Uma só centelha pode iniciar um incêndio na pradaria


Por Caio Gontijo (Equipe VPM)

As forças remanescentes são muito pequenas, e aqueles camaradas que só julgam pelas aparências naturalmente se sentem pessimistas. Se, porém, nos ativermos ao essencial, a história é outra. Aqui é possível aplicar o velho ditado chinês: “Uma só centelha pode iniciar um incêndio na pradaria”. (MAO, 2007, p. 42).

2018: A CENTELHA NA PRADARIA

Os protestos difusos 2013 acabaram “gerando” um momento populista, no qual se favoreceu a Bolsonaro. A ‘constelação’ política brasileira continha apenas duas gigantescas galáxias cujas gravidades forçavam todo o resto a orbitar ao seu redor: o PT e o PSDB; e uma menção desonrosa ao ‘cometa periódico’ PMDB, transitando entre as duas como que para espalhar com sua enorme cauda, em todo o universo político, figuras tão antigas quanto ele próprio e cuja química compôs a sopa primordial da corrupção e captura do Estado desde a redemocratização.

A partir de 2013, como disse Mao, “tudo sob o céu está mergulhado no caos” e, enquanto a situação (como para Mao, que a exaltava nas vésperas de sua revolução) poderia ter sido “excelente”, para nós, ela se desenvolveu de maneira desastrosa.

Meses antes das eleições de 2018, ninguém acreditava na possibilidade da vitória de Bolsonaro. Era apenas uma figura caricata, marginal, embora com bastante energia, o que ocasionava que se incandescesse em seus próprios discursos, repletos de bravatas e obscenidades. O que não se percebeu, contudo, é que essa própria incandescência se dava num ambiente absolutamente inflamável, e por isso era como uma centelha na pradaria.

2022: SENTIDO DE ‘ORDEM’

A história não cessou aí, felizmente. A situação segue inflamável. Assim como há movimentos e contra-movimentos na luta política, um mesmo movimento tem condições de gerar o seu contrário nesta situação. Como já sabemos, o “contrário” só é contrário se igual em todos os outros elementos exceto em um: no que se nota uma legítima contradição.

Disso se retém que:

1) O caos nos céus e ‘sob’ os céus ainda existe; ao chocar-se contra o PT, o PMDB liberou uma energia cujo tamanho ainda era desconhecido às forças políticas e que acabou obliterando, ainda que não totalmente, a si mesmo, ao PT e ao PSDB.

2) Ainda que cada uma dessas forças ache seus homens fortes para 2022 em Lula, Doria etc. Nunca há mera ‘volta’ ao tempo. O momento eleitoral sempre ‘acelera’ o tempo em direção a um arranjo futuro. O momento presente, de permanente caos sob o trauma coletivo que tem sido o governo Bolsonaro, demandará, sobretudo, um sentido de ‘ordem’.

Esse sentido de ordem se traduz na ‘amanualidade’ da vida cotidiana em questões muito simples: emprego, endividamento (desde famílias às empresas), segurança, e sobretudo saúde (desde a urgência da vacina à saúde mental).

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