Carta ao meu amigo liberal: Brasil, século XXI


Por AnaKurama

Caro amigo liberal,

Se você não nasceu herdeiro de uma fortuna minimamente milionária, esta carta é para você.

Deixe eu lhe dizer uma coisa: eu também sou liberal.

Sou liberal no sentido primitivo e absoluto da palavra. Defendo as liberdades individuais com a convicção e o devotamento de quem defende a própria existência.

Porque a noção da própria liberdade nos define enquanto seres humanos, enquanto seres racionais. E a defesa da liberdade alheia nos define enquanto seres sociais e civilizados.

Então, caro amigo liberal, eu defendo você. Eu defendo seu direito de existir, de pensar e de se expressar. Eu defendo seu direito de sentir, de querer e de realizar, afinal de contas, como você, eu também sou liberal, humana, civilizada.

E, por sermos ambos seres humanos livres e civilizados, eu escrevo para você sobre o Estado, essa invenção moderna que foi oferecida ao trabalhador sob o discurso de que todos nasceriam iguais em direitos e que o trabalho de cada um seria recompensado na medida de seus esforços. Em um mundo onde a concorrência é a força-motriz da economia, seres humanos disputam cada palmo da riqueza produzida e acumulada, seja em nome da liberdade, seja em nome de Deus ou da nação.

Caro amigo liberal, se você não nasceu herdeiro de uma fortuna minimamente milionária, em quais condições você acha que pode competir com outro ser humano que tenha nascido com acesso a tudo o que você jamais teve, até a recursos que você sequer imagina?

Que leis naturais da meritocracia existem no reino animal que expliquem a evolução das espécies? Tais leis são aplicáveis à realidade social civilizada?

É racional aceitar a lei da selva na corrida pela produtividade, pelo sucesso, pela satisfação das necessidades e dos desejos dos seres humanos individual e coletivamente, como o fio condutor de uma sociedade civilizada?

Caro amigo liberal, se você acredita na liberdade como o direito fundamental de um ser humano, como aquilo que o define como tal, como conceber o limite da liberdade numa lógica violentamente competitiva? Explico:

O limite da minha liberdade seria definido pela minha capacidade de ser violenta e pela minha vontade aplicada ou não no exercício dessa violência cada vez que eu pretender defender ou ampliar meu raio de liberdade. O campo da minha liberdade encontra o campo da sua liberdade e medimos forças para estebelecer o ponto de equilíbrio entre o meu espaço e o seu. Se você é mais fraco, se nasceu mais fraco, se por circunstâncias diversas se tornou mais fraco, você encolhe diante de mim e isso não me torna má: é a lei. É um movimento natural das forças no contexto da sobrevivência.

Se eu me uno a outro ser humano tão ou mais forte do que eu e geramos descendentes, nossos descendentes ocupam cada vez mais espaço a cada geração, uma vez que são mais fortes, e não há o menor problema nisso.

Em algum ponto no futuro, meus descendentes, munidos da liberdade duramente conquistada por seus ancestrais, mesmo em minoria numérica, tendem a ocupar mais espaço que o conjunto restante da humanidade, e não há o menor problema nisso.

Não há o menor problema em ser mais forte e usar dessa força sobre quem não a tem. É apenas mérito.

Meu caro amigo liberal, se por força, você entender poder, influência, dinheiro, bens, direitos, acesso a educação, a moradia, a saúde, a saneamento básico, a alimentação, perceba que a liberdade de todos e de cada um sobre um planeta finito e com recursos finitos possui um limite. Dentro de seus limites externos, há que se estabelecer limites internos, como num prédio dividido em vários apartamentos. Imaginemos que, se uma única família ocupar a maior parte dos apartamentos, todas as demais famílias terão que se apertar em poucos apartamentos, mais de uma família por cômodo, ou seja, muito mais gente espremida em muito menos espaço. Mas não há o menor problema nisso, pois afinal de contas, cada família merece o espaço que ocupa.

Merece? Por quê?

Por que uma única família merece mais do que todas as demais juntas? Com base em quais critérios? Seu status tem origem em qual mérito primordial? Qual mérito?

Mas sabe quem precisa demonstrar mérito todo o tempo, o tempo todo?

Você, meu amigo liberal que não nasceu herdeiro de uma fortuna minimamente milionária. E por que precisamos do Estado, afinal?

Na verdade, nem precisamos.

É perfeitamente possível que a lei da selva seja a lógica natural e eficiente na realidade social, mas o ser humano tem a mania incorrigível de corrigir a natureza das coisas.

Talvez o ser humano civilizado tenha encontrado no Estado uma ferramenta para ao menos tentar criar mecanismos de equilíbrio entre as forças naturais de distribuição da liberdade, de seu uso consciente ou inconsciente e de suas consequências.

Essa máquina de oprimir e reprimir pode até ter sua utilidade, obviamente, se bem calibrada e dirigida.

O problema nem está na máquina, em seu tamanho ou em seu funcionamento.

O problema talvez esteja em sua programação e na lógica em que ela opera, como se fosse uma uma questão de software, não de hardware.

Pensar o Estado como uma estrutura impessoal, objetiva e funcional pode tornar sua concepção menos assustadora. E isso é perfeitamente possível.

Pensar o Estado como uma máquina de correção de desigualdades é uma forma lógica de almejar um estado de bem-estar social compatível com uma sociedade civilizada e comprometida com o desenvolvimento sustentável.

Pensar o Estado como uma ferramenta de proteção das liberdades individuais sob a ótica da coletividade em harmonia com a proteção do meio ambiente é comprometer-se com a sobrevivências do planeta e das próximas gerações de seres humanos sobre sua superfície.

Meu caro amigo liberal, venho aqui lhe falar sobre o Estado, não porque eu o considere uma boa ideia, mas porque o considero um mal necessário, como um preço a ser pago por cada indivíduo livre pela garantia de um equilíbrio de forças que o proteja da violência em todas as suas manifestações, mas apenas e somente apenas no cumprimento estrito e eficaz de seu papel regulador e promotor do desenvolvimento econômico e social.

Meu caro amigo liberal que não nasceu herdeiro de uma fortuna minimamente milionária, desejo a você uma existência plena, uma vida feliz e repleta de realizações, saúde, paz e muito amor.

Caro liberal que nasceu herdeiro de uma fortuna mais que milionária, a propósito, espero que a humanidade finalmente encontre a cura de sua existência.

Com afeto,

Uma brasileira trabalhista.