Ciro e a disputa eleitoral em duas frentes: confrontando o fascismo e debatendo o progressismo


Desde o início já sabíamos o quão complexa esta batalha seria. E embora diversos especialistas tivessem afirmado num primeiro momento que Ciro Gomes estaria fora da briga para vencer as eleições, ele permanece com grandes chances de ir ao segundo turno e de derrotar gloriosamente o candidato fascista no dia 28 de outubro. Contudo, as circunstâncias nos levam a lutar em duas frentes: por um lado contra a ascensão do fascismo promovida pela descrença nos políticos e nas instituições, e por outro através do diálogo com o campo progressista, desafiando a máquina colossal de propaganda e militância petista para provar que o projeto de Ciro é superior.

Frente Antifascista

Com os primeiros nossas divergências são morais e ideológicas. Jamais se deve brincar com o risco do fascismo. Sua origem se dá nesta revolta conservadora contra tudo aquilo que vai contra os costumes tradicionais, que despreza as diferenças e oprime as minorias com seu discurso autoritário e violento, que anseia por governar para poucos sem a ladainha da democracia, na qual se precisa discutir projetos, explicar ideias e governar para todos. Se não cortamos o fascismo pela raiz, quando menos se espera as liberdades já foram tolhidas e o estado democrático de direito, extinto.

Nas eleições de 1932, o povo alemão era ameaçado pelos mesmos sintomas que agora nos acometem. A esquerda socialdemocrata e os comunistas, no entanto, repudiaram a possibilidade de uma aliança antifascista para impedir a tragédia nazista. Os socialdemocratas acreditavam que os comunistas eram tão autoritários quanto os fascistas enquanto os comunistas classificavam os socialdemocratas como “ala esquerda do fascismo”. No fim, os nazistas chegaram ao poder por meios legais, ou seja, através das eleições presidenciais. Quando isso ocorreu, ambas as vertentes da esquerda foram postas na ilegalidade, e ainda assim seus representantes não cessaram os ataques uns aos outros – em março de 1933, um documento da Internacional Comunista afirmava: “a calma atual que se seguiu à vitória do fascismo é apenas um fenômeno transitório. O ascenso revolucionário na Alemanha crescerá inevitavelmente, apesar do terror fascista (…). A instalação da ditadura fascista aberta, destruindo todas ilusões democráticas das massas e libertando-as da influência socialdemocrata, acelera o ritmo do desenvolvimento da Alemanha em direção à revolução proletária”.

Seus adeptos foram caçados, torturados e assassinados sistematicamente até que caíssem na real e fizessem uma autocrítica. Mas quando o fizeram já era tarde demais. O parlamento fora fechado e Hitler já tinha plenos poderes para ordenar o extermínio de seis milhões de judeus. A esquerda, por amor à pureza de seus próprios projetos e pontos de vista, pelo comprometimento com a hegemonia de seus partidos, pela liderança e tutela do objetivo de transformar a sociedade, morreram abraçadas, se estapeando, e sem luta.

Não digo que, com a eleição do candidato fascista no Brasil, haverá um novo genocídio – apesar de que esta possibilidade jamais pode ser descartada, com o risco de sermos pegos de calças curtas. No campo econômico, o que provavelmente ocorrerá será um aumento elevado de tributos sobre os mais pobres acompanhado por mecanismos que facilitarão a acumulação bruta das elites. Tais medidas devem precarizar a vida da população pobre e da classe média (esta mesma que clama o nome do candidato tal como uma barata que idolatra o inseticida). Já as relações sociais serão tensionadas pelo empoderamento dos indivíduos intolerantes, que se sentirão fortes o suficiente para ofender, bater ou matar como bem entenderem. A polícia se sentirá autorizada a executar antes do cometimento do crime, baseada no julgamento pela cor e local de habitação – lembrando que quando a extrema-direita foi eleita na Alemanha, um de seus primeiros comunicados foi uma declaração informando que os policiais que disparassem contra elementos suspeitos no cumprimento de seu dever teriam todo o apoio do governo, o que, a propósito, é uma das principais demandas do candidato fascista para melhorar a segurança pública.

Isso dado, podemos concluir que este é o momento de escolher a melhor estratégia para travar a ascensão fascista e nela persistir até o fim. Ciro é o único candidato que vence o fascista no segundo turno e isso todos já sabem. O candidato a vice do lado do ódio já assumiu a possibilidade de aplicar um golpe em seu próprio cabeça de chapa se as circunstâncias, a seu ver, assim pedirem. Ou seja, a simples presença de um general militar no planalto por si só já eleva consideravelmente o risco de um novo golpe militar, com todas as práticas criminosas e assassinas que este envolve. Não podemos cometer o mesmo erro das esquerdas alemãs. A história não serve apenas para satisfazer nossa sede de conhecimento, mas para ser analisada e instrumentalizada a fim de não repetirmos os mesmos equívocos do passado. Faz-se crucial uma união para firmar a estratégia de levar Ciro Gomes ao segundo turno para evitar, na pior das hipóteses, a derrocada da democracia.

Frente de debate com progressistas

Na outra frente da disputa temos o PT. Nossas divergências para com os petistas são mais políticas que ideológicas. Afinal, o PT foi responsável por diversos avanços sociais no Brasil na década passada, e por isso a população pobre guarda pelo partido, mais especialmente por seu líder, Lula, imenso carinho e fiel apoio. Uma fidelidade que, a propósito, pode ser justificada por políticas públicas efetivas de combate à pobreza que finalmente retiraram o Brasil do vergonhoso mapa da fome da ONU, em 2013. Entretanto, tais feitos acompanharam o desmantelamento do setor produtivo e a afirmação da soberania do capital financeiro no país, ou seja, de lá para cá o desemprego na indústria e no setor de serviços e o enriquecimento dos rentistas só aumentaram. O resultado disso foi a contradição simbolizada pela redução da pobreza com a elevação da desigualdade.

Necessário pontuar que este modelo de conciliação de interesses entre capital financeiro e diminuição da pobreza só funcionou por conta da situação econômica daquela década. Devido ao crescimento voraz da indústria chinesa, que absorvia a oferta de commodities brasileiras, e ao descobrimento dos novos campos de extração de petróleo, juntamente à recepção dos maiores eventos esportivos do planeta, o país atraía pesados investimentos estrangeiros. As contas estavam predominantemente no azul.

Entretanto, as circunstâncias de agora já não são tão positivas. Existe um rombo de, aproximadamente, 15 bilhões de reais nas contas do governo, e uma dívida pública que consome cada vez mais o orçamento da união. As elites querem nos fazer acreditar que o rombo é responsabilidade da gastança com programas sociais, mas isso é comprovadamente falso. O déficit advém dos gastos do governo com rolagem de dívida, do pagamento de juros aos rentistas e da austeridade praticada por Dilma (no segundo mandato) e Temer, que cortaram investimentos em setores estratégicos de produção e limitaram o acesso da população ao consumo. Para piorar, treze milhões de desempregados amargam a incerteza sobre seu futuro, um milhão de pessoas aguardam para realizar cirurgia de emergência no SUS, ocupamos o penúltimo lugar no ranking de educação da Unesco, temos um déficit de quase 8 milhões de moradias, e Temer fez passar uma medida que impede que o país invista em todas estas áreas por 20 anos! Como se não fosse suficiente, as condições de trabalho foram imensamente precarizadas pela reforma trabalhista do usurpador.

Por todos estes motivos, o modelo lulista de governo não logrará dar prosseguimento aos avanços sociais e econômicos de que o pais necessita. Não há verba para alimentar o mercado financeiro (nas proporções astronômicas em que se encontra) e melhorar os serviços públicos simultaneamente. E o PT não propõe desafiar esta conjuntura, muito pelo contrário, o partido está avaliando recrutar figuras notavelmente reacionárias para seu staff econômico. Ademais, já selaram alianças com o PMDB, o partido do golpe, em vários estados – destaque para o apoio de Haddad a Eunício Oliveira, notável defensor do ‘golpeachment’ – demonstrando que, hoje, sua política de coligações supera qualquer objetivo ideológico. Sem contar a obsessão do PT pelo poder, que o faz atropelar qualquer aliado – por mais fiel que este lhe seja – e engendrar as mais pérfidas articulações no intuito de concentrar em si o protagonismo entre as lideranças da centro-esquerda.

Mas o erro mais grotesco estava reservado para estas eleições, quando o partido resolveu, num momento tão grave, jogar dados com o eleitorado brasileiro. Esperaram até os 47 do segundo tempo para lançar sua candidatura oficial, e assim dividiram perigosamente as forças progressistas. Tudo indicava, portanto, que deveriam ter apoiado o candidato aliado que, além de possuir a menor taxa de rejeição, era entre todos o mais preparado: Ciro Gomes. Porém, ao que parece, pouco importa ao PT, atualmente, o destino da nação desde que ele mesmo o protagonize. Para eles, se a tutela do desenvolvimento social não ocorrer sob a batuta petista, não vale a pena. Melhor seria deixar o povo sangrar e se revoltar – à semelhança do silêncio da militância petista perante o governo Temer – para então, daqui a quatro anos, suplicar socorro ao pai dos pobres novamente. Assim o PT ressurgiria triunfante para ganhar o poder e governar em prol dos bancos, fazendo pequenas concessões aos miseráveis mas preservando o status quo vigente.

Quando foi que passamos a aceitar que um partido se afirmasse como protagonista único do nosso sonho de ter um país mais igualitário? E quando começamos a consentir com a tutela soberana deste sobre objetivos tão grandiosos? Está claro que o PT já não comporta os sonhos da esquerda para o futuro da nação. Que precisamos, a partir de já, começar a considerar antes os projetos que as personalidades. Não precisamos ser, como acreditam os petistas religiosos, prisioneiros das limitações que eles nos impõem em nome da governabilidade, e nem precisamos nos submeter ao seu gigantesco eleitorado. Afinal, seu eleitorado só é tão grande porque é reforçado por todos aqueles que têm esperança de uma sociedade mais justa. Os eleitores realmente fiéis do PT compõem um número ínfimo na proporção da população brasileira. Se nos propusermos, entretanto, a refletir um pouco mais, veremos que agora há uma outra opção. Uma alternativa que se propõe a alterar as estruturas destas condições que esmagam o povo. Esta alternativa é Ciro Gomes.

Para quem não deseja extremos, a via alternativa

Ciro tenciona revogar o teto dos gastos sumariamente, cancelar os retrocessos contidos na reforma trabalhista, recolocar o Estado no papel essencial de planejador e investidor estratégico na economia nacional, retomar o predomínio sobre os campos do pré-sal e o controle da Embraer, restaurar o setor produtivo, reformar a infraestrutura – e desta forma criar 2 milhões de empregos apenas em seu primeiro ano de governo –, desafiar os lucros vergonhosos dos rentistas fazendo baixar juros, reformar a educação aplicando período integral com diversas atividades extracurriculares, entre outras medidas. Ninguém conhece, no momento, tão bem o caminho das pedras para governar o Brasil como o Ciro. E para tanto, faz-se crucial que seus apoiadores tomem a frente no debate político para confrontar o fanatismo fascista concomitantemente ao petista. Temos todas as armas da crítica para construir, em qualquer meio, a vitória de Ciro Gomes em 2018.

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