Carta aos progressistas: Por que vale a pena apostar em Ciro Gomes


A responsabilidade de todos nós na escolha do representante progressista das eleições em 2018

Texto de Daniel Soares, Cientista Social pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo.

O crescimento de Ciro Gomes nas pesquisas neste momento crucial da corrida eleitoral coloca sobre o campo progressista brasileiro uma grave responsabilidade histórica. O argumento de alguns, de que o voto em Ciro seria voto perdido devido à sua antes baixa porcentagem de intenção de votos, já não se sustenta mais.

De acordo com a última pesquisa, Ciro figura em segundo lugar nas intenções de voto, ficando atrás apenas de Bolsonaro no primeiro turno. No segundo turno, entretanto, a mesma pesquisa mostra uma provável vitória de Ciro sobre o candidato fascista. Por outro lado, Haddad, do PT (o outro candidato da centro-esquerda que possui alguma significância nas pesquisas), permanece entre os últimos lugares, empatado tecnicamente com o nanico João Amoedo, do Novo, e mesmo quando apresentado como candidato do ex-presidente Lula, o resultado não o coloca numa posição confortável, já que a risível transferência de votos de Lula para ele numa eventual desistência do mesmo faz Haddad empatar tecnicamente com Ciro em segundo lugar. Portanto, abaixo elencamos alguns dos motivos pelos quais vale a pena apoiar Ciro desta vez ao invés de reforçar mais uma aposta cega dos petistas.

Como bem sabemos, o antipetismo cresceu muito nos últimos anos – principalmente entre a classe média – devido aos programas de acesso ao consumo pela população mais pobre, aos escândalos de corrupção, ao suposto intervencionismo estatal e a um questionável descuido com as contas públicas. Quando podia priorizar as pautas sociais (numa época em que ainda possuía apoio popular), o PT hesitou.

Quando foi confrontado pelas forças mais reacionárias do país, poderia ter chamado suas bases populares à luta, mas buscou agradar seus opositores acreditando ingenuamente que a divergência se dava apenas por demandas e não pela manifestação da eterna luta de classes. O início da crise econômica que vivemos hoje, inclusive, teve início nas mãos da ex-presidenta Dilma, que abriu caminho ao neoliberalismo mais selvagem na esperança de recuperar seu apoio.

Ironicamente, honrando a memória de Hegel, os petistas introjetaram no próprio partido a sua antítese, o gérmen da destruição de seu governo, a saber, o PMDB. A continuidade desta crise veio pelo vice escolhido a dedo por Lula, que claramente representava um projeto de país totalmente oposto ao que o maior líder da esquerda propunha. Um risco que se assumiu pela esperança de governabilidade. No fim, a governabilidade não veio e o governo se foi.

Haddad sofreu na pele as consequências do antipetismo quando disputou a reeleição da prefeitura de São Paulo. Perdeu de lavada no primeiro turno, mostrando que a força política do PT diminuíra consideravelmente. Além disso, as últimas pesquisas mostraram que Haddad é o único candidato que perderia para Bolsonaro num eventual segundo turno.

Sua rejeição em São Paulo é reforçada pelo antipetismo nacional, e sua falta de carisma e comunicação demasiado técnica afastam o eleitorado comum (sem filiação ou preferência ideológica). Não têm sido poucos os esforços dos petistas para alçá-lo ao posto de sucessor de Lula mas, ao que parece, quanto mais se tenta mais artificial essa tentativa de transferência fica.

Está claro que Haddad não tem o perfil de líder popular que querem lhe atribuir. Pior que isso é a esquerda festiva comemorando a possibilidade de “finalmente termos um presidente gato”, evidenciando mais que nunca sua despreocupação com o futuro de milhões de brasileiros que está em jogo nestas eleições, em especial o dos mais pobres.

O PT já deixou claro que seu projeto é, acima de tudo, prolongar sua hegemonia como principal partido de esquerda no país, não importando a quem for ferir no processo. Mostraram isso quando atacaram Ciro Gomes – ideologicamente alinhado com a esquerda –, por diversas vezes, declarando que uma aliança com o mesmo estava descartada, quando Lula articulou com o PSB para que o partido não apoiasse Ciro em troca de uma aliança com o PT no Ceará, e também com as várias alianças regionais que recentemente firmaram com o PMDB (o mesmo partido que perpetrou o golpe) – lembrando que Haddad, na última sexta-feira (31/08), posou ao lado Eunício Oliveira, cujo voto foi a favor do impeachment, em apoio à sua candidatura para o senado.

O problema é que o PT cresceu tanto que agora sofre a “síndrome de Darth Plagueis” (alerta de referência geek), ou seja, tudo o que mais teme é perder sua influência e prestígio. O projeto de fazer do Brasil um país menos desigual e de fazer o povo voltar sorrir ficou em segundo plano, subordinado ao objetivo principal de manter o partido e seu líder Lula como os guias e referências supremas para todos aqueles que se identificam com o progressismo. A supremacia tornou-se para eles um fim em si mesmo.

Ciro Gomes, portanto, apresenta-se como o candidato do anti-fascismo por excelência. E nestes tempos de ascensão das forças reacionárias não é prudente subestimar este conservadorismo que, em todo o planeta, tem combatido ferozmente os avanços sociais promovidos pela esquerda.

Trump está aí para provar; no início ele não passava de uma piada de mau gosto e agora comanda o país mais poderoso do mundo. Nas eleições de França e Alemanha a extrema direita também chegou perto demais da vitória. É preciso reagir com sabedoria e estratégia. O momento pede por uma ação conjunta contra o avanço do neoliberalismo devorador de direitos.

Ciro pode não contar com uma máquina gigantesca como o PT, mas suas propostas pró-povo e contra o capital financeiro estão muito mais à esquerda do que este partido jamais esteve (ao menos desde que se tornou governo, em 2002).

Ciro ultrapassou Marina Silva, da Rede, na disputa eleitoral e encontra-se em segundo lugar nas intenções de voto, sendo agora o favorito do campo progressista a ganhar as eleições. Este é o fato que a esquerda precisava para se unir sob o nome de Ciro Gomes para presidente em 2018.

A hesitação é natural, sabemos disso. Afinal tornamo-nos demasiadamente acostumados a focalizar no PT todas as nossas esperanças de um país mais justo socialmente. Porém, o partido se burocratizou, se apaixonou pelo poder e, claramente, falhou.

E a hesitação num momento tão grave como este pode nos custar caro demais, pois enquanto parte da esquerda ainda defende com unhas e dentes a posição do PT como seu representante único, Bolsonaro cresce, e Alckmin, que possui o maior tempo de televisão entre os candidatos, ainda tem boas chances de acompanhá-lo ao segundo turno.

Aproveitemos a ascensão de Ciro Gomes para organizar o devido contra-ataque contra as forças reacionárias que, já há um bom tempo, vêm arrebatando as conquistas históricas da esquerda brasileira.

3 Comentários

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    Marcelo Dorneles Coelho

    As ponderações têm muito fundamento. Apenas duas observações: 1) Ciro está empatado tecnicamente com Marina, e não a ultrapassou. A chegada dela no segundo turno, ainda que seja uma pessoa honesta e, acrescente-se, de trajetória admirável, não constitui uma alternativa positiva para os setores progressistas. Isso porque suas propostas são vagas, e, salvo melhor juízo, a tendência dela seria tentar formar uma espécie de governo de conciliação nacional, com muito poucas chances de se viabilizar. Além disto, obviamente, pesa contra a ex-ministra do Meio Ambiente o fator governabilidade, enquanto relação com o Congresso, em essência. 2) O candidato do PDT, que apresenta propostas consistentes, sim, e reúne condições para liderar uma experiência de centro-esquerda mais avançada do que foram as administrações petistas, deve sinalizar um pouco mais sobre os movimentos pretendidos visando a enfrentar a hegemonia conservadora e reacionária no Congresso Nacional. Logicamente, não é aconselhável detalhar de maneira profunda a estratégia nesta esfera, mas Ciro possui a inteligência e o preparo necessários para demonstrar que poderá fazer menos concessões do que o partido de Lula fez, e que se tornaram fatais, como bem aponta o texto.

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