Eleições: entre o ódio e o delírio, a necessidade de um projeto nacional


Os números do Brasil são absurdamente chocantes.

São 13 milhões de desempregados, 32 milhões trabalhando na informalidade, 63 milhões de pessoas endividadas, 5,4 milhões de empresas inadimplentes, o déficit público é assustador (previsão de R$ 139 bi), a dívida pública continua em ascensão (crescimento de 14% em 2017), a pobreza extrema voltou a crescer (11,2% em 2017, resultando em 14,8 milhões de pessoas), a violência é assustadora (62,5 mil assassinatos, dos quais menos de 10% são investigados), e, nos últimos três anos, foram fechadas 13,8 mil indústrias e 226,5 mil lojas.

Estamos vivendo mais uma década perdida.

Os indicadores começaram a ruir no governo Dilma, todos sabem. O governo de Temer, apesar de produzir suspiros de alívio para o mercado, se mostrou um verdadeiro fracasso: a crise política e social apenas se aprofundou, arrastando qualquer perspectiva de melhora. A desigualdade social cresce de forma avassaladora.

Tudo isso produziu um Brasil de ódio e de delírio.

No país do ódio, os três anos de exposição midiática da Lava Jato alimentaram o rancor da população. Os eleitores estão de saco cheio dos políticos, e boa parte acha que o Brasil não tem mais solução. Acham que é “tudo culpa do PT”! Querem que os políticos tradicionais se explodam. Querem a Escola Sem Partido, ter uma arma para se proteger da bandidagem, e Deus e a família acima de tudo e de todos!

Para esses, não importa refletir sobre um projeto de país, eles não querem saber o que é déficit público, como implementar uma reforma tributária progressiva, como resolver o problema da previdência, muito menos como superar a desigualdade social. Para essa gente, nada disso importa. Eles querem um salvador da pátria.

Tem mais: já que o Estado não ajuda, que também não atrapalhe! O programa econômico de seus representantes é sempre defendido com simplificações grosseiras e ortodoxia retrógrada: enxugar o Estado, reduzir direitos trabalhistas, manter o teto de gastos e promover privatizações. É o plano perfeito para aprofundar a pobreza e lançar o Brasil na eterna decadência.

Por outro lado, a crise também produziu o país do delírio.

Desde que o impeachment ocorreu, o PT resolveu não mais colocar seus militantes na rua. Tudo por uma razão bem simples: queria ver o governo Temer sangrar.

Para eles, apenas uma coisa importava: alimentar a narrativa do “golpe”! Os excessos do Judiciário e do Ministério Público serviram como uma luva. A prisão de Lula apenas fortaleceu a narrativa de perseguição do PT: adicionou o elemento dramático necessário para alimentar a candidatura delirante.

A candidatura de Lula usa o prestígio (em grande medida justo) do ex-presidente para enganar os pobres, fazendo crer que ele poderá ser candidato. Trata-se de uma fraude, porque todos sabem que Lula é inelegível (por uma lei que ele mesmo assinou). Assim, até o último instante, querem usar a imagem de Lula para transferir votos para o vice.

Essa narrativa consegue até mesmo angariar aderência entre uma certa classe média esclarecida. Será que eles esqueceram as roubalheiras do PT? Os esquemas da Petrobras? Esqueceram que Dilma lançou o país no caos econômico? Que nomeou Joaquim Levy? Que deu centenas de milhões às empresas em renúncias fiscais, enquanto cortava investimentos sociais?

Em meio ao delírio há uma patente falta de autocrítica.

As eleições têm um eminente caráter plebiscitário: dão legitimidade ao presidente eleito, e, principalmente, ao seu programa de governo. Mais do que nunca, o Brasil precisa discutir ideias para sair dessa crise. Qual a legitimidade de um programa construído na mentira? Haddad vai governar consultando Lula na cadeia? O presidente eleito terá força para governar eleito dessa forma? É evidente que não.

Em um dos momentos mais críticos do Brasil, o PT convida o país para dançar à beira do abismo: caso o vice de Lula consiga chegar ao 2º turno, é provável que perderá para qualquer um dos candidatos do campo reacionário.

Mesmo que se admire a figura de Haddad e veja nele excepcional quadro, na remota e improvável hipótese de ele sair vencedor das eleições, é inevitável concluir que o país continuará mergulhado no caos econômico e político, e em clima de polarização e ódio. É isso que aconteceu após a fantasiosa campanha eleitoral de Dilma em 2014.

O PT faz manobras espúrias para conseguir eleger seu candidato a presidente: sacou a candidatura de Marília Arraes em Pernambuco, em troca da neutralidade do PSB, e está aliado com “golpistas” como Renan Calheiros, Eunício Oliveira, dentre outros. Tudo isso após denunciar o “golpe”. A razão é simples: o partido atua unicamente preocupado com sua sobrevivência (mesmo que isso custe o futuro do país).

O PT não oferece um projeto de nação, mas um projeto de poder.  Para isso, corre o risco de lançar o campo progressista em uma avassaladora derrota, o que significaria o golpe final de sacrifício das conquistas sociais obtidas nos últimos anos.

Isso nos leva à conclusão: o país não encontrará a paz e prosperidade que precisa para superar a crise, seja com candidaturas baseadas no ódio, seja em uma candidatura construída no delírio, no culto à imagem de um salvador da pátria.

É necessário mais do que nunca discutir um projeto nacional de desenvolvimento, que supere a crise econômica, a crise política, a pobreza, a desigualdade, o desemprego, a violência, a corrupção, fortaleça a saúde e a educação pública.

Mais do que isso, um projeto que faça reformas estruturais profundas: promova a irremediável reforma da previdência, a necessária reforma tributária, e devolva ao Brasil o seu papel de protagonismo no mundo.

É difícil acreditar que todas essas tarefas poderão ser realizadas pelas candidaturas do ódio ou do delírio.

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