Ciro Gomes decreta: o tempo dos políticos messiânicos terminou


Texto de Daniel Soares, Cientista Social pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo.

A cada oportunidade que Ciro tem de discursar sobre suas propostas de governo fica mais evidente quantas melhorias os governos anteriores poderiam ter promovido no país e não o fizeram. Isso graças, é claro, à hesitação (por vezes interessada e por vezes estratégica) de governantes subordinados aos interesses escusos de setores influentes da elite. Um indício disso foi a explanação de Ciro, em sabatina recente, quando foi questionado sobre qual seria sua prioridade entre todas as medidas que já anunciou, ao que respondeu: “existe uma lenda – propagada pelos governantes interessados em travar a agenda de melhorias na vida do povo – de que precisamos propor e discutir um projeto de cada vez, com longos intervalos entre cada um”. Ele esclarece que esta crença não se justifica. Ciro afirma que irá enviar ao congresso diversas pautas simultaneamente, em especial em seus seis primeiros meses. Isso significa que reforma tributária, revogações da PEC do teto e da reforma trabalhista, desmantelamento do cartel dos bancos, etc., tudo será discutido imediatamente após o início de suas atividades enquanto presidente.

Esse ritmo de governo proposto por Ciro já desde o início nos faz perceber a irracional estagnação à qual fomos submetidos nos últimos governos. As gestões do usurpador Temer e de FHC impediram o Estado, deliberadamente, de distribuir renda e de diminuir a desigualdade (no caso do primeiro, o fez retroceder vertiginosamente nesta questão). E isso não se deu por falta de verba ou por restrições parlamentares, mas sim devido a um projeto de país pré-estabelecido e acordado com as classes mais abastadas, no intuito de preservar o status quo indefinidamente – na disputa eleitoral deste ano, Jair e Alckmin se enquadram neste mesmo perfil. Os governos Lula e Dilma, por sua vez, tiraram milhões da linha da miséria e fizeram com que o Brasil se emancipasse do vergonhoso mapa da fome. No entanto, a conciliação de classes que ambos buscaram promover a todo momento não lhes permitiram avançar estruturalmente na luta contra a pobreza – prova disso foi que Temer conseguiu, em pouco tempo, destruir quase tudo que fora por eles construído. Afinal, muitos de seus aliados pertenciam às esferas financeiras superiores e não admitiriam alterações estruturais que diminuíssem um centavo sequer de sua lucratividade. Até mesmo os programas sociais de cunho emergencial promovidos pelo PT não ficaram de graça, pois as mesmas elites que autorizaram a viabilização dos mesmos num primeiro momento cobraram a conta destas medidas depois através da construção da nauseante narrativa de que os governos do PT gastaram demais com um assistencialismo populista de segunda categoria, e de que agora devemos pagar a conta da gastança silenciando perante as restrições dos direitos trabalhistas e do escandaloso teto dos gastos, entre outras medidas de pérfida austeridade.

Este, ao que tudo indica, é o momento ideal para abandonar a visão messiânica da política no Brasil, que nos leva a escolher candidatos por sua aura de liderança, sua história vitoriosa, ou por seu jeitão de salvador milagroso. Já passamos da hora de racionalizar o processo eleitoral e colocar a capacidade técnica à frente de características abstratas e metafísicas na distinção entre nossas opções. Ciro Gomes é o único candidato que explica de maneira clara e acessível por quais caminhos logrará as mudanças que deseja perpetrar. E não são alterações superficiais, como já vimos acontecer. São medidas que afetarão radicalmente a estrutura do Estado brasileiro, como a reforma tributária, por exemplo, dado que esta diminuirá a carga de gastos dos mais pobres (através de uma taxação progressiva sobre a renda e da redução de impostos sobre o consumo) e aumentará significativamente os tributos sobre herança, grandes fortunas e sobre lucros e dividendos. Com Ciro, o Estado servirá ao povo prioritariamente, e não mais ouviremos a velha lenda de que o governo deve economizar com gastos públicos para pagar suas dívidas com rentistas. E ele já mostrou que com a efetivação destas reformas haverá verba mais que suficiente para financiar as melhorias que a população precisa.

As políticas de Ciro representam avanços cujas consequências benéficas as ciências humanas já haviam demonstrado há muito tempo, mas que, no Brasil, sempre foram evitadas devido à influência irresistível dos mais ricos sobre a classe política. O projeto de país das classes abastadas sempre foi conservar os privilégios, modernizando apenas o que se torna insustentável manter, mas sempre de maneira a preservar suas vantagens sobre as classes mais pobres. Desde a abolição da escravatura – que foi liberada pelas elites num momento em que a insatisfação popular com os abusos do poder imperial já levava a sociedade a discutir seriamente a implementação de uma reforma agrária de baixo para cima – até o golpe em 64 – que surgiu numa época em que se percebia a insatisfação geral com as instituições democráticas e se via por todo lado a necessidade de avançar com reformas estruturais em benefício do povo – as elites se colocaram no papel de tutelar as mudanças mais drásticas na sociedade brasileira e tomaram a frente dos acontecimentos, garantindo sempre uma modernização conservadora que resguardasse seus interesses.

É chegada a hora em que devemos nos emancipar da tutela dos endinheirados e façamos reformas estruturais que não mais possam ser desmanteladas por qualquer aventureiro que surja no planalto. Não deixemos que as teorias mais avançadas das ciências sociais (que evidenciam a possibilidade de fazer um governo que realmente irá mudar a vida do povo para melhor) sejam preteridas em nome dos interesses obscuros de poucos. Ciro possui o conhecimento e a disposição necessários para desenvolver o país econômica e socialmente. Como Marx outrora afirmou, existem momentos em que “a situação torna impossível qualquer retrocesso, e na qual as próprias condições gritam: Hic Rhodus, Hic salta! (Aqui está Rodes, salte)”, ou seja, todas as condições estão favoráveis, agora é o momento de mostrarmos o que podemos fazer para levar a frente o almejado projeto de país mais igual e menos hostil aos pobres. E se, mesmo assim, as histórias do candidato e do partido forem de fato algo relevante para que façamos nossa escolha, basta lembrar que Ciro é herdeiro político do trabalhismo, vertente que tem como seus maiores expoentes ninguém menos que Getúlio Vargas e Leonel Brizola. Em 2002, quando Ciro era candidato a presidente pela coligação PDT-PTB-PPS, Brizola acreditava que uma eventual vitória de Ciro representaria a volta por cima do trabalhismo. É com este legado histórico que Ciro está respaldado para a disputa também em 2018.

Todavia, sabemos que o tempo dos políticos salvadores com soluções mágicas chegou ao fim. E tanto o ritmo de governo quanto o conteúdo de suas ações políticas mostram que Ciro Gomes pode finalmente trazer ao Brasil as reformas de que precisamos para superar o subdesenvolvimento social e econômico, assumindo assim todo o potencial que temos para ocupar a posição de destaque que nos é devida no cenário internacional. Foi-se o tempo do messianismo na política; é chegado o momento de votar Ciro 12 para presidente.

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