Estamos vivendo a história


Texto de: Ana Carolina Iquiene de Souza

Sabe aquela história, de quando somos crianças e pensamos “como é que essa geração foi deixar algo assim acontecer”? Pois é, nós estamos vivendo essa história, ou ao menos em eminência de vivê-la. Mostro como: Eu, particularmente, sempre tive a teoria de que tragicamente uma geração precisa de uma ruptura, é necessário que algo realmente importante aconteça para percebermos que estamos na contramão da direção correta. Acontece sempre: escravidão, ditaduras, holocausto, eleger o Bush presidente e reelege-lo; sempre um fato exatamente forte para que o todo note que esse simplesmente não pode ser o caminho certo, todos (ao menos uma maioria) são tomados por uma comoção buscando o oposto, ou distante o suficiente do que se tinha antes.

Entretanto, 30 ou 40 anos depois do fato, a comoção passa, e lá estamos nós repetindo as mesmas histórias macabras mudando apenas as linhas com as quais ela será escrita. Esse ano a constituição cidadã de 1988 completa os gloriosos 30 anos de uma constituição tão democrática e humanitária quanto o possível para a comoção (correta, por sinal) que se havia na época após o rompimento com o regime militar.

Eis então que esse é o momento de percebermos que já estamos na história. Seja você uma pessoa de vertentes políticas de esquerda ou direita tornou-se claro a essa altura que os ocorridos após a eleição de 2014, e precisamente após o impeachment da presidenta Dilma Rousseff tinham uma veia mais política e planejada cuidadosamente do que parte da população acreditava à época. Após a eleição de 2014, com a reeleição da presidenta Dilma Rousseff, Aécio Neves usa um nível de birra ao qual não o cabia desde os seus 8 anos de idade e chama o povo para rua, que não surpreendentemente, vai.

Nesse ponto nós temos camisetas da CBF desfilando pela rua, junto a promessa de simplesmente não aceitar a derrota nas urnas. E não aceitaram; levou dois anos, mas o “grande acordo” se concretizou com o impeachment da presidenta eleita. Engana-se quem pensava que por pedaladas fiscais, neste capítulo da história em que estamos não dá mais para esconder que você foi manipulado.

A “direita já” não aconteceu, os escândalos do até então anjo salvador (Aécio Neves) vieram a tona, e para surpresa dos manifestantes pós-eleição que esqueceram por um momento de se aterem à constituição, após impeachment quem assumia o cargo de presidente da República seria o vice decorativo; mas não se preocupem, ele também era parte do grande acordo nacional, trazendo com ele reforma e vendendo petróleo brasileiro.

A Lava Jato nesse meio tempo está a todo vapor! Bom, pelo menos para um lado; Lula é exposto, investigado, passa pelo luto de sua esposa; tudo isso enquanto o juiz que tem seu caso em mãos ganha visibilidade, concede fotos e entrevistas, e consequentemente ganha à fama de justiceiro. Mas não tenham pressa, esse ainda não é o nosso “herói”, outra figura surge nesse meio tempo, alguém que esteve quieto por 26 anos no congresso como deputado, e de repente, em meio à memes do Facebook começa a ser levado a sério (eu também não pude acreditar). Mas o que será que ele quer? Depois de tantos anos, sem nunca ter administrado nada, sem nunca ter concorrido a outros cargos, em meio a uma comemoração do dia da ditadura e um momento de continência a bandeira dos Estados Unidos da América, porque ele decidiria que seu próximo objetivo seria governar o Brasil? Para mim, é no mínimo curioso e perigoso, mas é aqui que surge o “mito”.

Foi dolorido até aqui? Mas agora já estamos em abril de 2018, cerca de 4 meses antes do registro oficial das candidaturas à presidência, Lula está em primeiro lugar em todos os cenários, ganhando tanto no primeiro, quanto no segundo turno, é réu, acaba de ser condenado em segunda instância, resolve pedir um habeas corpus preventivo ao STF, que é negado; o justiceiro não perdeu tempo, e lá estava Lula, com o processo mais rápido a chegar à segunda instância, com o mandado de prisão dentre os mais rápidos a serem expedidos comparado aos réus da Lava Jato que estavam soltos ( qual a finalidade dessa corrida para sua prisão?), com data e hora para que se entregue. E ele se entregou, mas não como a história pretendia marcar essa prisão, ele se entregou sendo levado pelos braços do povo.

Agora, particularmente, tenho elogios e críticas ao Lula e ao PT, mas certamente nada disso pode deixar com que você se cegue e não consiga ligar um fato contado ao outro nessa linha tempo.

Estamos por fim em meados de abril de 2018, vos lembro de que 30 anos, historicamente falando, é ontem, e embora para mim tenha sido frustrante, eu compreendo a revolta dos manifestantes pós-eleição, sei o que é querer o melhor para o Brasil, porém, qual a história que faremos em outubro? Se até o judiciário está correndo contra o tempo, então não há tempo para bater panela pela causa errada.

Dependendo da sua resposta, daqui a alguns anos, talvez seu filho tenha a chance de ser perguntar como é que deixamos tudo isso acontecer, sem nem tentar resolver quando tivemos a chance.

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