Bacurau e a Política Nacional


Muito se pode falar, pensar e sentir sobre o filme Bacurau, de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles: É uma obra de ficção cheia de referências cinematográficas, da estética da fome e do sonho, de Godard ao Glauber Rocha, passando por Tarantino, pelos reality shows e filmes de ação e faroeste. Talvez até uma influência da série “Westworld” da HBO.

Mas no Deep News dessa semana vamos nos aprofundar em um assunto que nos agride diariamente: Bacurau é uma obra que faz pensar, profundamente, em política nacional. Aviso: contém leves spoilers 😀

Em um futuro próximo, mesmo em um cenário árido e ausente de riquezas naturais, com água e comida escassa, existe abundância de tecnologia: motos, internet e os smartphones estão na mão de todo Bacurense, ou Bacureiro, não se sabe a definição ao certo. Quando forasteiros perguntam isso a uma criança da cidade, ela simplesmente responde: Quem nasce em Bacurau é gente.

E é uma gente que defende com unhas e dentes, escopetas e facas, suas vidas e sua honra. Diferente da limitação cognitiva e do entreguismo do típico eleitor de Bolsonaro e sua trupe, os personagens da cidade possuem raízes, uma identidade com a cultura e história da cidade e profunda rebeldia ao establishment representado pela figura política local, o prefeito Tony Jr.

Tony Jr. representa um desses prefeitos interesseiros, típicos do Brasil profundo, que aparece na cidade pedindo votos em troca de comida e remédios fora da validade, explorando a escasses de recursos básicos da cidade. Numa cena onde livros são despejados por um caminhão como se fosse lixo, a visão desrespeitosa com a cultura e educação deste político se revela. Uma virtude do roteiro do filme é não trazer um personagem de político herói estereotipado como contraponto ao político, comum nos filmes nacionais que tratam de política, como tropa de elite.

Mas Bacurau não cai no papo de Tony. Talvez por percepção aguçada por poderosos psicotrópicos, talvez pela cultura proporcionada pelo professor local (que na prática é o prefeito não oficial da cidade), os habitantes se respeitam, cuidam das saúde, lidam com naturalidade a diversidade sexual, tratam prostitutas com dignidade e até possuem um museu sobre a cidade, motivo de orgulho para os moradores.

Estes valores não importam para Tony que, como alguns, enxerga a política como forma de enriquecimento ilícito às custas da miséria do povo. Por ele a cidade e seus moradores poderiam sair do mapa. E, misteriosamente, é exatamente isso que acontece, quando o professor não a encontra no tablet, em um aplicativo de mapas durante uma aula.

Desprezado e desacreditado por todos da cidade, Tony JR. tem um papel estratégico nos acontecimentos violentos que acontecem ao longo da história, sendo um facilitador de uma espécie de safári humano “gamificado”. Representando o entreguismo e falta de humanidade que infelizmente avança na política nacional, ele vende e permite que a cidade seja um parque de diversões sangrento para um grupo de invasores americanos psicopatas. Uma alegoria distópica inspirada em um futuro próximo que nos espreita para 2022: uma candidatura neoliberal que abrirá de vez as porteiras do Brasil para o interesse internacional, como Tony JR. fez para os invasores de Bacurau.

Bacurau e a Política Nacional

Me apropriando de uma palavra que também invadiu nosso vocabulário para filmes e séries, paro por aqui com os spoilers: não deixe de assistir o filme e comente o que achou, do ponto de vista político, de Bacurau.

Confira o Trailer:

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