Eleições de 2018 e a discussão de pautas sensíveis


Texto de: Gabriel Valentim

Desde que o mundo é mundo, a Igreja Católica existe e exerce influência sobre os mais variados setores da sociedade. Aqui no Brasil, isso se dá também com a presença das Igrejas Protestantes, as quais na forma de Neopentecostais ganharam muita força nas últimas décadas.

Em países desenvolvidos, e no Brasil de alguns anos para cá, tornou bastante intenso os debates a respeito de vários tabus que compõem as sociedades modernas, tais quais o aborto, regulamentação de substâncias que de alguma forma alguma tem seu consumo e produção ilegais e outros mais que afrontam, de alguma maneira, as tradições e costumes do povo. Invariavelmente, essas instituições acima citadas se posicionam contra qualquer tentativa de flexibilizar legislação que discorre a respeito de tal e acabam por impedir qualquer tentativa de debate racional a respeito dos temas.

Não raras vezes, a Igreja, por meio da coerção ou mesmo da imposição de dogmas e interpretações dos escritos sagrados, fazem com que seus fiéis não tenham outra saída a de se posicionarem no mesmo sentido, usando de subterfúgios muitas vezes não-republicanos para convencimento dessas pessoas. Reduzindo a lógica do pensamento a que o Estado, sob hipótese alguma, ser flexível em relação a tais questões. Como derivante disso, criam impasse de diálogo, bem como não permitem uma análise fria e lógica (leia-se racional), entre Estado e sociedade. Acusam todos aqueles que se mostram minimamente inclinados favoravelmente às causas de serem apologistas de genocídios, degradação moral e etc.

Esquecem, no entanto, que nem todas as pessoas da sociedade seguem as referidas doutrinas e que o Estado, enquanto buscador da paz e bem-estar social, não pode se prender a rótulos dogmáticos que as Igrejas repetidas vezes impõem ao debate. Esquecem-se, também, que independente do posicionamento desse setor da sociedade tais fatos consumam a acontecer cotidianamente nas cidades e estados do Brasil. É chover no molhado, como diz o jargão popular, nomear quem são os maiores prejudicados nessa história: pretos, pobres, marginalizados de periferia que; quando não tem dinheiro para submeterem-se a clínicas de aborto clandestino, têm de correr o risco de morte se sujeitando a métodos inumanos de tratamento para interrupção da gestação; assim como morrem na mão do mesmo Estado quando este entra nas periferias, troca tiros, prática de coerção e prende aqueles que estão na ponta do varejo da droga no Brasil. Dados mostram que morrem centenas de mulheres anualmente em nosso território decorrente de tentativas fracassadas de aborto. Sem contar o número alarmante de jovens que têm suas vidas privadas de liberdade por porte de quantias irrisórias de substâncias proibidas pela lei antiquada atualmente em vigor no que tange drogas. Isso sem mencionar aqueles que perdem a vida a guerra urbana que decorre desse estado falido de guerra às drogas e correlatos.

O momento atual que se avizinha de eleições é o mais propício para tratarmos de tais assuntos. Visto que todos os países que conseguiram reduzir os números de mortos e encarcerados em ambas situações foram aqueles que tentaram, sem algum tipo de hipocrisia, enfrentar os problemas de maneira ponderada e razoável.

Tomemos o exemplo de Portugal, desde a regulamentação dos procedimentos alta interrupção da gravidez, em 2007, o número de mortes em consequência de tais atos simplesmente viu o número ser reduzido a 0 . Isso mesmo, caro leitor, nenhuma mulher perdeu sua vida em Portugal – após regulamentada a lei, ao decidir pela interrupção da gravidez, seja ela por qual motivo for. Ademais, o exemplo do país ibérico é usado mundo afora como exemplo positivo de resolução para um problema que aflige dez em dez países ao redor do globo.

Some-se a isso o fato de que o número de encarcerados por porte de drogas também fora reduzido quando o país decidiu atualizar sua legislação e deixar de punir usuários que carreguem até 20g de maconha e cocaína e suas posses , o que é considerado quantia suficiente para consumo durante 10 dias. Em uma outra nítida demonstração de que a razoabilidade em se enxergar soluções e alternativas para problemas deve falar mais alto que qualquer conceito fechado e pré-estabelecido, os quais uma doutrina qualquer que ela seja tente impor aos olhos de seus correligionários.

São dois exemplos nítidos, oriundos de nosso colonizador, que as mulheres não sairão abortando a torto e a direito caso o procedimento se torne legal sob a luz da lei, tampouco todo mundo vai sair fumando maconha no meio das ruas e se degenerando, caso o porte dessa e de algumas outras substâncias seja descriminalizado.

Ciro Gomes tem posicionamentos bastante cristalinos sobre as temáticas. Enquanto cidadão, é absolutamente contra e desfavorável ao que denomina tragédia o procedimento abortivo. Porém, não se furta em afirmar que, caso eleito, colocará sua opinião sobre a mesa, bem como irá convidar toda sociedade civil para um amplo debate sobre o remetente, envolvendo posições contrárias e a favor, a fim de se achar uma solução para a essa pergunta.

Da mesma sorte se dá seu raciocínio a respeito da mudança na lei geral de drogas. Embora afirme com veemência que o tráfico há de ser fortemente combatido pelo Estado, Ciro reconhece que não é justo encarcerar em massa jovens – em sua maioria negros, pobres e de periferia – por quantidades irrisórias de maconha e etc, enquanto barões da droga e do narcotráfico seguem imunes ao castigo da Justiça porque possuem recursos financeiros para se eximir de processos pesados ou porque tem trânsito em setores influentes da sociedade. Mesmo quando evidências apontam claramente para o sentido do envolvimento de tais pessoas com atividades de abastecimento e, consequente, grande lucro e riqueza derivados de tal.

Chegou a hora do Brasil, enquanto nação que procura desenvolvimento econômico por meio de um sério Projeto Nacional de Desenvolvimento olhar com detalhe, sobretudo, para o âmbito social, colocar tais debates sob a mesa e se desnudar de qualquer máscara hipócrita que possa ainda atestar a ser vestida neste momento. É hora de se falar com clareza a respeito do elephant in the room, para parafrasear um dito de origem inglesa. E é nossa tarefa primordial, enquanto simpatizantes de um estadista de carta maior, levarmos adiante essas ideias. Ainda que elas batam necessariamente de frente com conceitos, tradições e costumes intrinsecamente arraigados em nossa cultura .

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