Por que voto em Ciro Gomes para Presidente


Texto de: Lucas dos Santos Ferreira*

Estamos entrando na semana do pleito eleitoral que irá desenhar a história do Brasil nos próximos anos, em cenário nebuloso de desgaste de vários dos alicerces da chamada República Nova.

Segundo o IBGE, o desemprego atinge assustadora taxa de 12,1% e quase 25% da mão-de-obra segue subocupada (freelancers, motoristas de aplicativos etc.). Mais de 63 milhões de brasileiros estão negativados pelos órgãos de proteção ao crédito e a fome voltou a ser um grave problema que atinge os mais necessitados.

O governo de Michel Temer aprovou uma reforma trabalhista perversa e ameaça diariamente entregar aos estrangeiros patrimônios nacionais estratégicos como Eletrobrás, Petrobras e Embraer, ao tempo em que substitui a geopolítica da multipolaridade pela submissão total aos Estados Unidos. Ademais, os militares aumentaram vertiginosamente sua influência nas instituições nacionais criando novas contradições.

O líder das pesquisas eleitorais, Jair Bolsonaro (PSL), para além de representar assombroso retrocesso no campo dos direitos humanos gerando positivos repúdios nos mais recentes protestos (#EleNão), pode significar o retorno dos militares ao poder, desencadeando procedimentos perigosos como reformulações constitucionais sem participação popular ou mesmo golpes diretos, como apontou o candidato a vice-presidente General Mourão.

No campo econômico Paulo Guedes expõe interesse de privatizar todo o possível e deve manter o tripé macroeconômico neoliberal (âncora cambial, juros exorbitantes e superávits primários). Surgem ameaças de reformas impopulares para aumentar o imposto de renda dos pobres e da classe média e até para eliminação do 13º salário, o que mergulharia o Brasil em abismo ainda mais profundo.

As candidaturas de Geraldo Alckmin (PSDB) e Fernando Haddad (PT) são as que possuem maior densidade quando o requisito é apoio das teias coronelísticas das profundezas do Brasil. Do lado tucano temos Antônio Carlos Magalhães, Agripino Maia, Tasso Jereissati e outros. Com o petista perfilam Renan Calheiros, Eunício de Oliveira, Jader Barbalho e José Sarney, em rede com os promotores do golpe contra Dilma Rousseff em cerca de dois terços das coligações estaduais.

Na área econômica podemos destacar tendência de manutenção do tripé macroeconômico neoliberal como fizeram FHC, Lula e Dilma, o que agradaria o mercado financeiro e poderia desacelerar a recuperação da economia e dos empregos sobretudo na indústria, já que quase metade do orçamento público continuaria a servir para juros e rolagens da dívida pública. Geraldo Alckmin caminha com Edmar Bacha, Pérsio Arida e Mendonça de Barros. Fernando Haddad, considerando sinalizações de Gleisi Hoffmann para a Bloomberg/Wall Street e simpatia por figuras como Marcos Lisboa, Samuel Pessoa e L.C. Trabuco, não deve seguir caminho muito diferente, embora com uma dosimetria neoliberal menos ácida.

Como diferenças entre as candidaturas temos os fatos de que Alckmin representa o legado da privataria tucana (CSN, Vale etc.) e possui o apoio da grande imprensa e de setores conservadores do poder público (judiciários etc.). Haddad tem a seu favor a história das origens do PT e o grande portfólio de políticas públicas permitido pela alta das commodities ao ex-presidente Lula, o que garante o apoio de certas bases populares como CUT, MST e UNE.

Ciro Gomes (PDT), integrante de família tradicional da política brasileira também não está imune a contradições, já que também construiu elos regionais contestáveis, embora em nível muito menor que Alckmin e Haddad.

Todavia, o candidato dos brizolistas, além de contar com apoio sindical mais robusto do que Haddad (4 das 5 grandes centrais sindicais), cercou-se de quadros em boa medida afastados do dogma neoliberal, a exemplo de Nelson Marconi, Luiz Gonzaga Belluzzo, Mauro Benevides, Bresser-Pereira e outros, dizendo em alto e bom som em todas as suas entrevistas que revogará a reforma trabalhista, as políticas de entrega de Eletrobrás, Petrobras e Embraer e principalmente o tripé macroeconômico que nos desindustrializa e move o sistema da dívida.

Ciro Gomes é uma chance para construirmos um projeto nacionalista de desenvolvimento para o nosso povo, é uma chance para dar vazão ao sonho de Leonel Brizola, brasileiro de primeira grandeza e vítima maior da República Nova dirigida pela contradição PT-PSDB.

Fonte: GALA, Paulo. Ascenção e queda da complexidade produtiva da economia brasileira, set. 2018.

*Lucas dos Santos Ferreira é Mestre em Geografia Humana pela Universidade de São Paulo (USP), Doutor em Geografia pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Vice-Presidente da Fundação Leonel Brizola – Alberto Pasqualini (FLB-AP)

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