Chamar Ciro de “coroné” é preconceito contra nordestinos


Muita gente deve lembrar do caso da estudante de direito que logo após a vitória de Dilma nas eleições de 2010, twittou: “Nordestisto [sic] não é gente, faça um favor a Sp, mate um nordestino afogado!”.

Se essa pessoa havia faltado às aulas de direito penal na faculdade, a Justiça Federal de São Paulo fez por bem ensiná-la lição. Em 2012, a estudante foi condenada pelo crime de praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito de procedência nacional, punível com reclusão de um a três anos e multa (art. 20 da Lei nº 7.716/1989).

Pior do que o ódio na internet, talvez seja a ignorância reinante, terreno fértil para disseminação de desinformação. Em 2010, Dilma também havia vencido no Sudeste, Centro-Oeste, Norte… Mas, mesmo que não tivesse vencido, e daí? Por que culpar o Nordeste? Talvez seja dificuldade de conviver em um regime democrático (além, é claro, de preconceito enraizado).

Esse não é um artigo para falar de Dilma ou de preferências políticas. Por mais que eu tenha reprovado sua gestão enquanto presidenta, uma verdade é inegável: Dilma foi alvo de grave preconceito pelo simples fato de ser mulher. Insultos foram frequentemente desferidos contra ela, em clara misoginia, a pretexto de seu temperamento.

Preconceito semelhante ocorre com Ciro Gomes, porém, em razão de sua procedência. Seu temperamento (ou indignação, como ele prefere) passaria despercebido pelos preconceituosos, não fosse sua ligação com o Nordeste.

>Pelo simples fato de ser praticamente nordestino, tendo crescido na cidade de Sobral, interior do Ceará, e lá iniciado carreira política, Ciro é pejorativamente taxado de “coroné”.

Aí você questiona as pessoas que chamam ele de “coroné”, e não aparece nenhuma justificativa plausível. Alguns falam do seu temperamento esquentado. Outros mencionam um suposto machismo (sempre baseados em deturpações da imprensa, diga-se). Há também quem aponte uma hegemonia de seus familiares no Ceará.

Pois bem, mesmo que verdade, nada disso torna Ciro coronel.
O coronelismo foi um fenômeno notoriamente nordestino, pois encontrou na miséria e no abandono do estado as condições propícias para o seu florescimento. A propriedade de terras permitia aos coronéis exercerem influência na região, fraudando as eleições locais e subjugando a precária estrutura de poder.

Ao olhar para Sobral, percebe-se que a cidade está bastante longe de ser um feudo de coronelismo. O município é relativamente grande (205 mil habitantes), conta com a melhor educação básica do Brasil de acordo com o Ideb, e bons indicadores socioeconômicos (IDHM de 0,714, próximo à média nacional).

Por outro lado, até onde se sabe, Ciro e seus irmãos não possuem atributos que poderiam aproximá-los de coronéis: não são senhores de terra, não são donos de meios de comunicação no Ceará, nunca fraudaram eleições ou coagiram eleitores. Os indicadores de desenvolvimento apontam uma melhora considerável do Ceará nas últimas décadas, especialmente em Sobral. Por mais que se queira criminalizar a política hoje em dia, ter familiares na política ainda não é crime.

Pergunta-se: onde já se viu uma cidade alvo de coronelismo onde a educação básica é a melhor do Brasil? Onde já se viu um coronel que recusou 3 aposentadorias que tinha direito e que poderiam render-lhe 86 mil reais por mês? Onde já se viu um coronel que nunca foi investigado por suspeitas de corrupção em seus 38 anos de vida pública?

A gestão de Ciro Gomes e seu aliado Tasso Jereissati foram elogiadas até mesmo em coluna recente da Folha de S. Paulo, justamente por varrer coronéis: “os dois fizeram uma limpa no horrível atraso do governo do Ceará, então dominado até o último contínuo por apaniguados de coronéis. Fez administração razoável e muito bem avaliada pela população”.

Não surpreende que ataques com a pecha “coroné” partam da direita reacionária. Entretanto, o que entristece é ver militantes da esquerda, pessoas ditas progressistas, esclarecidas, formadas nas melhores faculdades, utilizando adjetivo tão lastimável.

Os coronéis não eram chamados de coronéis em razão do seu temperamento.
Não havendo nada que possa ligar Ciro ao coronelismo, chamá-lo de coronel é flagrante preconceito contra os nordestinos.

Ciro Gomes sobre o coronelismo no Roda Viva (1991)

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