A nova frente democrática e a decadência da esquerda cirandeira


A esquerda brasileira está, claramente, fragmentada. De um lado temos os progressistas (posicionados na centro-esquerda do espectro político) que buscam fazer uma oposição sólida e lúcida contra o presidente da extrema-direita, e de outro temos a esquerda cirandeira – composta por alguns militantes de partidos ditos socialistas e por alguns esquerdistas lacradores autônomos (que em época de eleição abandonam a ideologia para unirem-se ao PT). Suas estratégias de oposição normalmente envolvem atos como abraçaços, beijaços, entrega de flores e danças com guarda-chuvas. Com estes atos esperam que seus adversários recuem amedrontados da ofensiva de retirar direitos dos mais pobres e da supressão do estado democrático de direito.

Alguns analistas têm lamentado e criticado vorazmente a tal fragmentação por acreditarem que esta enfraquecerá uma necessária oposição a Jair Bolsonaro. Porém, eu não compartilho da mesma percepção.

Já há algum tempo muitos têm alertado para os malefícios da estratégia da esquerda lacradora. Isso porque seus adeptos, frequentemente, pertencem a uma classe média que não enxerga, e tampouco se preocupa em tentar enxergar, a realidade das classes mais pobres. Reproduzem um discurso liberal, tão moralista quanto seu oposto conservador, que busca impor liberdade total de costumes em uma sociedade amplamente dominada pelo conservadorismo propagado pelos templos e por parte da mídia. Não querem saber, portanto, se a imposição desta liberalidade é compatível com a vontade da população ou não, pois veem-se amparados pela suposta superioridade moral de seus ideais. E absortos neste pensamento não aceitam qualquer crítica ou contraponto à sua retórica. Todos aqueles que se recusam a comprar seu discurso autoritário são classificados como retrógrados e obtusos.

Nesta rapidez em rotular aqueles que não com concordam consigo, eles ignoram que toda conquista por igualdade e liberdade de costumes envolve um processo educacional, que ocorre lentamente. Terminam por não enxergar a violência que cometem ao tentar enfiar suas demandas goela abaixo da sociedade civil. E quando qualquer pessoa reage resistindo à ideia progressista que lhe impõem, a acidez crítica desta esquerda é despejada sobre sua cabeça, causando cada vez mais rejeição a ela e às ideias que tenta obrigar a aceitar. Não percebem, portanto, que sua noção moderna de mundo dotada de costumes liberais é fruto do privilégio de sua condição social e econômica. Ou seja, entender que o conservadorismo da sociedade é prejudicial para muitos grupos pode até depender do caráter individual em certa medida, mas este entendimento está majoritariamente ligado ao privilégio de desenvolvimento cognitivo ao qual a classe média tem acesso através de condições básicas de saneamento, nutrição, segurança, oportunidades, formação de um senso crítico resistente às coerções culturais, etc.

Isso não significa, porém, que não existam pessoas que, a despeito de terem acesso a todo tipo de instrução, não irão destilar seu preconceito contra aqueles que consideram diferentes. A subjetividade também é um elemento importante na maneira como cada um reagirá às importantes mudanças sociais que se lhe apresentam. Mas, como lidar com estes (se através do combate ou da educação) é uma questão que diz respeito a cada um. A cada qual a estratégia que melhor lhe representa.

Portanto, o motivo que me faz acreditar que esta fragmentação momentânea não é de todo ruim se traduz na necessidade mais urgente que agora temos de defender as instituições democráticas e dialogar com as massas em seus próprios termos. Em tempos sombrios como estes, precisamos urgentemente de uma esquerda sóbria que conheça minimamente as funções das instituições políticas e judiciárias para cobrá-las devidamente. Necessitamos agora de progressistas que dialoguem com a população através de suas demandas reais e não que queiram empurrar a liberdade de costumes sem o devido processo educativo que a deve preceder. Mas a pergunta que fica é: como estes progressistas sérios podem agir na atual conjuntura?

 

O novo bloco democrático e as estratégias oposição

Um novo bloco de centro-esquerda acaba de ser formado pela liderança de Ciro Gomes na Câmara dos Deputados e no Senado esta semana. Seu objetivo principal é unir seus congressistas nas votações e deliberações em prol do trabalhador e da população pobre contra os retrocessos e extinção de direitos que serão frequentemente propostos por parlamentares e presidente da extrema-direita. A formação do bloco, por enquanto, inclui PDT, PSB, PCdoB e Rede, e chama a atenção pela ausência dos deputados do PT e do PSOL. Ao que parece, o hegemonismo e a soberba do Partido dos trabalhadores já não serão mais aceitos por outros partidos do campo progressista. A sigla, afinal, rejeitou uma frente democrática antes do primeiro turno e articulou contra a candidatura de parceiros da esquerda com o objetivo de concentrar em si o protagonismo da luta contra o fascismo. E ao fazê-lo acabou por entregar o poder justamente nas mãos deste mesmo fascismo. O PSOL, por sua vez, saiu destas eleições como uma linha de apoio ao PT, e ao que tudo indica a tendência é que se subordine cada vez mais ao mesmo no intuito de herdar o eleitorado lulopetista.

O novo bloco parlamentar possui 69 deputados e 13 senadores, formando maioria em ambas as casas, e superando o número de congressistas de PT e PSOL juntos. O potencial desta frente democrática, portanto, é gigantesco. E mesmo assim esquerda cirandeira tem argumentado que uma união sem a presença do PT seria irrelevante. Sua perspectiva política ficou presa a este partido por tanto tempo que já não podem mais acreditar em qualquer ação que não ocorra sob sua liderança. Devido a isso, muitos têm dito que não apoiarão o bloco parlamentar, e que a militância na rua seria suficiente para deter os perigos da extrema-direita. Apostarão os direitos dos trabalhadores nos desfiles, saraus, abraçaços, beijaços, danças coletivas e afins quando poderiam agir oferecendo suporte prático às ações do bloco parlamentar que realmente pode votar e propor de acordo com os interesses destes trabalhadores.

Não podemos mais permitir que a esquerda cirandeira nos leve a uma nova série de derrotas desastrosas. A estratégia ideal nas atuais circunstâncias é unir as forças progressistas sob este bloco democrático parlamentar – no objetivo principal de manter as conquistas dos trabalhadores – e, simultaneamente, pressionar o mesmo para aderir e propor pautas mais à esquerda. Ou seja, devemos nos unir pela democracia e contra a perda dos direitos básicos ao mesmo tempo em que introjetamos as demandas identitárias e os projetos de mudança estrutural na frente democrática, gradativamente. Desta maneira, a frente progressista democrática unida, formada no intuito de evitar os retrocessos, irá buscar também criar consenso sobre o quão crucial é debater as pautas mais progressistas e, principalmente, cobrar para que as políticas públicas de educação da população a respeito da importância destes avanços sejam implementadas por nossos congressistas representantes.

A realidade é que a maioria dos militantes da esquerda que conseguiram se libertar da paixão pelo PT já sabem que defender o estado democrático de direito através da política institucional é tão importante quanto educar o povo no sentido da extinção dos preconceitos. Entretanto, muitos integrantes da esquerda cirandeira encontraram nesta grave luta uma maneira de angariar popularidade entre os seus. Através de textões, ataques aos potenciais machistas e homofóbicos, convocações aos abraçaços e beijaços, e até mesmo através da defesa do “astro-rei” da esquerda, Lula, encontraram uma forma de atrair curtidas e compartilhamentos nas redes sociais. Para estes, pouco importa a conquista de direitos, a reeducação dos cidadãos ou a defesa concreta da democracia. Mais vale a manutenção de seu status como protagonistas das lutas alheias e defensores caricatos das classes mais pobres através de discursos memorizados das cartilhas universitárias. Se destacam aqueles que forem os melhores comunicadores ao denunciarem as mazelas do povo, quando na verdade não conhecem nenhuma delas a fundo. É o advento do novo sofismo lacrador.

A fragmentação, ao que tudo indica, será útil para separar o joio do trigo na dura batalha que temos pela frente, além de cumprir o papel de pressionar muitos progressistas a assumirem uma postura mais madura. Afinal, é certo que, mesmo a esquerda cirandeira, ao ver a frente democrática segurando a barra contra o fascismo no dia-a-dia, vai acabar abdicando de seu desejo por status. Se não por perceber que esta estratégia é a única capaz de prevenir os retrocessos, renunciarão por medo de verem ruir sua própria reputação como protetores eminentes dos oprimidos. Todavia, serão bem vindos para somar nas ações desta nova frente em prol da democracia.

1 Comentário

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  1. 1
    Rey

    E isso!! fico feliz e otimista, uma frente de centro esquerda de progressistas trabalhistas e tudo que falta para educar a grande massa a entender que sem trabalho e educação não tem País no Mundo que progrida…

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