua reprodução econômica).

Em 2002, o pensamento político progressista e o senso prático e pré-reflexivo de todos aqueles que esperavam ver uma melhora no Brasil reconheceram no PT a melhor oportunidade, e assim foi desde então, até o fim de um ciclo histórico. Hoje em dia, uma visão de país e uma forma de agir que permite lidar com os problemas que enfrentamos não estão nas mesmas mãos. Estão com Ciro Gomes! O Brasil precisa se dar uma chance de entrar em um novo ciclo histórico.

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De modo geral, é possível dizer que, enquanto estiverem pautados por essa visão, políticos como Fernando Haddad não conseguem enxergar as verdadeiras formas modernas de dominação social para além de uma visão economicista simplificadora. Como então poderiam enfrentar a dominação e a desigualdade em suas causas?

Mesmo medidas exitosas como o Bolsa Família, o aumento do microcrédito, a dinamização do mercado interno são claramente insuficientes, porque não foram institucionalizadas como ações de um Estado, porque não foram acompanhadas de um incentivo não apenas ao consumo mas também à produção de mercadorias aqui e porque não tocam num problema central da dominação: o conflito distributivo do orçamento brasileiro, cuja maior parte é destinado a apenas um grande tipo de despesa, as despesas financeiras, e não o orçamento voltado para a própria população.

Esses são exemplos de como se desdobram em ações políticas limitadas uma visão social e cultural infelizmente limitada. Há ainda um outro exemplo: a separação entre Estado e mercado que rege a mentalidade de especialistas sem espírito como Fernando Haddad criou as condições de fortalecimento de um campo jurídico-político, com base na ilusão de que tanto o MP quanto o judiciário se norteariam apenas por uma conduta técnica. Com a visão de que, ao contrário dos políticos, no judiciário e no MP reinariam as virtudes técnicas,  os governos petistas infelizmente ajudaram a criar um ambiente punitivista, com efeitos e perseguições que inclusives eles próprios vêm sofrendo.

Com a visão de um mercado virtuoso também foram aumentadas as desonerações e as renúncias fiscais, na ilusão de que o mercado e as empresas repassariam para a população a diminuição de seus custos. Com esse passo errante, o governo se eximiu da tarefa realizar uma reforma tributária que poderia ter melhorado a capacidade produtiva brasileira e poderia ter tirado das costas da população mais pobre e das classes médias o peso dos impostos.

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