É destempero que chama, né?


Por Rodrigo Ruperto

Como você se sentiria sabendo que uma pessoa muito próxima e muito querida a você está passando por situações difíceis, como, por exemplo, sendo explorada(o) por vizinhos; sendo feita(o) de otária(o) por colegas de trabalho; inserida(o) dentro de um relacionamento abusivo, que muitas vezes têm sido traída(o) ou apanhado do(a) companheiro(a). Como você se sentiria? Imagine que para piorar todo mundo ao redor dessa pessoa vê isso acontecer, mas todos acham isso tudo muito normal, relevam, dizem que “faz parte não há muito o que fazer”. Como você se sentiria? Qual seria o nome desse sentimento? Talvez, indignação? Imagine ainda que vendo toda essa injustiça você levante, arregace as mangas e suba sua voz para defender a honra dessa pessoa querida enquanto todos estão satisfeitos com a situação. Como você seria chamada(o)? Se fosse mulher, infelizmente neste mundo machista, seria chamada de histérica. Se fosse homem, de destemperado.

DE PRODÍGIO A DESTEMPERADO

Todo mundo já teve uma história que ao defender alguém de alguma injustiça foi taxado como instável emocionalmente. Essa é a desqualificação mais clichê que existe, mas infelizmente funciona muito bem. Para evitar de avaliar a razoabilidade, o mérito, daquilo que se diz, preferem descredibilizar o mensageiro fazendo que ele tombe e nunca mais se levante. É isso que tentam fazer com Ciro Gomes há mais de 23 anos, desde que ele se candidatou à Presidência da República pela primeira vez em 1998.

Como pode uma pessoa que foi homenageada pela Câmara Municipal de São Paulo com o Título de Cidadão Paulistano, utilizando das seguintes palavras para sua justificativa: “Encerrando este 1995 com exatos 38 anos, esse menino-prodígio da administração e da política ostentava desde cedo o perfil de líder, envolvido que estava no movimento estudantil de Fortaleza, no Ceará, de onde se projetou para política nacional, embora nascido em Pindamonhangaba, estado de São Paulo”, passar a ser, anos depois, percebido como destemperado por parte da mídia e do eleitorado, apesar de exitosa carreira como Deputado Estadual, Prefeito, Governador e Ministro da Fazenda?

Talvez isso aconteça porque Ciro passou a falar desde cedo sobre os dilemas que o Brasil enfrentaria no curto, médio e longo prazo, manifestações essas que incomodavam um pequeno número de pessoas, porém poderosas: os ricos não pagadores de impostos; a parte da elite que quer manter a desigualdade social; os especuladores; os entreguistas.

Ainda na década de 1990, com a popularização da internet e com o aprofundamento do processo da globalização, Ciro já observava que o país precisaria de uma reforma substancial para acompanhar as mudanças e as tormentas que viriam (informações que podem ser verificadas em suas entrevistas no Roda Viva). Como um dos criadores do Plano Real, Ciro conhecia também a necessidade de uma mudança estrutural do modelo econômico vigente no país. Sabendo que Ciro não desistiria de lutar em defesa da soberania nacional e a liberdade de seu povo, preferiram taxá-lo como destemperado, desequilibrado emocionalmente.

O TEMPO REVELA A VERDADE SEM CONSULTAR AS CONVENÊNCIAS

Passados 23 anos, o tempo deu razão a Ciro. A indústria, que em outrora já correspondeu a quase 30% do PIB, hoje corresponde a 11,3%. A China que tinha, na década de 1980, uma participação muito menor que o Brasil no comércio internacional, hoje, desponta como a maior potência global. A inflação que foi subtraída da vida nacional, com o Plano Real, hoje volta fortemente ao dia a dia da população. A construção de uma sociedade mais justa em que o sacrifício seria repartido segundo as condições de cada grupo, não se concretizou. O Brasil está em frangalhos, na pior crise social e econômica da história, o tecido social cada vez mais esgarçado. Caminhamos a passos largos para ser uma ex-nação, tal qual a Venezuela e a Argentina.

Em face a tal dilapidação, incompetência, descaso, falta de projeto, sendo você uma pessoa capacitada e experiente, ficaria calada(o) vendo o que acontece com o país? Creio que não. E se quando você denunciasse os erros estratégicos, ou a ausência de estratégia, você falaria com tranquilidade? Ao pensar que todos os anos pessoas morrem de fome, pela falta de atendimento médico, pela violência que campeia nas grandes cidades, você falaria como um gentleman? Mesmo sabendo que tudo isso poderia ser diferente se escolhêssemos um outro caminho, um caminho que respondesse claramente a todos esses dilemas? Você falaria calmamente? E quando, ao propor soluções e debates sérios sobre todas as questões nacionais, você fosse ridicularizado, tivesse suas falas distorcidas, fosse frequentemente ignorado por aqueles que são responsáveis pela possibilidade da mudança, você desistiria?

Posto dessa forma, entendendo o Brasil como uma pessoa querida e próxima, é compreensível a forma dura e direta que Ciro fala. É preciso saber diferenciar a crítica dura, mas sincera e honesta, de uma simples adjetivação da persona do adversário político. A primeira é feita utilizando dados, argumentos concatenados e explicações bem elaboradas. A segunda é um ataque baixo à figura política, tentando deslegitimar o interlocutor e não suas ideias. Portanto, configura-se um ataque ao próprio sistema democrático, uma vez que na democracia o debate e disputas estão no campo das ideias e não de pessoas.

O ATAQUE AO CARTEIRO BUSCA IMPEDIR A LEITURA DA CARTA

Assim, Ciro padece do segundo caso, a da simples adjetivação do adversário político, até porque ninguém consegue no período de 12 anos (1983-1995) ascender meteoricamente de Deputado Estadual a Ministro de Estado, passando por prefeitura, governo de estado, sempre muito bem avaliado, tendo desequilíbrio emocional. O que se pode observar é um esforço recorrente para descredibilizar o candidato e, assim, evitar que seu discurso ganhe aderência popular, pois os poderosos sabem que “nada é mais poderoso do que uma ideia cujo tempo chegou”.

É importante ressaltar que o próprio Ciro Gomes admite que, por vezes, sua postura beligerante auxiliou que seus adversários políticos o rotulem como desequilibrado, destemperado. Porém, ainda que Ciro tenha, de fato, caído em uma armadilha ou outra, proferido falas infelizes, e prontamente se desculpado, todo esse esforço para silenciá-lo está vinculada à tentativa de descredibilizar o que ele diz. É a velha tática de matar o carteiro para não deixar que leiam a carta. Se, ainda assim, isso não for o suficiente para demonstrar que o rótulo de destemperado é uma farsa, responda sinceramente a seguinte questão: no lugar de Ciro, dizendo as mesmas coisas há décadas, lutando por muito tempo quase sozinho e, pior, sendo frequentemente ridicularizado, você faria diferente?

Emocionar-se, gritar, brigar é do homem, principalmente para aqueles que sabem por que lutam. Ter tais sentimentos no mundo da política faz deles uma âncora vinculando o representante às dores da população. Pois em meio a tanto prestígio, poder, bajulação e conforto, lembrar de onde você veio, por que veio e o que representa não é uma coisa fácil. É preferível demonstrar emoções sinceras, a fim de lembrar que somos humanos, do que oferecer um sorriso amarelo e, por fim, nos acharmos desumanos. Ciro não é destemperado, mas, sim, indignado e apaixonado pelo Brasil, pronto para defendê-lo a qualquer custo pessoal.

Dito tudo isso, é destempero que chama mesmo?