É possível construir uma saída progressista sem o PT. Com Ciro Gomes.


Texto de: Marcelo Rezende

Após a traumática experiência do governo de Dilma Rousseff, alguns setores progressistas ficaram claramente “órfãos” de uma alternativa fora do partido que havia conduzido sua militância por tanto tempo.

Muitos concordavam com as críticas feitas ao procedimento espúrio de condução do impeachment e ao caráter por vezes seletivo da Operação Lava-Jato, mas acreditavam na superação dessas questões. Surgia, afinal, um conservadorismo galopante e perigoso, e a resposta precisava ser formulada.

Esse processo de buscar alternativas para fortalecer a esquerda foi tortuoso. A ideia de criar uma união ampla do campo progressista, com o intento de fazer frente aos setores mais reacionários, foi reiteradamente sugerida por Ciro Gomes, que pleiteava algo parecido com a experiência uruguaia pós Pepe Mujica.

Mas a proposta foi vorazmente rechaçada pelo Partido dos Trabalhadores, completamente imerso em um difícil contexto de reconstrução interna e vítima de uma rejeição jamais vista, com reflexos dolorosamente sentidos nas eleições de 2016.

Diante da recusa do PT em rediscutir seu protagonismo histórico e de fazer uma autocrítica necessária à superação dos problemas atuais, Ciro Gomes resolveu amadurecer o Projeto Nacional de Desenvolvimento. Rodou o Brasil ministrando palestras, conversando com estudantes e coletando sugestões para construir um conjunto de propostas modernas e adequadas a um viés de crescimento duradouro e de longo prazo. A ideia era fixar as bases de um futuro projeto de governo que encarasse com seriedade os desafios impostos pela grave crise atual.

Enquanto isso, o período eleitoral se aproximava. O PT seguia envolto em suas próprias vicissitudes. O partido decidiu, então, vender um discurso personalista e litúrgico encabeçado por Lula, o alçando definitivamente à posição de salvador da pátria. Este drama, que atinge seu auge no ano presente, impede uma análise mais detida e profunda acerca da realidade brasileira atual.

O diagnóstico dado pelo PT ao caos completo no qual vivemos é muitas vezes errôneo porque o partido se mostrou incapaz de admoestar a si próprio. A conveniência de terceirizar a culpa de todos os problemas do país ao catastrófico governo de Michel Temer falou mais alto.

Ao insistir tão fortemente na construção dessa narrativa ao redor de Lula, o partido passou a impressão de que era mais importante voltar ao poder a qualquer custo – sem abrir mão de seu protagonismo – em oposição a apoiar outras forças capazes de trazer renovação e oxigenação no campo progressista.

A suplantação de um projeto de governo por um projeto de poder ficou ainda mais clara diante das incoerentes alianças com Paulo Câmara, Eunício Oliveira e Renan Calheiros. Outrora algozes, os nordestinos se tornaram rapidamente companheiros de palanque.

Ademais, o discurso propagado pelo PT coloca seu maior líder como um verdadeiro mágico – aparentemente é só ele voltar ao poder que as dificuldades cessarão. A ideia é poderosa politicamente, mas ilude a população e estimula um debate extremamente passional, desconectado dos problemas reais. Impede uma discussão mais racional das possíveis soluções e retoma o pior da política paternalista e populista. Um delírio ainda mais irresponsável diante da condição de inelegibilidade do ex-presidente.

Essas críticas não reduzem o papel histórico de Lula como notável condutor de um processo legítimo de distribuição de renda e de diminuição da miséria. Contudo, o campo progressista não precisa ficar refém do atual sebastianismo petista.

O Projeto Nacional de Desenvolvimento levado a cabo por Ciro Gomes é algo que representa valores dignos, humanistas e comprometidos com a redução das desigualdades.

Um plano inteiramente capaz de levar o Brasil a um patamar de crescimento sustentável, desenvolvendo nosso capital humano através da educação e aproveitando nossas imensas riquezas naturais com responsabilidade. É a melhor saída para quem foge dos extremos e acredita na construção dialógica de um país mais justo e equitativo.

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