Ainda há esperança na democracia: Por que vale a pena acreditar em Ciro


A democracia não é aquela coisa bela e simples como alguns, normalmente, pintam. Oscar Wilde uma vez disse que “a democracia significa, simplesmente, o desencanto do povo, pelo povo, para o povo”. Demonstrou com essas palavras que este não é um sistema que apresenta soluções mágicas para velhos problemas. Ou seja, se os antigos regimes não puderam suprir as esperanças das pessoas de representar a totalidade da vontade popular, tampouco a democracia o faria. O desencanto que havia com a monarquia, com a ditadura ou com o império não se extingue quando a democracia se estabelece. Da mesma forma que ocorria em todos estes regimes, na democracia muitas necessidades não são satisfeitas, muitas vontades são contrariadas e muitos direitos desrespeitados. A diferença, neste caso, é que o desencanto não pode mais ser canalizado em ataques contra um monarca, um ditador, ou um imperador. As pessoas podem até se insurgir contra o(a) chefe de Estado, mas mesmo assim sabem que o estadista lá está devido ao voto popular.

E nosso desejo maniqueísta de eleger vilões – fruto da maneira simplista com que enxergamos a realidade – é grande, mas era um tanto mais viável quando podíamos odiar personalidades exclusivamente, depositando sobre elas toda a culpa por nossas mazelas, já que, por terem poderes ilimitados, eram os únicos a quem se podia culpar. Já na democracia, a coisa fica um pouco mais complexa, afinal, sabemos que uma boa parcela da população levou aquele estadista que não nos agrada ao poder, e que continuará levando caso este esteja agradando seu próprio eleitorado, não importa o que poucos insatisfeitos façam para impedir. Logo, as relações sociais entre classes e grupos identitários são tensionadas ao extremo, uma vez que seus interesses são, na maioria das vezes, antagônicos. Este maniqueísmo que insistimos em manifestar faz então com que passemos a direcionar este mesmo ódio aos grupos e classes que consideramos diferentes (e por isso oponentes) de nós. Sendo assim, o desencanto do povo se mantém, mas desta vez ele é produzido pelo próprio povo e é destinado ao mesmo.

“O inferno são os outros”, Sartre costumava dizer. O que significa que é um inferno ter de lidar com as diferenças; de costumes, de ideias, de vontades, de opiniões, de tudo. Ter de suportar expressões opostas que muitas vezes ofendem tudo aquilo em que acreditamos é demasiado cansativo. Temos uma natureza autoritária que nos induz a querer submeter a vontade do outro à nossa, seja por simples egoísmo, seja porque realmente acreditamos que o que queremos é o correto. Por isso a convivência em sociedade não é trabalho fácil. Para que haja alguma harmonia faz-se necessário ceder privilégios, respeitar diferenças e garantir direitos. Ou seja, a democracia exige esforços ativos de cada cidadão para combater em si as más tendências egoísticas que predominam em nosso âmago. Tal como o Cristo, segundo a bíblia, ela não trouxe a paz, mas a espada, pois nos demanda custosamente desconstruir velhos preconceitos e abrir mão de nosso excessivo amor próprio em prol de uma igualdade maior de oportunidades entre todos e, consequentemente, em virtude de uma convivência mais harmônica.

O que agrava a tragédia da democracia no Brasil, entretanto, é a forma como esta foi absorvida e apropriada pelas elites. Como Sérgio Buarque de Holanda bem pontuou: “A democracia no Brasil sempre foi um lamentável mal-entendido”. Quando o regime foi aclamado como a melhor forma para desafiar o domínio das aristocracias na Europa, aqui no Brasil foi posto a serviço da aristocracia rural, no intuito de garantir a manutenção de privilégios ad eternum, tudo com o consenso ativo dos explorados. Isso significa que a democracia brasileira foi, desde o início, utilizada pelos poderosos como uma ferramenta para manter seus poderes. Quando a supremacia rural caducou, os industriais é quem a usaram como bem entendiam, e quando as indústrias decaíram, foram os banqueiros, rentistas e as megacorporações quem passaram a instrumentalizar a democracia a seu bel prazer. Portanto, a democracia no Brasil é um grande mal-entendido porque não serve ao povo, e nem servirá enquanto suas estruturas não forem subvertidas (o que, por sinal, pode ser alcançado democraticamente).

Contudo, a grande questão a ser discutida neste momento é: ainda que a democracia seja facilmente instrumentalizada pelas elites, que desagrade boa parte dos cidadãos com resultados polêmicos, que traga mais tensão às relações entre classes e que às vezes até mesmo culmine em infelizes atos de violência cometidos entre irmãos de pátria, nela somos nós quem decidimos que destino queremos dar às nossas vidas. Sei perfeitamente que há milhares de limitações que nos impedem de fazê-lo da maneira que queremos ou no tempo que desejamos, afinal faz-se necessário aguardar que se forme uma massa de eleitores, ou de contestadores, ao nosso lado para criarmos um mínimo consenso sobre uma mudança que para nós já é bastante óbvia. Podemos, às vezes, propagar algumas ideias durante décadas e com isso conseguirmos apenas plantar pequenas sementes, que não brotarão senão décadas mais tarde. Outras vezes nossas ideias podem nem chegar a vingar no futuro, mas foi a coletividade que assim o quis, então por que não respeitar? A verdade é que a história nos deixou bem claro: quando a ideia é positiva para o coletivo e é defendida com ímpeto, ela prevalece à revelia do passar dos anos. O filtro do tempo relega os argumentos enganosos ao esquecimento e premia os verdadeiros com a aceitação da maioria. Tudo isso é chato e dá trabalho, é verdade, mas mesmo assim, é a gente que constrói.

Queremos mesmo abrir mão da possibilidade de construir o mundo que queremos para entregar o poder sobre nossas vidas a um aventureiro qualquer apenas porque ele pode acelerar as coisas? Ainda que exista um enorme risco deste sujeito acelerar na direção errada? Será que vale a pena terceirizar o processo de decisão sobre o que é melhor para nossos futuros só porque é difícil demais lidar com as opiniões diferentes das nossas? É evidente que, ao desistirmos da democracia, estaremos fugindo de problemas com os quais, mais cedo ou mais tarde, teremos de nos confrontar novamente. Colocarmo-nos frente a frente com valores totalmente opostos aos nossos e convivermos com eles pacificamente é algo que terá de ser feito hora ou outra, já que a opressão jamais eliminará a subjetividade dos seres. Que tal, então, fazê-lo com liberdade? Não parece mais sensato aprender a viver com a diversidade antes que cometamos, mais uma vez, o erro de tentar violentar a existência dos outros? Já estamos carecas de saber que o sangue não ensina nada a ninguém; apenas traz dor e mais ódio.

Ciro, em algumas ocasiões, tem demonstrado seu espanto com a desconfiança com que a democracia passou a ser vista e com a desesperança da população em relação ao potencial da política. Afinal, sua geração apostou nela todos os seus sonhos de um futuro mais justo para o Brasil. Fica difícil detectar em que momento perdemos o apreço pela liberdade e passamos a preferir o autoritarismo em nome da garantia de privilégios, mas para Ciro, um democrata convicto, é claramente doloroso se defrontar com a decadência do amor pela democracia. E é justamente por isso que ele tem expressado o quanto quer e precisa ser presidente do Brasil neste momento. Sua eleição na atual conjuntura, devido às suas propostas que desafiam privilégios absurdos de classes improdutivas, poderá retomar o crescimento econômico simultaneamente à recuperação do nível do pleno emprego. Sua experiência lhe permitirá desenvolver a educação de maneira a, posteriormente, elevar o nível técnico da produção, e a mitigar, lentamente, os preconceitos enrustidos na sociedade brasileira através de um debate aberto sobre a diversidade. O resultado de um projeto robusto como este será, muito provavelmente, o resgate da confiança do povo brasileiro no potencial transformador da política e da democracia.

Não houve, desde a redemocratização, risco tão grande para as liberdades individuais, para os direitos trabalhistas e das mulheres, para o direito de existência da comunidade LGBT e para o combate ao racismo como há agora. E é exatamente por isso que cabe a todos nós elegermos a melhor estratégia para evitar este retrocesso. Dos candidatos que estão disputando as eleições no topo, Ciro, atualmente, é o único que não polariza o eleitorado e que não possui rejeição voraz. Além do mais, conforme dizem as pesquisas, ele pode derrotar tanto o PT quanto Bolsonaro com tranquilidade. Em outras palavras, Ciro poderá impedir uma eleição desastrosa de Haddad – que paralisaria o país e colocaria em cheque o bom andamento da democracia – e, igualmente, poderá travar o avanço de Bolsonaro, que possui claras características hitlerianas, e que, se eleito, promete esbanjar seu autoritarismo sobre as mulheres e minorias.

Se havia um momento de gravidade que estávamos esperando para tomar a decisão de lutar energicamente pela manutenção de nossas liberdades, este momento chegou. A democracia pode nos demandar tempo de vida, esforço físico e mental, nos trazer muitos revezes e algumas alegrias, mas ainda vale a pena lutar por ela. Para tanto, a estratégia mais clara que temos é unir forças, digitar 12 e eleger Ciro para presidente neste domingo.

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