Cachorro acuado, mesmo covarde, sempre tenta sair mordendo


Por Mabel Teixeira

Após os anúncios sucessivos de trocas no governo federal, Ciro Gomes afirmou que “cachorro acuado, mesmo covarde, sempre tenta sair mordendo”. De acordo com Ciro, Bolsonaro está mais perto de um impeachment do que de arrastar as forças armadas para uma quartelada ao modo “boçalnarista” de ser.

CACHORRO ACUADO

Na última segunda-feira (29), o presidente mexeu os pauzinhos em seis pastas do governo. Foram duas demissões, dois remanejamentos e duas agregações. No pior momento da pandemia no Brasil, a movimentação desta semana segue a linha da alteração realizada no Ministério da Saúde. Em outras palavras, Bolsonaro, acuado, busca distribuir agrados ao centrão, baixar a temperatura no Congresso e manter seus cães de guarda por perto.

Dança de cadeiras no governo Bolsonaro

Assim, para contentar o presidente da Câmara Arthur Lira (PP), Bolsonaro nomeou a deputada Flávia Arruda (PL) para Secretaria de Governo e, em desagravo ao Congresso, demitiu o ministro das relações exteriores, Ernesto Araújo, nomeando Carlos Alberto França para substituí-lo. Já para felicitar os filhos e o bolsonarismo raiz, indicou o delegado Anderson Torres para pasta da Justiça, remanejando André Mendonça de volta à Advocacia Geral da União (AGU). Por fim, mostrando os gastos dentes, o presidente demitiu Fernando Azevedo e Silva do Ministério da Defesa.

A TENTATIVA DE SAIR MORDENDO

Na dança das cadeiras de Jair Messias, a inesperada mudança na Defesa foi a que gerou maior furor. Mal havia sido anunciada e lá estava parte da mídia aventando a possibilidade de um golpe, de um estado de sítio ou defesa. Ao certo, Fernando Azevedo e Silva, o ex-ministro, não costearia o alambrado do golpismo, sendo ele real ou narrativo.

Do mesmo modo, Edson Leal Pujol, até ontem comandante do Exército, não endossaria em plenitude o marketing golpista. Assim, ao mostrar os dentes às Forças Armadas, Bolsonaro não apenas desencadeou a inédita troca simultânea nos comandos do Exército, da Marinha e da Aeronáutica, como alimentou a narrativa de um novo 1964.

PARA ALÉM DA NARRATIVA, OS FATOS

Ora, é compreensível que a aparente bagunça na Caserna a um dia do aniversário do Golpe Militar cause certa apreensão. Entretanto, vale dizer, o movimento sincronizado das Forças Armadas demostra que o capitão, ao demitir o oitavo general e desencadear a debandada, está, de fato, se afastando não de alguns militares, mas sendo publicamente repelido pelo espírito de corporação das Forças.

Além disso, devemos destacar que a efetivação de um golpe depende não somente de forte controle militar, mas também anuência das instituições democráticas (Congresso Nacional e Supremo Tribunal Federal) e, hoje, da complacência da comunidade internacional. Apenas como exercício ficcional, tente imaginar as potências mundiais assistindo impassíveis o maior país sul-americano se transformar em uma ditadura durante uma pandemia global. Parece factível?

Em suma, olhando o cenário de maneira racional, Ciro Gomes parece ter acertado em cheio mais uma vez: cachorro acuado, mesmo covarde, sempre tenta sair mordendo. Estamos assistindo diariamente, e ao vivo, a tentativa desesperada de um governo moribundo se agarrar ao poder através do medo imposto à população. A narrativa do golpe, a aposta no marketing do terror é, ante os fatos, apenas mais uma rosnada de quem está sem saída.

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