Cria corvos e eles te arrancarão os olhos – o custo da traição


Por Héctor Cámpora

Traições e abandono das próprias convicções nunca foi algo inédito na política, tampouco raro. São frequentes as vezes em que vemos vereadores, deputados e até presidentes optarem por caminhos distintos aos que pregavam em tempos anteriores. A “mudança de lado” recente mais recordada pelos setores progressistas talvez seja o estelionato eleitoral cometido por Dilma Rousseff em 2014 ao convidar o banqueiro Joaquim Levy para assumir o Ministério da Fazenda. A decisão resultou em uma série de medidas impopulares que aprofundaram a crise econômica e terminaram na interrupção de seu mandato.

Entretanto, cansados de discutir a política liberal do Partido dos Trabalhadores aqui na plataforma, desta vez vamos refletir sobre outra traição às próprias convicções: a do Presidente da República, Jair Messias Bolsonaro.

A FÚRIA DOS CORVOS

Ao fim da última sexta-feira (19), enquanto a Câmara dos Deputados votava de maneira extraordinária, em plena semana de carnaval, a manutenção da prisão do deputado federal Daniel Silveira (PSL) por ataques ao Supremo Tribunal Federal, pairou em segundo plano a notícia sobre a alteração na presidência da Petrobras. Após reajustes no preço do diesel pela estatal e visando conter a fúria dos caminhoneiros que ameaçam nova greve, o Presidente da República promove nova troca no comando da empresa, nomeando o general Joaquim Silva e Luna para o cargo.

Contudo, logo pela manhã, antes da alteração, quando a bolsa de São Paulo ainda não havia encerrado o pregão, Bolsonaro anunciou que ocorreriam mudanças na empresa. Como de costume, algo já visto nos governos de Lula e Dilma, o mercado reagiu com depreciação: as ações fecharam em queda de quase 8%. Naturalmente, a interferência do governo nas grandes estatais sempre resulta em incertezas do mercado e alardes midiáticos promovidos por setores neoliberais.

BOLSONARO ALIMENTOU OS CORVOS PARA CONSQUISTAR A PRESIDÊNCIA

Mas o que tudo isso tem a ver com traição e mudanças de lado?

Devemos recordar que o presidente que hoje interfere no comando da Petrobras – o que é um direito seu, afinal, a empresa é do estado, é o mesmo que a vida inteira defendeu a presença do governo para o desenvolvimento da nação. E se existia algo de bom em Jair Bolsonaro, em meio a tantas asneiras e ataques à democracia, era a defesa de um governo soberano que não se vendesse aos interesses estrangeiros.

Entretanto, esse perfil estatal foi completamente abandonado nas eleições de 2018. Bolsonaro se apresentou à população como um defensor ferrenho das privatizações, da submissão aos Estados Unidos, do livre-mercado, do estado mínimo e de toda a agenda liberal – algo que só é possível de compreender se olhado pelo prisma do abandono completo das próprias convicções para vencer uma eleição a qualquer custo.

ELES SEMPRE COBRAM A CONTA

E qual será o custo dessa traição? Ainda é cedo para afirmar. Porém, os mesmos setores que fizeram fila para destruir a imagem da primeira presidenta do país, já estão enfileirados disparando os primeiros tiros. O círculo liberal, da mesma maneira como fez com Dilma Rousseff, já acusa o presidente de interferência na estatal. Não tardará para que o comparem com Nicolás Maduro.

Os mesmos veículos de comunicação que Bolsonaro utilizou para se autopromover e destruir a imagem da esquerda, agora cobram a conta. E eles não aceitam, de maneira alguma, a interferência do governo na política da Petrobras.

A conta da traição está chegando e, como dizem nossos vizinhos, crea cuervos y te sacarán los ojos: Bolsonaro está na mira da mídia e do mercado. Se houver qualquer resistência à implementação da agenda liberal, seus olhos serão arrancados.