Convergir a divergência: o caminho da centro-esquerda para 2022


Por Leonardo Vasconcelos

As eleições pós-redemocratização têm contado com uma característica comum: o antagonismo. Com pequenas variações ao longo do tempo, três campos colocam-se em disputa: o campo do pacto entre o liberalismo cosmopolita e o patrimonialismo corrupto – já representado por Fernando Collor, pelos cardeais do PSDB e, agora, por Jair Bolsonaro; o da força mobilizadora da figura do sindicalista Luís Inácio Lula da Silva e seu partido, o PT, representante da pequena burguesia radicalizada composta de um amplo arco, abrangendo desde socialistas convictos até sociais liberais de mercado; e, por último, um campo difuso, submetido a muitas mudanças estratégicas de 1989 para cá, a centro-esquerda.

Pode-se dizer que, em tal campo, não encontramos duas coisas: simpatia ao projeto e discurso petistas, tampouco voto para se viabilizar.

Este texto é uma radiografia da centro-esquerda, de seus momentos e uma proposição de como reabilitá-la.

O CAMINHAR DA CENTRO-ESQUERDA BRASILEIRA

Seu primeiro momento gravitou em torno de Leonel Brizola e Mário Covas. Antes de Fernando Henrique Cardoso explodir a proposta original tucana, Covas era a personificação de um projeto reformista e, ao mesmo tempo, conciliador, mas também, e acima de tudo, decente.

Já Brizola, bem, Brizola vivia a marcha, talvez a mais encantadora da história, rumo ao Palácio. Essa marcha consistia em vencer a primeira eleição após o golpe que o exilou por 15 anos e que o próprio Brizola adiara em 2 anos com a Campanha da Legalidade, defendendo a posse de João Goulart em 1962. Representava vencer uma eleição presidencial depois de ser empossado governador contra a sabotagem dos golpistas. Mas, no fim, os décimos atrás de Lula, o receio da Rede Globo ao dito “comunismo” de Mário Covas e a falta de acordo entre os três baluartes das “Diretas Já” entregaram o país de bandeja para Collor.

O reinado de FHC – sua lua de mel de quase seis anos com o povo – selou o destino de duas eleições presidenciais nas quais qualquer esquerda não tinha chance.

O próximo grande momento de expectativa da centro-esquerda foi a construção que levou à candidatura de Ciro Gomes em 2002. A língua afiada de Ciro, o apoio de Leonel Brizola e o crescimento do PPS nas eleições municipais de 2000 foram fatores que racharam tanto a base do governo, com a aderência do PTB, quanto os sonhos lulistas: meses antes da eleição, Ciro figurava no segundo turno e empatava com Lula. As razões para o fiasco posterior serão abordadas no final do texto.

Outra lua de mel aconteceu: a de Lula. E, assim, a eleição de 2006 foi outro momento a ser desconsiderado. Mais longa que a de Fernando Henrique, a lua de mel de Lula teve força para se estender e impedir a construção em 2010, cortando pela raiz a candidatura de Ciro, à época, no PSB.

Digna de nota foi a campanha, de aspectos já “canhestros”, de Marina Silva, indicador inquestionável de uma mudança estratégica de quem viu todas as últimas “terceiras vias” se esgotarem pela esquerda. Entre esse projeto canhestro, mas não petista, e o petismo conciliador, mas firme na retórica antijuros de Dilma, Ciro permaneceu no projeto em andamento.

Durante o primeiro mandato de Dilma, o eixo do PSB-Nordeste se altera, indo do Ceará para Pernambuco. Com Eduardo Campos no comando, o partido não só se afirma na eleição nacional com um conciliador muito mais paciente e menos intempestivo que Ciro, mas apresenta Eduardo Campos como uma pessoa muito mais disposta a conciliar com as velhas elites. Em outras palavras, um risco real para a hegemonia lulista, que já via sua candidata natural à frente de um governo fraco.

Todavia, a escolha da vice, Marina Silva, o desastre aéreo e a campanha de difamação direcionada à Marina nas últimas semanas tornaram-se uma pá de cal sobre uma “esquerda” que parecia disputar o segundo turno contra o PT.

O BRASIL GUINOU À DIREITA …

Observe se o quão à direita migrou o cenário nacional durante essas últimas tentativas. Brizola era a ala radical – do já revolucionário, aos olhos do mercado, Trabalhismo. Ciro foi um crítico da Carta aos Brasileiros (banqueiros) e continua crítico às distorções tributárias mantidas por Lula/Dilma.

Ambos, entretanto, foram substituídos pelo PSB de Eduardo e por Marina, cujos currículos comportam votos favoráveis ao impeachment, apoio à independência do Banco Central, relações próximas e composições com o PSDB no centro-sul.

O cenário guinou à direita.

O que falar então da eleição de Jair Bolsonaro em 2018? Se a retórica agressiva de Aécio Neves já surpreendeu àqueles que tinham se acostumado com o Tucanato cortês, se as proposições econômicas de Campos/Marina já decepcionaram muitos dos tradicionais votantes da terceira via, o que falar de um capitão reformado de discurso abertamente miliciano, messiânico e golpista na presidência? O eixo da conversa foi jogado a quilômetros de distância, à direita do muro.

… MAS CIRO GOMES SEGUIU NO JOGO

Não deixa de ser uma surpresa, portanto, que a terceira via do momento seja protagonizada por Ciro Gomes, cujas filiações na economia política estão mais próximas as da ala heterodoxa e escanteada do conglomerado petista do que as de Eduardo Campos e Marina Silva.

A coligação entre PDT e PSB, que quase saiu do papel em 2018, era muito menos provável do que um observador médio poderia imaginar, assim como os recentes acenos da Rede de Marina. Em um contexto tão à direita, estar tão próximo ao apoio formal de gente que poderia facilmente ser chamada de traidora em um passado muito recente seria obra de uma engenharia política admirável.

Voltemos ao momento em que tudo explodiu, 2002. As semelhanças não são poucas entre lá e cá. O PDT espera viver um avanço nas municipais de 2020, tal qual o PPS viveu em 2000, e Ciro continua com seu mantra de “criar uma corrente de opinião” assim como de “estabelecer aliança entre quem trabalha e quem produz”. Os grandes partidos da esquerda não petista parecem andar juntos, como andaram à época. O governo, impopular, continua querendo um segundo turno contra o petismo. Motivos suficientes para acreditarmos que chegaremos outra vez em agosto e tomaremos a mesma rasteira que foi desferida em 2002.

Há as razões para a claque discutir no bar e há as razões as quais o candidato reconhece, de fato, como causais ao insucesso eleitoral. As da claque foram um comício sem voz, o beijo na mão de ACM, a frase indefensável e infeliz sobre a mulher. As do íntimo do candidato, porém, conforme compartilhado por Ciro, foram: Fernando Henrique Cardoso. “Esse louco vai ganhar a eleição”, teria dito o Príncipe em jantar com magnatas. Há, em tal ocasião, de se defender os magnatas: eles deram chance a Ciro. “Fala o que você quiser pra ganhar, mas depois volta aqui pra se acertar com a gente”, teria dito um grande banqueiro para Ciro, o evento teria sido testemunhado por Mangabeira Unger.

Este texto não tem vergonha de assumir que, metaforicamente, é exatamente isso que Ciro deve fazer.

O PREÇO A SER PAGO

Uma das raízes relevantes da militância em torno do neotrabalhismo é a intransigência do pedetista para com os grandes esquemas da República. É chamar Renan Calheiros disso, Eunício Oliveira daquilo, Antônio Palocci pra cá, Eduardo Cunha pra lá. Justo, defensável, catártico, correto.

Resta perguntar, porém, o que é “se acertar com eles” no cenário atual? Não é muito. Não é preço que não se pague.

A Globo sofre petardos diários, ameaças de não renovação de concessão, perda do monopólio do futebol, manipulações pró Record da verba publicitária. O mercado está tendo que patrocinar centenas de milhares de dólares em anúncios para que os investidores não deixem o país em função da preocupação ambiental.

Nenhuma das reformas precarizantes tem encontrado a celeridade que o Alto Clero liberal de Rodrigo Maia desejava, e o baixo clero fisiológico, embora tenha conseguido dobrar a retórica, ainda se encontra sub-representado na Esplanada.

O Exército, por sua vez, sofre sua pior crise de imagem desde a Anistia e a centro-direita não tem ainda um nome eleitoral que a faça marchar às eleições segura de sua capilaridade sem precisar recorrer a essa terceira via que hoje gravita em torno do Ciro.

HÁ UMA CHANCE EM 2022

O Brasil guinou à direita. É impensável eleger uma chapa à esquerda do centro em 2022. É impensável eleger uma chapa com grau menor de concessão daquele de Lula I, o melhor governo petista em termos de moralidade.

É impensável que, para ganhar, a chapa de uma terceira via em 2022 esteja à esquerda de Campos/Marina. Agora, se essa mesma chapa pode ser pilotada por um Projeto que, no fundo, é mais reformista que o petismo em suas origens, isso é uma chance indispensável.

Precisamos, então, dissecar a chamada “Coalizão Marina”, seus méritos e falhas. Os 21% conquistados por Marina em 2014 já nos colocariam, hoje, na boca do segundos turno, uma vez que temos um petismo enfraquecido pelo avanço bolsonarista. Outro enfraquecimento é o da máquina petista. O PT não poderia repetir a difamação em escala industrial feita contra Marina.

A coalizão Marina se apoia em gente que não se seduz pela verve do conflito de Ciro, que não advoga mudanças sísmicas.

Conciliar esse público com a base é um desafio, mas aqui se fala também dos agentes políticos desse pensamento: a ala mais à direita da Rede, todo o Cidadania, o que resta de social-democracia no PSDB, novas e velhas iniciativas, todas desconfiáveis – entre as novas, os grupos parapartidários como o Renova BR e o Acredito, presentes nas juventudes do PSB e da Rede e personificados em Tabata Amaral(PDT) -, que, sinceramente, poderiam ser chamadas de “canhestras”, mas em tempos de bolsonarismo são mais do que grandes aliadas, são indispensáveis.

As falhas, até aqui, dessa coalizão podem ser traduzidas pelo apoio insensato a Aécio e a percepção – justa, injusta, pouco importa – de falta de fibra, verve e coerência. A régua da concessão a ser feita deve parar centímetros antes desse precipício – lugar para onde o pseudopurismo do petismo decadente irá nos empurrar sem descanso.

O QUE PRECISA SER FEITO

Indispensáveis, como dito, pode parecer muito, mas não o é: os grupos citados podem, se não contemplados e se sentirem numerosos para tal, gravitar para outra candidatura de “centro”, rachando os votos e sepultando o segundo turno. Luciano Huck ocupa esse espaço platônico e, como todo bom oportunista, tem testado a temperatura da água.

Interromper a aderência de agentes políticos a figuras como essa significa, ao mesmo tempo, aproximar a figura de Ciro Gomes a de baluartes do chamado social liberalismo difuso, de economistas mais ortodoxos (mas não dogmáticos) do que a tradição trabalhista acolhe, comunicadores rejeitados pelo exclusivismo petista, setores expulsos do bolsonarismo, entre outros setores da “base” dos profissionais liberais. Essa distinção é particularmente traçada no jornalismo: 2018 marcou a distinção entre o chão da redação votando 12 e a Mesa Diretora rachada entre 45 e 17.

Outra ponte viável é a direita per se, operadora, de fato, dos meios necessários à eleição – hoje, quase hegemonizada pelo DEM. Com ela o acordo já se dá em franjas, como com ACM Neto e Alexandre Kalil.

Não defendo propriamente uma coalizão, mas que haja bala no gatilho e simpatia suficiente para que esvaziemos outras chapas, assim como apoios estaduais em grandes colégios: Minas e Bahia notadamente.

UMA ENGENHARIA COMPLICADA, MAS POSSÍVEL

Eis a dificílima engenharia política a ser realizada: conciliar a verve transformadora da base, o desejo tímido e (semi)despolitizado de mudança de setores difusos da sociedade civil e, concomitantemente, atrair setores da centro-direita tradicional e respeitável. Esta última tarefa deve ser feita com cuidado, não podemos repetir o projeto petista que apoiou fisiologismo por fisiologismo Brasil afora.

Kalil e ACM Neto, por exemplo, as duas grandes janelas do PDT para esse espectro à direita do centro, são gestores aprovados e homens de Estado mais distantes do liberalismo do que o bom senso indicaria. Já Rodrigo Maia deveria ser vencido dentro do DEM ou rever suas posições para participar desse possível samba.

A coalizão desenhada provavelmente está à direita de quase todas as chapas de terceira via que já tivemos, mas é a única que converge as diversas divergências que o conjunto da sociedade expressa ante um segundo turno PT x Bolsonaro, basta olhar a quantidade de votos nulos nas eleições de 2018.

Ótimo. Assim que a Globo tiver sua paz e o país não estiver coberto pela fumaça das florestas e do golpismo, a luta política pode ser renovada com um político experiente, convicto da exploração que a elite impõe ao povo quando ocupa a Presidência da República e que já viu o que um projeto conciliador ad eternum faz a longo prazo com as perspectivas do pensamento progressista: o sepulta.

De novo não.