Ciro Gomes na pesquisa FSB/Veja: copo d’água pela metade – por Gerri Araújo


Perspectiva, ponto de vista e wishful thinking são coisas distintas. Porém, em matéria de disputa política, frequentemente se confundem.

Tome-se a metáfora do copo com água nivelada na metade. Observando este objeto, duas pessoas podem emitir juízos inversos: está meio cheio, está meio vazio.

A torcida bolsonarista comemorou o resultado da última pesquisa FSB/Veja (de 06/12).

Em sua perspectiva, Bolsonaro está consolidado acima dos 30% – patamar que o leva ao 2º turno, onde derrotaria Lula, Haddad ou Huck (não foi simulada uma disputa com Ciro).

Rivais contra-argumentam que, se comparado aos resultados de agosto e outubro, o desempenho atual do presidente indica queda suave da popularidade; se confrontado aos 46% do 1º turno de 2018, indica desabamento.

Do lado petista da arquibancada, o copo meio cheio considera um candidato do PT (Haddad, Lula ou quem este indicar) como a única opção de esquerda capaz de chegar ao 2º turno. Contudo, o copo meio vazio mostra que tal candidato seria batido no final (por Bolsonaro ou Sérgio Moro).

A tabela abaixo mostra a intenção de voto no 1º turno (cenário sem Lula e sem Moro):

A fotografia eleitoral de Ciro Gomes revelada por FSB/Veja parece verossímil.

Estabilizado em 11% (os 9% de outubro estão na margem de erro de 2 pontos), Ciro teria intenção de voto
inferior aos 12,5% recebidos em 2018.

A redução de 1,5% provavelmente retrata uma depuração no eleitorado cirista, resultante da estratégia de afastamento do PT.

Explicando: o apoio crítico de Ciro a Fernando Haddad no 2º turno, o apoio do PDT a Rodrigo Maia na eleição da mesa da Câmara e, principalmente, as duras críticas que Ciro tem dirigido a Lula afugentaram simpatizantes do PT que digitaram 12 na urna por mera tática eleitoral (no 2º turno, Ciro venceria Bolsonaro, enquanto Haddad seria derrotado).

Outro dado importante é o empate técnico com Huck. Ciro Gomes considera que Bolsonaro e PT detêm, cada um, cerca de 25% de preferência eleitoral.

Logo, resta-lhe tentar atrair os votos do centro. Ocorre que outros nomes competem pelo eleitorado centrista, sendo Luciano Huck o principal deles.

Se, finda a depuração, Ciro mantém pontuação próxima à de Huck, conclui-se que seu copo d’água está pela metade. Dificilmente ficará vazio (como ocorrera com Cristóvam Buarque e Marina Silva).

Ao contrário, é possível que encha ainda mais: a aliança PDT-PSB-Rede-PV será testada nas urnas em 2020. Se for exitosa, o PDT se tornará um partido maior e melhor estruturado do que era em 2018 e Ciro contará com um núcleo político de centro-esquerda do qual não dispunha no pleito anterior.

Isso ocorrendo, legendas de centro (Avante, PROS, SD, Patriotas, PHS), centro-direita (DEM, PP, PSD, PL) e esquerda (PCdoB) podem decidir compor uma grande coalizão nucleada à centroesquerda para 2022.

Aí, sim, poderíamos dizer do copo d’água de Ciro: está meio cheio!

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