Enquanto os cães ladram e comem, a caravana se cala


Por André Ribeiro, advogado

O país enfrenta sua maior crise econômica e certamente uma das maiores dificuldades políticas de sua história. É fato que o atual presidente da república vem apresentando as maiores e mais vorazes ações legislativas e administrativas para desmonte do que ainda resta do alicerce da construção de um estado soberano e de bem estar social.

A questão é: Por que a maioria da população não sabe disso? Antes de responder que a grande mídia não está publicando nada sobre essas pautas entreguistas, etc e tal, blá, blá, blá, é necessário fazer outra pergunta: Por que sequer o campo que se diz progressista está sabendo desses desmontes?

Como se não bastassem a venda das estatais, o esquartejamento da Petrobrás, a reforma da previdência, as futuras reformas administrativa e tributária, está na pauta urgente do congresso, a votação da independência do banco central e da securitização das dívidas, que entregará o comando da política cambial sem restrições aos bancos, além de uma espécie de penhora das contas públicas (já engessadas pela EC 95) para garantir antecipação do pagamento de dívidas. É a morte morrida da nação.

Acontece que essas pautas não são conhecidas sequer no campo que se diz progressista. Ao contrário, são até jocosamente ignoradas, entre outras razões – não apenas por elas – pela retomada irracional da luta nas redes sociais pelo posto de maior lacração, maior zoação, melhor recorte de trecho de discurso de tribuna, melhor “mitada”, maior chifre, melhor namoro de bastidores, maior coragem de contrapor absurdos verborrágicos “damarianos”, maior quantidade de peitos reunidos a contrapor tentativa de censura no carnaval. Ah, o melhor grito de xingamento no carnaval também entra na conta.

Não se trata de sair da “left” ou desmerecer grupos que tentam contrapor o governo ao seu modo, até porque no quesito conservadorismo, liberais verdadeiros e progressistas, embora em campos opostos na economia política, são defensores das liberdades individuais. Trata-se de reconhecer o que é prioritário como pauta para o grave momento em que vivemos.

Estamos sendo sequestrados do debate real! É preciso reconhecer que o presidente da república tem dominado a arte de pautar o que deseja ser discutido. Solta um “Golden shower” e retira o debate da venda da Petrobrás, xinga uma jornalista e sequestra a discussão sobre o pífio crescimento econômico do primeiro ano de governo e do recorde na fuga de capitais. Solta um vídeo no “zap” e consegue fazer a oposição gratuitamente divulgar os protestos que não pode convocar diretamente e, de sobra, ainda consegue adeptos para um novo #EleNão sem qualquer fumaça de movimento popular capaz de confrontá-lo senão fortalece-lo perante os seus.

Não é do povo em geral ou “das massas” que estão sequestrando o debate. É daqueles que se consideram de esquerda, progressistas ou seja lá qual for a denominação que se queira dar. Não há ilusões de que o nosso campo, ainda que não estivesse caindo nessas armadilhas, evitaria a consumação da entrega, mas é evidente que estamos perdendo a oportunidade da verdadeira resistência, que é a contenção real de danos.

Mas o que nós estamos fazendo? Discutindo se houve ou não relacionamento extraconjugal, espalhando memes, refutando o que sequer os eleitores entenderam como impedimento para eleição do militar? Nos distraindo nos grupos ou simplesmente tirando onda com os eleitores do presidente?

Há perguntas a serem feitas: Por que alguns setores da esquerda não tocam nesses assuntos? Por que não estão na linha de frente das ações para contenção de danos? Por que estimulam essas distrações do presidente e seus asseclas? As respostas devem sem avaliadas por cada um de nós, mas uma coisa é certa: se a esquerda não conhece ou não sabe discutir aquilo que a diferencia dos demais, como vai convencer aos demais sobre o que está sendo feito no país? Como vai conter danos? Certamente não será apenas segurando um na mão do outro.

Inverteu-se a expressão popular: Enquanto os cães ladram e comem, a caravana se cala.

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