Boris Fausto: Lula fez um mal enorme para esquerda no episódio da aliança fracassada com Ciro


O jornal Valor Econômico publicou hoje, 3 de outubro, uma entrevista extensa com o historiador Boris Fausto, um dos mais respeitados do país, abordando a atual conjuntura eleitoral, Bolsonaro, PT, e o futuro da democracia brasileira.

Boris Fausto, 87 anos, é historiador, ex-professor de ciência política da Universidade de São Paulo (USP) e autor de estudos clássicos sobre a história do Brasil.

Destacamos o seguinte trecho:

* * *

Valor: É possível dizer que Bolsonaro e o PT representam o mesmo risco à democracia?

Boris: A resposta com relação ao Bolsonaro é mais simples. Ele é um evidente risco à democracia. Até porque ele não acredita na democracia. Trata-se de um defensor da tortura que elogia e quase sacraliza o regime militar. É tão explicita essa recusa da democracia que fica fácil dizer isso. Ainda recentemente disse que ‘joga o jogo, mas só se eu ganhar’. Seria uma frase que seria infantil se não fosse dramática. Com relação ao PT é mais complicado.

Valor: Por quê?

Boris: Infelizmente, existe uma certa tentativa, não de todo o partido, de construir um poder hegemônico. São tendências fortes do PT que se expressam em frases como a de José Dirceu. Ele fala em tomar o poder. Não sei que peso tem o Dirceu nesta altura, mas são sinais de uma intenção autoritária. O PT também fala na ideia de estabelecer um controle da imprensa, mesmo que se diga que não é uma censura, mas uma comissão que vai regular as atividades da mídia para evitar o monopólio. É uma coisa que até faz sentido, mas da forma que eles colocam não me parece democrático e alvissareiro.

Valor: Por isso a eventual vitória do PT tem sido vista com alarde pelo mercado financeiro e entre alguns segmentos da sociedade?

Boris: Temos uma situação de muita oposição entre os extremos, ainda que não considere o PT um extremo. Diante da polarização, vejo um risco, pela ação de um governo petista e a atitude de seus inimigos, de uma instabilidade política e social que possa levar até a um golpe. Não do estilo do caudilho que toma o Poder, mas de um grupo militar com o apoio de civis. Espero que não ocorra, mas o bicho feio está aí.

(…)

Valor: E quais os riscos eminentes de um governo Haddad?

Boris: Estou vendo sintomas. Pessoalmente, o Haddad é uma pessoa que foge ao comportamento de certos quadros intransigentes e radicais do PT. Agora, ele não tem voo próprio. Subiria pouco nas pesquisas se não fosse ungido por Lula. Teve que se afirmar como candidato do Lula. Mais do que isso, se fundiu com a pessoa do Lula, que já o fez a contragosto beijar a mão do [Paulo] Maluf na eleição para a prefeitura. Isso já é um dado complicado.

Valor: Mas é do jogo político.

Boris: O PT não faz a menor crítica do desastre que ele representou no plano ético. Outros partidos também foram ruins. Mas pela própria história do PT, eles têm mais débitos. Pessoas altamente comprometidas foram saudadas como guerreiros do povo brasileiro. O programa de governo indica que eles vão seguir com a mesma política econômica, com ataques à Lava-Jato e críticas de perseguição da mídia. Na política externa, enquanto outros países condenaram as arbitrariedades na Venezuela, o PT não fez isso. Em nome de um combate ao imperialismo americano, o partido defende um regime desastroso que levou o povo venezuelano à fome.

Valor: Haddad não pode representar uma renovação no PT?

Boris: Haddad é melhor do que o partido. Mas qual é o esforço que ele tem feito para acenar com uma aliança com setores de centro, para dar uma configuração mais ampla e menos insensata ao seu governo? Não vejo nenhum sinal, pelo contrário. Enquanto Alckmin bombardeia Bolsonaro, ele silencia porque Bolsonaro é um candidato que lhe convém no segundo turno por ser de extrema direita. O que quero dizer é que se for para repetir mais do mesmo, depois de uma experiência fracassada e em um ambiente muito mais inflamado, não podemos esperar algo bom. Estamos em situação arriscada, à beira do abismo.

(…)

Valor: A sombra do Lula não atrapalha o surgimento de novos líderes de esquerda?

Boris: Ele fez um mal enorme para esquerda no episódio da aliança fracassado com Ciro. A chapa Ciro-Haddad parecia praticamente invencível. Em nome de sua hegemonia, ele fez do interesse de seu partido seu interesse próprio. ‘Ao meu lado não tem sombra. Sou rei’. Ele faz isso com extrema habilidade. A canonização do Lula em meios universitários é impressionante. As pessoas abrem mão de pensar neste momento. Isso tudo dificulta o surgimento de uma figura com outro perfil, com um passado menos comprometido. Quem se mete a fazer isso? As vozes no PT se calam. Tem o Psol, mas sua ressonância é limitada.

* * *

Vale a pena ler a íntegra.

+ Não há comentários

Adicione o seu