Criticar Ciro Gomes é até fácil, difícil é ter ideia melhor – resposta a João Amoêdo


Texto de: Samuel Cordeiro Barbosa

As (péssimas) ideias do Partido Novo e do seu fundador e a demonstração de como o plano de Ciro Gomes é plenamente possível.

João Amoêdo fez um vídeo criticando a proposta de Ciro para tirar o nome das pessoas do SPC. É interessante notar que o oponente não apresenta nenhuma “contraproposta”. Ora, já que ele é o banqueiro profissional, poderia apresentar a “fórmula mágica para resolver a situação”. Mas, não. Só blablablá!

Primeiro, ele acusa a proposta do Ciro de “mirabolante”. Eu fui fazer os cálculos e espero que você faça o mesmo. O Banco Central criou a “Calculadora do Cidadão”, lá é possível fazer diversas simulações.

Passo-a-passo
1. Entre no site clicando aqui;
2. Clique em “financiamento com prestações fixas”.
3. Basta completar com os valores da proposta de Ciro.

Ciro falou em “36 vezes”, então coloquei “36” no campo “Nº. de meses“. Deixei em branco o campo taxa, justamente para ver se era possível.
Em seguida, coloquei a prestação em R$ 49,00 e valor financiado em R$ 1.400,00.

Pronto, basta clicar em “calcular” que surge o valor da taxa de juros mensal: 1,3 % ao mês, ou pouco mais de 16% ao ano. Com a taxa Selic em 6,5% ao ano, por que não seria viável emprestar à uma taxa de 16% ou algo parecido?

O João perdeu uma grande oportunidade de mostrar seus conhecimentos. E justamente na área que mais domina. Ou seja, pelo jeito, parece que “em casa de ferreiro, o espeto é de pau” mesmo…

E OS BANCOS?

Os grandes jornais brasileiros mostram que há apenas um setor que sempre ganha no Brasil: os bancos. Ninguém aqui é contra o setor financeiro, pois entendemos que cada setor tem seu papel no desenvolvimento. Porém, é papel do Estado estar atento a formação de cartéis, oligopólios e todo tipo de conchavos que pretendem extorquir a população. Será que votar no João não seria “colocar a raposa para tomar conta do galinheiro“?

 

Não há dúvida de que os bancos brasileiros podem contribuir para resolver a situação insustentável. E ainda lucrar com isso. Se resolverem fazer um “lock-out” (greve de patrão), Ciro pode chamar os bancos públicos para o jogo. Mas, não será necessário. Os bancos, como os táxis, vão aprender a viver num ambiente de juros “sustentáveis”, digamos assim.

O PAPEL DO ESTADO.

João Amoêdo também acredita que o Estado “só atrapalha” (Ah, mas quando não chamam ele para o debate na televisão, ele vai chorando chamar o Estado).

Porém, o papel do Estado é essencial para todos: ricos e pobres. Tentar achar que o Estado é o problema é querer jogar o bebê com a água do banho juntos. A expressão idiomática inglesa serve para alertar apressadinhos: ações precipitadas podem resultar em besteira.

Existem diversos órgãos públicos e privados, como Procon, Justiça e os serviços de proteção ao crédito que podem chamar credores e devedores para conversar. Muitas vezes falta justamente um sujeito imparcial para reunir as partes e procurar uma solução boa para ambos.

Existem também setores estratégicos, como o setor de energia. Um país com a dimensão do Brasil não pode permitir que outros controlem nosso petróleo e nossas usinas hidrelétricas.

Basta pesquisar no Google: as maiores usinas hidrelétricas foram criadas por Estados! Ferrovias? Estado.

Como João Amoêdo deve saber, a quantidade de recursos e os prazos e taxas de retorno de grandes obras, muitas vezes, inviabilizam a participação privada. Principalmente no país do juro fácil.

Ah, mas e a corrupção na Petrobras?“. Quem usa esse argumento parece não perceber que Odebrecht, OAS e diversas outras empresas de engenharia são… privadas e, nem por isso, estavam imunes à corrupção. Por isso, “o preço da liberdade é a eterna vigilância”, como resumiu o irlandês John Philpot Curran. Por isso, é importante que existam instituições firmes e a participação do povo nos rumos da nação.

CONCLUSÃO

João Amoêdo parece ser um cara bem intencionado, mas isso não é o bastante. Tem que saber o que fazer, como fazer e quando fazer. Parece não fazer sentido deixar o Brasil nas mãos de quem mais ganhou dinheiro do jeito que está. Será que ele quer, mesmo, que o país mude? É como diz aquele velho ditado: “De boas intenções o inferno está cheio”.

A diferença entre Ciro Gomes e João é clara. Ciro poderia ter sido um grande executivo do mercado financeiro, afinal, ele foi o único Ministro da Fazenda que não foi trabalhar para instituições financeiras.

Ciro foi Ministro da Fazenda, prefeito da 5a maior cidade brasileira e governador do 8o maior estado. Ele sabe fazer. Os outros… sabem falar.

1 Comentário

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    Victor Castro

    O fenômeno do oligopólio dos bancos no Brasil se deu por três motivos, que aconteceram simultaneamente (2ª metade da década de 90): primeiro pela transição brutal de regime inflacionário indexado para regime estável com forte âncora cambial – resultando na quebra generalizada de bancos que viviam de inflação, com carteira pouco diversificada e de alto risco, e um PROER que limpou essa carteira para pouco mais de uma dezena de bancos no fim dos anos 90; segundo, pela privatização concomitante de todos os bancos públicos estaduais, cerca de 30 bancos ao todo, comprados por apenas 3 (o Banco do Brasil e dois grandes bancos privados, ainda hoje atuantes no Brasil); e terceiro, um bom motivo, porém com efeitos colaterais: nossa regulação é a melhor do mundo (IRB, SUSEP, depósitos compulsórios do BC), mas também a mais excludente – estamos imunes ao curralito argentino e aos subprimes yankees, mas nossa oferta de crédito fica nas mãos de poucos. Mal comparando, o setor bancário no Brasil é como o setor de carne vermelha era até a Operação Carne Fraca: um oligopólio subsidiado pelo Estado (que compra um volume gigantesco de crédito de 3 bancos privados, gerando uma escala de competição que exclui novos competidores de acessar o mercado, fenômeno idêntico ao que ocorre com as telefonias e operadoras de avião), com alto custo regulatório. Para diversificar a oferta de crédito no Brasil, precisamos de algumas medidas estruturais e outras pontuais: o Estado reduzir o seu volume de demanda por crédito no longo prazo, o Estado dar preferência à aquisição de títulos da Dívida e outras contratações (administração de contas, etc) a bancos de médio porte, o CADE atuar de forma mais incisiva para evitar holdings dentro do sistema financeiro (grandes bancos acionistas de financeiras menores, grandes bancos emprestando a empresas das quais são acionistas, etc), o marco regulatório se tornar mais enxuto e dinâmico sem perder as salvaguardas anti-curralito e anti-subprimes que hoje só Brasil e Japão possuem, e o Estado ser menos irresponsável na gestão do câmbio (e a ideia de Mauro Benevides Filho de adotar a proposta de Serra de responsabilidade cambial é um bom aceno nessa direção). Tomara que Ciro consiga adotar essas 5 linhas.

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