Ciro Gomes: entre a direita e a esquerda?


Texto de: Francisco Souza

Um dos questionamentos mais frequentes em tempos de ataques rasteiros de todos os lados é a pergunta: Ciro Gomes é de esquerda? Ou é de direita?

Para o ex-candidato a prefeitura de Bauru do PT, Carlos D´Incao, Ciro é claramente de direita:

Nos bastidores, Ciro recebe dinheiro dos banqueiros, defende a continuidade de uma agenda ultra-neoliberal, apoia a reforma da Previdência, se porta como legítimo defensor dos interesses do mercado e com grande eloquência repete os ditames dos economistas liberais neokeynesianos”.

Para o MBL e os Antagonistas, Ciro é um capacho do partido comunista chinês, e vai implementar uma ditadura bolivariana que vai levar o Brasil a ser a nova Venezuela, já que ele é o último representante do Foro de São Paulo.

São definições completamente sem lógica, típicas do tempo atual. O próprio Ciro brinca com isso, quando menciona que, para um lado, ele é visto como membro do outro e vice-versa.

Vamos ao que interessa: as propostas defendidas por Ciro Gomes  e sua a crítica ao neoliberalismo são consistentes e são as mesmas pelo menos desde 1996. Se entendermos o neoliberalismo como uma disfunção do capitalismo, nem dá para dizer com autoridade que se trata de uma ideologia de direita, afinal, ideologias de direita são aquelas que têm a ver com coisas concretas, com trabalho, salário e renda.

O esquerdismo antigo foi ótimo para fazer diagnósticos quase perfeitos dos problemas contemporâneos, mas em vários países do mundo não apresentou soluções convincentes, levando a uma reação que colocou em xeque as teorias de socialismo e liberdade como resposta para tudo.

Aqui no Brasil, sendo honesto e prestando o depoimento de quem viveu o governo petista por dentro, não podemos dizer que o governo do PT foi de esquerda, sob qualquer prisma analisado. Emprestando as palavras do professor Nildo Ouriques, o sistema PTucano em pouco diferenciou estes dois partidos, já que não reformaram o sistema, não atacaram os setores abutres da economia.

Distribuir renda, à custa do remanejamento de dólares que entraram via commodities, não é uma política genuína de esquerda. Sem a questão cambial favorável, pouca coisa do governo Lula teria, de fato, acontecido.

Aí vamos analisar o que Ciro Gomes propõe, a essência de seu projeto: um novo Projeto Nacional de Desenvolvimento que tem como duas ações fundamentais o enfrentamento ao rentismo e uma reforma fiscal profunda.

Essa é uma ideia mais à esquerda do que qualquer iniciativa proposta pelo PT em seu tempo no governo. Quando ouço as críticas ao Ciro por não ser “suficientemente” de esquerda, parece que o governo anterior foi do PSOL, quando na verdade não foi!

A grande questão estrutural que o Ciro está apresentando é corrigir esse modelo no qual o rentismo, a especulação financeira sem limites, tem primazia sobre a massa salarial e a renda das famílias.

O fato desse projeto ser pautado, com detalhes (principalmente de como seria implantado), é motivo de festa para qualquer pessoa da classe média ou com um mínimo de solidariedade e humanidade.

Assim como Bernie Sanders nos Estados Unidos, Ciro apresenta novas ideias para o campo que se situa à esquerda. Um retorno às origens do trabalhismo com ideias da social democracia que, quando aplicada de forma nacionalista, permitiu o desenvolvimento de países na América e na Europa.

Tais ideias se diferem do fisiologismo pseudo-pragmático da esquerda que ocupou o poder no país e do neoliberalismo tóxico que tomou conta da direita brasileira.

Um novo Projeto Nacional de Desenvolvimento também é interessante do ponto de vista da direita mais tradicional do período pós-guerra até a crise do petróleo de 1973. São ideias que podem agradar ambos os espetros políticos, porque estão ancoradas em um bom senso razoável que perdemos há algum tempo e desesperadamente precisamos resgatar.

Portanto, as ideias defendidas na proposta de Ciro não se encaixam nos conceitos distorcidos e ultrapassados que estamos acostumados a ouvir no Brasil ultimamente. São ideias de uma centro-esquerda moderna, de um trabalhismo revigorado que percebe que o problema do capitalismo atual é justamente a ausência de capitalismo produtivo.

Especulação financeira não produz nada, somente desigualdade e concentração de renda. A luta por um sistema mais justo que priorize quem produz e quem trabalha deve ser compreendida por todos como um ideal a ser atingido.

Percebemos que as acusações rasteiras a Ciro Gomes são feitas devido à completa falta de críticas às propostas concretas e baseadas no bom senso que a campanha do Ciro tem apresentado. Foquemos, então, na discussão dessas propostas, pois a maioria delas tem grandes chances de virarem consenso na sociedade brasileira.

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