Ciro e a fogueira das vaidades


Por Daniel Soares e Gabriel Valentim.

Quando a consciência de um homem não está à venda, não há negócio no mundo que lhe demova de seus princípios.

Nesta reta final das eleições, vemos muitos petistas e até mesmo alguns eleitores do Ciro conclamando, em nome da democracia e da manutenção das liberdades individuais, o tal “apoio enfático” de Ciro a Haddad no apocalíptico segundo turno contra o fascista Bozonaro. Na iminência da derrota, o PT se agita na urgência de construir uma narrativa que apague a responsabilidade histórica que, inevitavelmente, lhes será atribuída ao fim do pleito. A teimosia de Lula, afinal, ao articular a manutenção de sua própria figura como grande protagonista das esquerdas brasileiras a qualquer custo – em detrimento dos claros indícios de um antipetismo galopante – será fatal para milhões de brasileiros. Ciro, contudo, permanece sereno e calculista. Como todos os brasileiros realmente patriotas ele também teme pela democracia num provável governo de Bozonaro, mas sabe igualmente que sua atuação militante junto ao PT não faria diferença alguma na atual conjuntura.

Mais do que irrelevante, o desejado apoio enfático seria incoerente, dado todo o esforço do PT em minar a candidatura de Ciro no primeiro turno. Figuras de destaque, inclusive, algumas de trajetória inquestionável (como é o caso do rapper Mano Brown), têm chamado a atenção para a perda de tato do PT no trato com o povo e para o afastamento do partido de suas tradicionais bases populares; a saber, os trabalhadores de baixa renda. Mas parece que argumento algum poderá conscientizar a militância ou a diretoria petista, já que a reação a todas as criticas tem sido de contrariedade e revolta. Podemos concluir então que, ao que tudo indica, o PT sacrificará tudo e a todos no intuito de conservar, até o fim, seu status de representante dos pobres perante o eleitorado. Sendo assim, vale mesmo a pena inflar o capital politico do partido neste momento, levando ao palanque a liderança de centro-esquerda mais promissora do país? Arriscar afundar Ciro juntamente com o enfraquecimento gradativo do PT seria uma escolha inteligente agora? Não podemos esquecer que o declínio do mesmo teve início a partir dos próprios erros de sua liderança. Portanto, Ciro deveria mesmo atrelar sua prestigiada imagem à deste cambaleante e supremacista partido?

A realidade é que uma vitória do PT a essa altura já é claramente improvável, e sua turma agora procura um bode expiatório para culpar pela eleição do fascista Bozonaro. Pressionando Ciro para se manifestar a favor de Haddad em nome da democracia querem dar a entender que a vitória do petista depende de Ciro, e caso ele não se subordine ao PT estará sendo, segundo essa falsa narrativa, orgulhoso e mesquinho. Entretanto, sabemos perfeitamente que esta tentativa de focalizar no PT a luta contra o fascismo não se sustenta, dado que sua liderança manifestou desde o início a vontade de ir ao segundo turno com Bozonaro (acreditando que assim seria mais fácil vencer). E Ciro, apesar de muitos ignorarem, já se pronunciou logo após o primeiro turno; contra o fascismo, afirmando “ele não”, condenando a ditadura e exaltando a democracia. Qualquer outra declaração de Ciro agora poderia até ser útil para fazer coro com a rejeição ao Bozonaro, mas não seria, de maneira alguma, decisiva para a resolução das eleições como querem nos fazer acreditar alguns. Entretanto, a facilidade que a esquerda tem de comprar este argumento infelizmente está ligada à racionalidade petista que ainda permanece entranhada no imaginário das pessoas progressistas no Brasil. Basta um discurso inflamado das lideranças que vemos uma legião de seguidores ressurgindo em defesa do partido. Todavia, para todos os efeitos, Ciro sinaliza que reafirmará sua posição antifascista em breve. Resta-nos aguardar sua posição e guardar a certeza de que esta pressão petista não passa de uma tentativa falaciosa de construir uma narrativa que lhe livrará de toda a carga histórica em suas costas.

Ciro é uma liderança experiente. Sabe que estas eleições estão em vias de conclusão (desafortunadamente para o lado do fascismo) e espera o momento ideal para tomar a dianteira da oposição contra o fascista e demonstrar empiricamente, no dia-a-dia, como o projeto neoliberal aplicado num ambiente recessivo, tal como ele repetidamente explicou em campanha, é destrutivo para a população brasileira. Seu projeto nacional de desenvolvimento será crescentemente apresentado como o contraponto do projeto elitista de Bozo e preparará o terreno para a candidatura Ciro 2022. Por outro lado, se o pior acontecer, o Bozo honrar sua natureza autoritária e derrubar as instituições, aplicando um novo golpe, estaremos com Ciro buscando a restituição das liberdades. Seja na claridade da democracia, seja na escuridão da ditadura, seremos incansáveis na luta por um país mais igual.

2 Comentários

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    Marcel Palmeira

    Declarar voto contra o fascismo é uma obrigação moral. Não deve mesmo subir em palanque do PT, mas não precisa fazer isto. Mas não declarar voto pela democracia, mesmo que num batalha improvável vai pesar em sua história. É fácil ver que nunca fui eleitor do pt e fiz campanha aberta por Ciro, por acreditar que seu projeto era de longe o melhor para o país. Mas nesse momento seu posicionamento pesara deveras.

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      Daniel Soares

      Sinto muito se você ja aderiu à narrativa petista de que Ciro não manifestou seu voto ou que não afirmou sua repulsão ao fascista.
      Afinal foi amplamente noticiado quando Ciro, juntamente ao PDT, anunciou voto crítico em Haddad. Em seguida, recentemente, divulgou vídeo contra Bozo e o fascismo. O que mais você quer? Você disse que não é palanque, então o que é?

      Eu entendo que você esteja dizendo isso devido à grande máquina de divulgação petista que está tentando forjar um não posicionamento de Ciro, mas saiba que dizer isso é pura desonestidade intelectual.

      A única coisa que Ciro vai levar pra história é a coerência e a coragem de defender um projeto pró pobre e de confrontamento com os interesses das elites até o fim.

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