Fernando Haddad, a Frente Progressista Independente e a estratégia do hegemonismo petista


Texto enviado por Lucas Emanoel Soares Meira, de Cajamar – SP.

A semana foi agitada para Fernando Haddad, ex-prefeito de São Paulo.

Primeiro foi convidado, segundo noticiado pela Folha de São Paulo, pelo ex-ministro das Finanças da Grécia, Yanis Varoufakis, para participar de uma “coalizão internacional progressista”, idealizada por Bernie Sanders, senador estado-unidense e ex-pré-candidato democrata à Casa Branca. O fato foi vastamente comemorado por correligionários do petista.

Em seguida, ou concomitantemente, participou de um encontro com que reuniu somente membros da bancada de seu partido, o PT, na Câmara dos Deputados, no qual, segundo coluna da Folha de São Paulo, teria dito que uma frente parlamentar formada sem a presença do PT “ou é miopia ou não é tão de esquerda assim”. No mesmo evento, segundo matéria noticiada pela revista Época, teria tecido críticas ao ex-candidato a presidência Ciro Gomes (PDT), “por não ter se aproximado de Lula” e que a razão do até anteontem amigo e aliado não “sair dos 12% é essa: a falta e uma identidade clara”.

Estas movimentações isoladas dão a aparência apenas de um rescaldo destas eleições, decididas por três eventos traumáticos, que não foram nem o dia 07 nem o dia 28 de outubro. Contudo o que se percebe é o fecho de uma narrativa que vem sendo construída com esmero desde antes do fatídico fim da campanha eleitoral de 2018. Refiro-me, claro, a promoção de Fernando Haddad ao posto de herói da democracia e herdeiro do lulismo 2.0, uma versão ilustrada e acadêmica.

Até 6 anos atrás um obscuro tecnocrata partidário, que exerceu a função de Ministro da Educação sob mando dos ex-presidentes Lula e Dilma e saiu para candidatar-se ao seu primeiro cargo eletivo como prefeito de São Paulo, posto que deixou com uma fragorosa derrota em 2016, Haddad mostra a que veio ao abandonar o tom conciliador do segundo turno e adotar a postura que tem dominado o PT desde 1989, com especial agudeza nos anos da Era Lula e Dilma.

Nos últimos tempos, datando com melhor precisão a partir do pleito de 2014, essa luta do petismo para manter a soberania do campo de esquerda se dá por uma estratégia de guerrilha cibernética.

Primeiro, um discurso oficial, que é o que aparece nos jornais acessados pela classe média, dá conta de encontros entre líderes, negociações por apoio e formação de uma frente única.

Essa fase é marcada pelo tom conciliador, com entrevistas cordatas e polidas, cheias de meios elogios e críticas veladas a qualquer agente político, individual ou partidário, que não esteja alinhado ao projeto petista de poder.

Enquanto isso, no subsolo da blogosfera petista, acessada em sua maioria por simpatizantes e eleitores da esquerda, tenta-se minar qualquer candidatura que ouse propor uma alternativa ao modo petista de operar a política.

Por fim, quando todas as pontes estão calcinadas, faz-se um pronunciamento oficial dizendo que todos os esforços foram em vão e que o egocentrismo do “companheiro” foi maior que o amor pela “democracia”, pelo “país”, pelas “conquistas sociais” ou o que estiver na moda do então.

Essa estratégia, como toda aquela que dá certo, tem seu que de esperteza e matreirice. Na linha da imprensa tradicional, acessada pela classe média, noticia-se uma articulação entre os partidos de esquerda, o que é interpretado pelos simpatizantes desse campo como “o PT está organizando suas alianças” e por aqueles que têm ojeriza ao PT como “os partidos estão se aliando ao maldito PT”. Ou seja, para o PT o saldo é positivo, pois aqueles que tenderiam a votar nele continuam com a intenção e aqueles que não votariam deixam de olhar para outras candidaturas progressistas que possam surgir. A segunda parte, engendrada na blogosfera, tem por missão ajustar os antolhos do eleitorado cativo, para só enxergar a candidatura do PT como válida. A última etapa sedimenta a narrativa e enfeixa as duas frentes de ação: as outras candidaturas são vendidas, tanto na mídia simpática quanto na tradicional, como projetos particulares e desengonçados de poder.

No caso de 2014, a trágica morte de Eduardo Campos, inflou a candidatura de Marina Silva e obrigou o PT a perder certos pudores com a ex-correligionária, afinal a estratégia tinha sido montada para o neto de Miguel Arraes, não para ela, e, portanto, exigiu ajustes e medidas drásticas.
O fim nós já conhecemos.

Voltando a 2018.
A mesma estratégia foi seguida com relação a Ciro Gomes: primeiro existiram acenos de alianças, encontros de lideranças para uma frente única, mentiras da blogosfera e por fim, o discurso de vítima do “egocentrismo”.

As falas de Haddad e do PT seguem, portanto, uma lógica peculiar e um plano estabelecido desde antes da prisão do ex-presidente Lula, em 07 de abril do corrente ano, a saber, usar o imenso capital político do histórico líder nacional para eleger deputados e senadores e, se possível, eleger Haddad como Presidente da República, sendo que no caso contrário (o que era mais provável) usariam o capital político acumulado nas eleições para encabeçar uma oposição do quanto pior melhor, acentuando a crise política que incendeia o país há 5 anos, e voltando triunfante e nos braços do povo em 2022. Quem não aderir, deverá ser tachado como alinhado ao ex-capitão e presidente eleito, Jair Bolsonaro, sendo, portanto, inimigo da democracia e dos direitos sociais.
Faltou, porém, combinar com os russos.

O PT elegeu, de fato, a maior bancada da câmara, com 56 deputados, mas houve um recuo dos 70 eleitos em 2014 e dos 88 em 2010. Ainda: com as trocas partidárias, existe a possibilidade de ser ultrapassada pela bancada do PSL, que elegeu 52 deputados (em 2014 foi 1, mesmo número de 2010). No Senado o cenário de enfraquecimento é maior: dos 14 integrantes da bancada no Senado pós-2010, o PT passou a contar com 12 senadores na legislatura de 2014, e em 2018 chega reduzido a 6 representantes. Ou seja, não obstante os resultados relativos do pleito de 2018, o PT saiu bastante constrangido do ponto de vista eleitoral, acentuando sua perda de contato com o eleitor desde 2010, com o fim do governo Lula.

Paralelamente a isto, os demais partidos do campo progressista, a saber, PCdoB-PDT-PSB, decidiram, menos de 72 horas depois do fechamento das urnas do segundo turno, por uma atuação conjunta, num bloco que contará, por enquanto, com 69 deputados, 13 a mais que o PT. No Senado, negociações no mesmo sentido têm sido feitas e a formação de um bloco composto por PDT-PPS-PSB-Rede somaria um total de 12 nomes, o dobro da bancada petista.

Em ambos os casos o lema é: “nem aderência automática, nem oposição sistemática”. Com isso os partidos intentam fomentar um ambiente aberto a negociação, o que será extremamente necessário dada a agenda antipovo que já está posta em ação, mas sem obstruir as pautas extremamente urgentes para o país, atuando de maneira propositiva ou combativa, dependendo da ocasião.

Também é importante salientar que a formação dessas frentes não impede a aderência de nenhum partido que se identifique com a base norteadora. O que não se aceitará é a imposição de uma liderança, o que o PT intentava fazer imediatamente depois da derrota no segundo turno e agora nega despudoradamente.

Justamente por conta desses senões é que Haddad deixou de lado sua fala mansa e passou ao ataque explícito.
É interessante notar, contudo, que a crítica aos erros do Ciro, que existem, posta sua natureza humana, antecedem a autocrítica que nunca virá do PT, cuja postura arrogante agora encarna em Fernando Haddad. Ao falar que Ciro não tem identidade, Haddad aparentemente esquece se que ele mesmo é Lula, ou era, pois agora está mais para Gleisi Hoffmann, com suas falas atabalhoadas.

Esquece-se também que durante a escalada do Golpe Parlamentar de 2016, Ciro arregaçou as mangas e deu nome aos bois, enquanto Haddad, com seus punhos de renda e luvas de pelica, amenizava o processo de impeachment. O ex-prefeito parece não saber também que sua tergiversação no segundo turno causou espécie inclusive em apoiadores históricos do PT e que Ciro peitou a imprensa em prol de Lula, enquanto que ele mesmo mantinha o pó de arroz em dia. Logo, quem está muito mais próximo das máscaras é Haddad, não Ciro.

Com relação à declaração sobre a frente parlamentar sem o PT, a arrogância petista não tardou em ser rechaçada pelo líder do PCdoB na Câmara, Orlando Silva, em sua conta no Twitter, provando, mais uma vez, que não será fácil para Haddad e o PT voltarem aos áureos tempos do senta e obedece.

Quanto ao encontro marcado para o dia 1º de dezembro na terra do Tio Sam, fico a pensar em quanto nosso jogo político está sendo pautado pelo que acontece ao norte do Rio Bravo: nossa extrema direita prostrada ao trumpismo e o pretenso e autoproclamado líder da esquerda soltando fogos por estar sendo convidado a compor um time contra a escalada de governos “nacionalistas” (?), visto que aqui, na política nacional, ele não parece estar grassando muitos louros. Não sei o porquê, mas lembrei do The Elders, grupo fundado em 2007 por Mandela, com o objetivo de reunir ex-chefes de estado com propostas de soluções para problemas como fome, mudanças climáticas, guerras etc… Uma agremiação muito ilustre e, sem dúvida, de intenções salutares para o diálogo internacional.

Embora o representante brasileiro do The Elders seja o ex-presidente FHC e não Lula, creio que FH sem C estará à vontade. Na falta de uma frente nacional a ele submissa, achou um clube internacional para chamar de seu.

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